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2026/06/08

O Camões iconoclasta de Amaro della Quercia



"segundo o amor tiverdes, 
tereis o entendimento de meus versos"



O erotismo camoniano expressa-se em verso
através de uma constante tensão entre 
o desejo físico e a transcendência espiritual.
A poesia lírica de Camões foi publicada postumamente,
na obra intitulada Rimas (1595).

A figuração de Camões pelo desenho de Amaro della Quercia
afasta-se da iconografia mais convencional, 
sobretudo a herdeira dos primeiros retratos elaborados desde o séc. XVII.
 A sua apropriação da imagem do poeta,
apresenta agora, muitas das vezes, um Camões
maduro ou envelhecido, desnudado, físico
na sua naturalidade humana e masculina.
Na imagem abaixo, Camões e uma companheira,
 ou os navegadores e as ninfas na Ilha Enamorada,
ou Adão e Eva no Paraíso, todos os pares amorosos,
são "verdades puras". Apenas a feiura da vista do poeta-soldado
está coberta por uma pala, que o poeta não terá usado,
mas que aqui basta para o identificar.



                           Desenho por Amaro della Quercia, [Porto, 2026]                          
Tinta da china sobre papel.

     "E vós,  Tagides minhas, [...], tendes em mim um tal engenho ardente..." | Porto, 2026     
Tinta da china sobre papel, 21x14 cm
Da série "Camões ", por Amaro della Quercia 
Esta obra foi apresentada na LAAF 2026. Stand 22




para saber +



Amaro della Quercia | Facebook

in e-CAM, 5.05.2026

in e-CAM, 5.05.2026

in e-CAM, 28.03.2025

Redação: 8.06.2026

2022/08/07

Falar de Amor prestando homenagem a Camões - uma opção poética de Ana Luísa do Amaral
















Ana Luísa Amaral (1946-2022)







"Em larga medida, o amor é inexprimível, porque não se explica. E é mortal. A única coisa que o pode imortalizar é a palavra."

In: Entrevista ao DN, 14.08.2005



ÚLTIMA MEDITAÇÃO DE CAMÕES II


Nasceste-me sem musa
e sem cuidado,
sobrevoando o tempo,
e as mais comparações 
que aqui eu possa
não te farão justiça nem acerto

Foste, palavra minha,
o mantimento
que trouxe de jornada,
e alimentaste a génese de tudo
nas visões
mais amargas

Ainda que em silêncio,
diz-me agora
de como pode ser
contentamento
este fogo de luz:

cruel morada

Dá-me outra vez,
em papel brando,
o mundo:

Eu: queimando por versos
um segundo,
tu, por um som,
ardendo eternidade

Ana Luísa Amaral
*
In: A Génese do Amor. Porto: Campo das Letras, 2005.
A gênese do amor.Rio de Janeiro: Gryphus, 2007.
[A versão textual foi reconstituída a partir da Internet]






o texto dito
pela Poetisa, na Brotéria.






2016/04/10

Luís de Camões - Suspiros inflamados, que cantais

José de Guimarães - obra sem título - in WikiArt.org.html


Suspiros inflamados, que cantais
a tristeza com que eu vivi tão ledo!
Eu mouro e não vos levo, porque hei medo
que, ao passar do Lete, vos percais.

Escritos para sempre já ficais,
onde vos mostrarão todos co dedo,
como exemplo de males; que eu concedo
que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes falsas esperanças
de Amor e da Fortuna, cujos danos
alguns terão por bem-aventuranças,

dizei-lhe que os servistes muitos anos;
e que em Fortuna tudo são mudanças,
e que em Amor não há senão enganos.

Luís de Camões

Fonte:

Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 105.

2016/04/08

Enquanto quis Fortuna que tivesse - soneto camoniano.

Do filme "Camões" de Leitão de Barros


Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.


Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,


verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos.

Luís de Camões


Fonte:
Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 25.

2016/04/07

Eu cantarei de amor tão docemente, - soneto camoniano

O nascimento de Vénus (1754) por François Boucher


Eu cantarei de amor tão docemente,
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
de vossa vista branda e rigorosa
contentar-me-ei dizendo a menos parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões



Fonte:
Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 27.


2016/04/06

Busque Amor novas artes, novo engenho - soneto

Fonte da imagem: Bloggs74

Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê:

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como; e doi não sei porquê.

Luís de Camões

Fonte:

Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 296.


2016/04/02

"A fermosura desta fresca serra", soneto de Luís de Camões

"Praia das Maças", 1918 - por José Malhoa















A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está, senão te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enjoa e me avorrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando,
nas mores alegrias, mór tristeza. 

Luís de Camões


Fonte:
Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de  Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 212.

A VIDA DE CAMÕES