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2026/08/26

Camões nas óperas românticas musicadas por Friedrich von Flotow



___ As óperas camonianas 
de Friedrich von Flotow ___


"Vimos como uma ópera-cómica em um ato [L’Esclave du Camoëns, 1843] se transformou numa ópera em três, e, finalmente, em quatro atos. Depois de um libreto concentrado que, no entanto, apontava para várias pistas, vimo-la transformada em grande espetáculo, em alemão, francês e, na sua versão de maior difusão, em tradução italiana. 

Todos os textos enfermam da mesma abordagem superficial de Camões e da sua poesia, mas não deixa de ser curioso que a versão alemã de Putlitz [Indra, das Schlangenmädchen (A rapariga-serpente), 1852] é a que mais revela como o autor se informou da história de Camões, apesar dos seus defeitos como escrita dramática. Situa a ação em Sofala, aproximando-se assim da Ilha de Moçambique onde o poeta na realidade permaneceu, fala da sua vivência em Coimbra, outro dado verídico, a sua estadia em Goa, a morada em Macau que, diz, me ofereceu asilo amigável, para que eu pudesse cantar ali a glória da minha pátria, e é a única das três versões que refere expressamente Os Lusíadas. 

Em contrapartida, Alma, l’Enchanteresse [1878], mostra ser uma ópera de grande espetáculo, e creio ter sido esse o objetivo de Henri de Saint-Georges, depois de ter escrito L’esclave du Camoëns, que não resultou no sucesso que esperaria."
Vítor Amaral de Oliveira
in REC 2 (2026), p. 61


  Partitura manuscrita de L'Esclave du Camoëns  
"Table thématique de L'Esclave ou Camoëns, opéra comique en 1 acte, paroles de Mr. de St. Georges, musique par F. de Flotow", incluindo 14 fragmentos de pautas musicais anotadas pelo compositor, indicando o início da Abertura e as várias árias da obra (12 peças numeradas de 1 a 7 com números bis e ter)."
na Leiloeira Invaluable.com


   Friedrich von Flotow, 1812–1883   
foi um compositor alemão do período romântico. 
Embora seja universalmente lembrado pelo sucesso 
da sua ópera Martha (1847), a sua carreira em Paris ficou 
profundamente marcada por obras emblemáticas 
que fundiam a delicadeza melódica germânica com o espírito teatral francês. 
Entre estas produções destaca-se L’Esclave du Camoëns (1843),
 uma ópera relevante para o público lusófono devido à sua temática.


L’Esclave du Camoëns

 Opéra comique en un acte 

Libreto de Henri de Saint-Georges
com música de Friedrich von Flotow

Paris: Beck Éditeur, 1843. - [PDF1, PDF2]

Théâtre de l'Opéra-Comique, 1 de dezembro de 1843

 ARGUMENTO 

"Há apenas quatro personagens: Camões, D. Sebastião, José o estalajadeiro, e Griselda a escrava. Camões, cujos versos são cantados nas ruas de Lisboa, está homiziado na estalagem de José, morrendo de fome.

Griselda, sua escrava, afeiçoou-se a ele e canta à noite disfarçada de cigana sob o nome de Phœbéa, para recolher dinheiro e poder alimentar o infeliz poeta. 

D. Sebastião, durante as suas saídas noturnas e boémias, apaixona-se pela cigana e segue-a até a estalagem. Aí encontra o poeta, e como o rei está vestido de oficial, disfarçando a sua condição, vê no seu interlocutor, que não reconhece, um seu par, pois este diz-lhe que também fora militar. A conversa entre os dois não é muito curial da parte de Camões, pois o poeta, também não reconhecendo o seu interlocutor, lança uma diatribe contra o rei, que apoda de desumano, divertindo-se enquanto o povo sofre. E remata com a frase que, modificado o sentido, fechará o círculo da ação dramatúrgica: Eis o reino de um neto de Carlos V! O rei retém-se, sem dar importância à ofensa, e fala-lhe na desconhecida por quem se apaixonou, a mesma que lhe aparece, entretanto, e que Camões apresenta como sendo a sua escrava, que trouxera da Índia, de Goa. O encontro é ensejo para um trio entre Griselda, que conta como se tornou escrava, D. Sebastião, que exalta a sua beleza, e o interesse que tem na tal desconhecida, não reconhecendo ainda que é a mesma pessoa que descobrira nas ruas, e Camões, que reafirma perentoriamente que ela é sua escrava, deixando entrever que está apaixonado sem nomear o objeto do seu amor, o que suscita a réplica de Griselda que, igualmente, fala dos seus sentimentos, sem os desvelar.

Segue-se uma ação quase simultânea: vêm prender Camões, proscrito, que se esconde ajudado por José; Griselda fica a sós com o rei, que se declara e que a intima a pedir a alforria ao amo, para a fazer grande dama de Portugal, pois é ele mesmo o rei. Griselda, aterrorizada, acede, mas pede que, em troca, ele retire a pena ao seu amo, que nomeia como sendo Camões, cantando uma ária onde retoma a história das desventuras do poeta. 

O desenlace está próximo, Camões aparece, já preso, D. Sebastião apresenta-o aos presentes como um homem de génio, e para além da liberdade, oferece-lhe o melhor prémio que ele poderia obter, a mão de Griselda, sacrificando assim a sua paixão ao maior génio de Portugal. Camões exclama então: reconheço finalmente o neto de Carlos V."
Argumento por 
Vítor Amaral de Oliveira
in REC 2 (2026), p. 52-53

 🔊 Ouvir momentos da ópera 


  L'esclave du Camoens, música de Friedrich von Flotow 
Carl Petersson · Estera Rajnicka
Friedrich Von Flotow & Jacques Offenbach: Works for Cello and Piano
Sterling Records, 2013 | Vídeo no Youtube, 08.47

Friedrich von Flotow: 
compilação a partir da ópera "L’Esclave du Camoëns"
Atuação ao piano de Carl Petersson.
No Youtube, 7.11.2014 | Vídeo, 08:43



   Indra   

 Ópera romântica em três actos 

Libreto de Gustav [Heinrich Gans] zu Putlitz
com música de Friedrich von Flotow

S.l., c.1853. - [PDF1, PDF2]
Estreia no Teatro Imperial e Real da Corte, 18 dez. 1852.


Indra: romantische Oper in drei Aufzügen; 
zum ersten Male aufgeführt in dem k. k. Hoftheater nächst dem Kärntnerthor 
den 18. Dezember 1852
Text von Gustav Heinrich Gans zu Putlitz; Musik von Friedrich von Flotow.
1853

 ARGUMENTO 

"Agora é já uma ópera em três atos, a que foi dado o título de Indra em 1852 (publicada em 1853), rebatizada no ano seguinte com outro título mais sugestivo, Indra, das Schlangenmädchen (A rapariga-serpente), que segue nas grandes linhas o texto de Saint-Georges.

Para aumentar o libreto tornando-o mais espectacular, Putlitz acrescenta cinco personagens, desenvolve cenas já definidas no texto inicial, chama para primeiro plano a personagem do estalajadeiro José, a quem atribui uma esposa, Zigaretta, criando cenas pícaras entre ambos, que amenizam o conflito central, o mesmo da peça anterior, utiliza a figura de um oficial, Pedro, que entra também na disputa do amor de Indra, e cria uma personagem exótica, Kudru, uma mulher moura, líder de um grupo de artistas indianos. 

Para emoldurar o ambiente exótico em que a peça se deve desenrolar, cria coros de nobres, de marinheiros e da trupe de saltimbancos que acompanham a escrava Indra e a sua dona, a atestar a proveniência indiana da protagonista, encantadora de serpentes, coros que, um pouco à maneira da tragédia grega, pontuam a ação e dialogam com as personagens, até mesmo para introduzir alguns dados ainda não especificados previamente.

Parece estar construída uma base espetacular que justifica o aparato cénico e que, de algum modo, premeia a composição musical de Flotow, talvez o impulsionador da nova criação."
Vítor Amaral de Oliveira
in REC 2 (2026), p. 54

 🔊 Ouvir momentos da ópera 


  Abertura de "Indra, das Schlangenmädchen", 1939?   
Música de Friedrich von Flotow
Orquestra da Ópera Alemã de Berlim / Walter Lutze
No Youtube, vídeo - 06:15



 Alma, l'enchanteresse 

 opéra en quatre actes 

Libreto de Henri de Saint-Georges
com música de Friedrich von Flotow

Paris, 1878. - [PDF]


Henri de Saint-Georges (Auteur du texte)
 Alma, l'enchanteresse: opéra en quatre actes / de M. de Saint-Georges,
adapté à la scène italienne par A.[Achille] de Lauzières-Thémines [1818-1894]; 
musique de F. de Flotow...
Alma, L’ Incantatrice: opera  in  quattro  atti, 
adattata  alla  scena  italiana da  A.  de  Lauzières. 

Paris: Léon Escudier, Calman Lévy, 1878.

 ARGUMENTO 

Ato I - Em Goa
"Alma deixa de ser encantadora de serpentes e é apenas dançarina numa trupe de saltimbancos, numa cena inicial de grande espetáculo de canto e dança. A esta cena assistem alguns oficiais amigos de Camões, os mesmos que mais tarde se vão cotizar para pagar a viagem de volta do poeta à pátria saudosa. 

Depois da ária, que Saint-Georges aproveitou em parte de Indra, dando, neste caso, talvez o único traço oriental da descrição da natureza de uma Goa totalmente imaginada, sabemos logo a relação não declarada entre a escrava Alma e Camões. Este vai comprá-la a Kubli com o ouro que os amigos lhe deram, para a livrar de ser vendida a outro, e os versos cantados pela rapariga vão entretecendo uma possível paixão, nunca explicitada, num diálogo longo que gera uma dramaturgia de tensão sentimental, cujo desfecho se vai dar apenas no final. 

Alma é a mesma escrava que agora pertence a Kubli, o chefe da trupe. Há igualmente a cena pícara da discussão entre José e a mulher, agora nomeada Zingaretta. O primeiro ato acaba com a partida clandestina de Camões, que já não tem o dinheiro para a viagem, e de José e Alma que fazem questão de o acompanhar."

Ato II - Em Lisboa, no albergue de José 
"No início do segundo ato encontramos, pela primeira vez nas diferentes versões da ópera, Camões definido cenicamente com os atributos requeridos da sua personagem: sentado a uma mesa, escreve. Alma ouve o resultado dos seus versos, que exaltam a pátria e Lisboa e que, evidentemente, não reproduzem nada da poética camoniana. E tal como nas outras versões, Alma faz o mesmo périplo noturno da cidade para angariar dinheiro para o amo. 

O grande momento espetacular de conjunto, que em Indra era a saída da igreja, motivo para apresentação da personagem D. Sebastião, que aparecia como magnânimo, passa-se aqui em tempo de Carnaval e o rei, incógnito e grande folião, goza um dia de folia e de diversão: sejamos felizes e busquemos o prazer no amor, exortação que motiva um bolero, composição de Flotow que agradou sobremaneira aos críticos. 

Um ritornelo acompanha a cena do Carnaval. D. Sebastião, já no albergue de José, bebe um vinho da Madeira exaltando a dança, a euforia, o amor. E é nesta cena que Zingaretta lhe apresenta o cigarro e o ensina a fumar.

Camões aparece vindo de dentro da estalagem, e dá-se o encontro entre o rei e ele, sem reconhecimento mútuo, repetindo-se a cena das versões anteriores, em que Camões condena as atitudes do monarca. Bebem ambos à pátria e ao rei, que fala da paixão secreta que nutre por uma desconhecida. O aparecimento de Alma desencadeia a querela já conhecida anteriormente na versão original de Saint-Georges, e a altercação leva a que D. Sebastião se fira no punhal que Camões empunha. Alma e Camões fogem, entram os oficiais do rei, que querem ir apanhar o causador da luta, mas D. Sebastião prefere continuar a festa, negligenciando a tristeza e louvando o prazer da noite."

Ato III - Nas ruas de Lisboa
"O terceiro ato abre com o grande espetáculo do Carnaval nas ruas de Lisboa, e não deixa de ser coincidência, mesmo remota, que sugira o desfile até à Orta Navia que Camões descreve na Carta VI (Camões 2022). D. Sebastião mistura-se na multidão. Em dado momento revela a sua identidade, e sugere que continuem todos a divertir-se, como ele que deixa aos ministros a tarefa do governo. Pega num bandolim e canta um bolero, em que mistura Inês e Carmen e amores cruzados, mistura aleatória de nomes que sugerem a Carmen de Prosper Mérimé (Mérimé 1846) e Inês de Castro que vai dançar ao Prado. 

Quando volta ao albergue, José pede-lhe clemência para quem o agrediu. D. Sebastião concederia, mas isso compete ao primeiro-ministro, em mais um dado anacrónico. Alma pede a
Camões que fuja, pois o seu contendor era o rei e isso vai custar-lhe a vida. Camões canta uma ária cheia de amargura e quer entregar-se, mas ouve-se cantar na rua, é o povo que entoa os seus versos, o que lhe dá novo ânimo. Mas é tarde demais, os esbirros do rei vêm prendê-lo. Ainda há tempo para Camões e Alma cantarem um pequeno dueto em que finalmente declaram o seu amor."
Ato IV - No porto de Lisboa
"O quarto ato, curto, decorre no porto de Lisboa. Camões está preso. Alma canta uma ária, a historieta de dois homens que amam a mesma mulher, e ela deixa um para ir com o outro, prefigurando o desfecho da ópera que está para breve. 

As portas do castelo onde está o seu amado poeta abrem-se quando chega o rei. Este pede a Alma que cante para ele. Ela responde-lhe que não pode estar alegre, quando aquele que ela ama geme no fundo de uma cela. Os prisioneiros saem em fila, algemados, o povo grita pela justiça dos céus, o rei responde que deve punir os criminosos. 

Alma reconhece Camões entre os presos e pede clemência para aquele que ama: Ambos fi carão para a História. A sua glória tornar-vos-á imortal, diz ela. O rei, intrigado, pergunta quem é ele. Ao ouvir Alma pronunciar o nome de Camões, honra e glória de Portugal, D. Sebastião, glorifica-o e estende-lhe a mão, enquanto Camões abraça Alma."
Argumento por 
Vítor Amaral de Oliveira
in REC 2 (2026), p. 58-60

 🔊 Ouvir momentos da ópera 


 A soprano Maria Galvany [1878-1949] canta “L’incantatrice” (take 1) 
de Flotow em italiano. - Gravado em 1910 
no Youtube, vídeo - 04:22

Reprod. também em Opera Guide, no Youtube, vídeo - 04:15


 A soprano Maria Galvany [1878-1949] canta “L’incantatrice” (take 2) 
de Flotow em italiano. - Gravado em 1910 
no Youtube, vídeo - 04:18


para saber +


in e-CAM, 26.08.2026

Friedrich [Adolf Ferdinand] von Flotow (1812-1883) | Facebook (port.)

Henri [Marie Louis Vernoy] de Saint-Georges (1799-1875) | Facebook (fr.)

Gustav [Heirich Gans zu] Putlitz (1821-1890) | Facebook (eng.)

Vítor Amaral de Oliveira
in Revista de Estudos Camonianos 2 (2026), 
Macau: Rede Camões na Ásia & África, 47-62.

Vitor Amaral de Oliveira 
Revista de Estudos Camonianos Núm. Extra, «Ternate 2022», 
Macau: Rede Camões na Ásia & África, 66-78. 

Maria Aparecida Ribeiro
Convergência Lusíada, vol. 36, 
Rio de Janeiro, 161-180.

José Freire de Serpa Pimentel
A escrava de Camões, 
Revista Académica 1 (1845) 
Coimbra: Imprensa de E. Trovão.

Luis de Camoens
La Lusiade du Camoens: 
poème héroique sur la découverte des Indes Orientales 1
traduit du Portugais par M. Duperron de Castéra, 
Paris: Chez Huart, David, Briasson et Clousier, 1735.







Redação: 19.08.2026, atualizado em 26.08.2026

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