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2025/06/10

Comemorações do 10 de Junho de 2025 em Lagos





Comemorações do 10 de Junho em Lagos


1 a 10 JUN. 2025 | Em Lagos


Organização:

Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho em Lagos
Município de Lagos
Presidência da República Portuguesa



"A efeméride, de grande simbolismo e significado para todos os portugueses, 
acontece este ano em Lagos. A cidade dos Descobrimentos 
- escolhida por Sua Excelência o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, 
como sede das comemorações - é, neste dia, o centro da lusofonia. 

Uma honra que acontece quase 30 anos após a realização do 10 de Junho de 1996, 
igualmente celebrado em Lagos, e que provavelmente tão cedo não se repetirá."

In Município de Lagos | Facebook, 10.06.2025



PROGRAMA


9 JUN. 2025 | Lagos

Início das Comemorações do 
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em Lagos


Hastear da Bandeira Nacional

Cerimónia presidida 
por Marcelo Rebelo de Sousa,
Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas

o qual recebeu honras militares 
prestadas pelos alunos da Academia Militar, 

enquanto a Banda do Exército executava o Hino Nacional, 
acompanhada pelo Grupo Coral de Lagos.

Expo Forças Armadas | 2025

Após a cerimónia do hastear da bandeira
o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou a Exposição, 
uma mostra dos meios militares ao serviço dos três ramos.


CERIMÓNIA MILITAR

A Cerimónia Militar foi o ponto alto das celebrações iniciadas a 1 de junho,
que impressionou pela dimensão das forças em parada e do desfile militar, 
o qual aconteceu em terra, no mar e no ar.

Destacam-se momentos como

A condecoração do General e ex-Presidente da República, Ramalho Eanes, 
com a imposição do grande-colar da Ordem Militar de Avis.

O discurso proferido pela escritora Lídia Jorge, também presidente da 
Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho 2025 em Lagos.

O último discurso do 10 de Junho de Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
e Comandante Supremo das Forças Armadas.


"DESAFIO E CIRCUNSTÂNCIA"

DISCURSO 

da escritora Lídia Jorge

Lídia Jorge, escritora e conselheira de Estado e, nesta ocasião, 
enquanto membro da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho em Lagos,
foi a personalidade escolhida para proferir o discurso inicial - que teria reações contraditórias.

Na sua intervenção de c. 30 minutos, citou Shakespeare, Cervantes e Camões,
destacando, obviamente, ao longo de todo o seu discurso, o Poeta 
de Portugal, da Lusofonia e autor de "Os Lusíadas".

Um discurso centrado na vida e na obra de Camões, 
mas que dele parte para refletir sobre a atualidade - um tempo 
de racismo, de desumanidade, de mediocridade cultural e política.
- E para anunciar a mudança desejável, a sua voz lúcida fez-se ouvir.


DIA DE PORTUGAL, 
DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

DISCURSO

de Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República Portuguesa
Comandante Supremo das Forças Armadas

No seu último discurso do 10 de Junho, Marcelo Rebelo de Sousa
"desmistificou e clarificou o que é ser português ao afirmar que 
os quase 900 anos de pátria e história comum 
foram construídos por povos vindos de toda a parte. 

"Não esqueceu os mais frágeis 
e a necessidade de se cuidar melhor da nossa gente, 
dando prioridade ao combate às desigualdades, um tema que lhe é caro 
e uma preocupação que marcou o exercício das suas funções no Palácio de Belém."


CONCERTOS

Concerto da Orquestra do Algarve

às 18h30 | na Praça do Infante
Concerto ao ar livre
sob a direção do maestro Pablo Urbina. 



Concertos pelas bandas/orquestras militares:
Banda de Música da Força Aérea, Banda da Armada, 
Banda Sinfónica do Exército e 

Orquestra Ligeira do Exército (OLE)

Concerto ao ar livre
às 21h30 | na Praça do Infante.
Imagem em Município de Lagos | Facebook, 10.06.2025



Paraquedistas Falcões Negros

Seis paraquedistas Falcões Negros que cruzaram o céu 
num impressionante salto em queda livre na escuridão, 

Fogo de artifício

às 23h00 | na Avenida dos Descobrimentos


“Vasco da Gama e a Índia”

EXPOSIÇÃO

organizada pelo Museu da Marinha
com o apoio da Câmara Municipal de Lagos

10 a 15 JUN. 2025 | das 10h00 às 20h00

No Armazém Regimental, na Praça do Infante , em Lagos

Exposição temporária "Vasco da Gama e a Índia"
Imagem no Facebook do Município de Lagos

"Uma mostra que celebra os 500 anos da morte de Vasco da Gama 
e recorda o legado e a importância do navegador português, 
através de uma abordagem inovadora que alia tecnologia e história."




Arriar da Bandeira Nacional 

Final da tarde do 10 de junho de 2025 | na Praça Infante D. Henrique

Cerimónia presidida 
por Marcelo Rebelo de Sousa,
Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas.




para saber +


Ricardo Coutinho (Vídeo) / Presidência da República
Com discurso de Sua Ex.a o Presidente da República | VÍDEO, 09:10
in Presidência da República Portuguesa | Sítio Oficial de Informação, 10.06.2025

in Presidência da República Portuguesa | Sítio Oficial de Informação, 9.06.2025

in Município de Lagos, 11.06.2025

in Município de Lagos, 12.06.2025

in Município de Lagos, 30.05.2025





Redação: 14.06.2025

Camões caricaturado na arte de António Gaspar


10 DE JUNHO 
Dia de Portugal, de Camões
e das Comunidades Portuguesas

CARICATURA

de António Gaspar

10 JUN. 2025 | Portugal


Caricatura publicada
in António Gaspar | Facebook, 10.06.2025




"Rebaldaria na Ilha dos Amores ... salva pelo Sto. Casamenteiro."
- por António Gaspar
in António Gaspar | Facebook, 10.06.2025


Camões será nome de aeroporto.
Não vá convidarem o escultor do busto de CR7, que está no aeroporto da Madeira, 
para realizar o do Luis de Camões!
- por António Gaspar
in António Gaspar | Facebook, 15.05.2025


Camões e os Santos Populares
"Há dias vi uma reportagem sobre os Santos populares em que as bancas diziam que agora 
o que estava a sair era a bifana e bifranga porque a sardinha estava pela hora da morte. 
O menino já não vai saborear lombinhos de sardinha. Até o Camões anda desactualizado."
- por António Gaspar
in António Gaspar | Facebook, 6.06.2024


O Bordel Político
"Transformaram o 10 de Junho, dia de Camões e das comunidades, 
num tal Bordel político que até o autor do episódio da ilha dos amores, 
rejeita participar." - por António Gaspar
in António Gaspar | Facebook, 12.06.2023


"Malta: vem aí o dia de Camões e o Sto António!"
por António Gaspar
- in António Gaspar | Facebook, 9.06.2023



"Camões recebia uma tença de miséria que nem sempre era paga."
por António Gaspar
- in António Gaspar | Facebook, 10.06.2022


"Vocês ainda ainda continuam à espera do D. Sebastião?
por António Gaspar
- in António Gaspar | Facebook, 10.06.2021



"Distância Sanitária", de António Gaspar
Premiado na VII Bienal de Humor - Luis d'Oliveira Guimarães
- in António Gaspar | Facebook, 26.03.2020


"Camões desconfinado e actualizado"
por António Gaspar
- in António Gaspar | Facebook, 10.06.2020



Nomeação de um Comissário para organizar as comemorações do 10 de Junho
"Hoje não me apeteceu fazer o cartoon, fica apenas o esboço!"
por António Gaspar
- in António Gaspar | Facebook, 26.01.2019



para saber +

António Gaspar, o lápis que ri | Facebook




Redação: 15.06.2025

2025/04/10

O significado do dia 10 de junho


Colóquio Internacional 500/100:
500 anos do nascimento de Camões. 100 da morte de Teófilo Braga.

Cartaz (pormenor) do evento.

10 de Junho

"Em 1580, morria em Lisboa, numa modesta casa da calçada de Sant'Ana, na maior indigência, com o coração retalhado pelos infortúnios da pátria, que em virtude dos manejos jesuíticos também soçobrava, o príncipe dos poetas portugueses Luís de Camões.

Em 1572, saía dos prelos de António Gonçalves a primeira edição dos Lusíadas, edição revista pelo próprio poeta. E em 1584 era publicada a segunda edição, mutilada pelos jesuítas, que não conseguiram o seu nefasto intento de apagar o poema assim como haviam reduzido à miséria o seu autor. Os Lusíadas, porém, foram reintegrados no seu primitivo texto, chegando até nos em sucessivas edições e a sua fama ecoou pelas nações cultas do mundo que os verteram nos seus idiomas.

Em 1867, após várias tentativas e esforços, foi-lhe inaugurado o monumento. Era a primeira prestação da grande dívida, paga a Camões pela pátria sua amada.

Em 1880, Portugal saudou num brado uníssono a memória do seu maior poeta. As nações da Europa, a América, o Brasil, acompanharam o povo português nas suas patrióticas manifestações e contribuíram para a grandiosa e solene comemoração do tricentenário.

Qual foi, porém, a mola que impulsionou o povo português para o grande jubileu do orago nacional?

Como foi que as forças vivas do trabalho, representadas por todas as classes sociais, correram pressurosas, unindo esforços e atividades para realizar os solenes festejos e cortejo cívico que Portugal jamais havia presenciado?

E qual foi o fator da aderência das nações estrangeiras ao grandioso movimento?

Um homem!

O caráter mais enérgico, a individualidade mais extraordinária que conhecemos em Portugal.

Ninguém dirá que aquele organismo encerra o cérebro mais potente, mais forte, melhor orientado, que está ali o maior poder espiritual da nacionalidade portuguesa.

Esse homem é Teófilo Braga.

E assim escrevia Teixeira Bastos, em 1882, traçando a biografia do grande mestre.

"A comemoração grandiosa do grande épico é a obra mais extraordinária e colossal de Teófilo Braga. Foi, com efeito, ele o único autor das festas cívicas de 1880, festas que se repercutiram em todo o mundo, onde chegou um dia o nome de Portugal. O ilustre professor desde 1873, começara a propagar a ideia simpática da glorificação do poeta dos Lusíadas; em cartas para o estrangeiro, nas lições do Curso Superior de Letras, em conversas particulares, foi lançando a semente que se desenvolveu pouco a pouco, até que em 10 de junho de 1880 se colheram os frutos soberbos e ótimos nas ruidosas festas e mas a inúmeras publicações do tricentenário. A ação de Teófilo Braga foi bem evidente, mas ele meteu-se na sombra, ocultou-se modestamente detrás da comissão da imprensa, e daí, furtando-se ao agradecimento público, gosou como simples comparsa o efeito sumptuoso da sua obra, Era, na verdade, feliz por ver a força de uma ideia.
...............................................
Teófilo Braga na sociedade moderna é revolução; revolução na arte, na historia, na filosofia, nos costumes e nas fórmulas sociais. E a esperança do futuro nacional."

São decorridos vinte e nove anos.

E como é consolador ver o bom amigo e mestre através o grande espaço de tempo, sempre firme no seu posto, trabalhando com o mesmo ardor, a mesma perseverança e atividade, sem resvalar um ápice do caminho de intransigência e desinteresse que a si próprio traçou.

E como deve ser grato ao atleta do livre pensamento e apóstolo fervoroso da República ver a sua obra tão salutarmente propagada pelo país, por elementos de altíssimo valor, que têm secundado o trabalho do mestre e louvado as suas sábias lições.

O tricentenário camoniano abriu caminho e deu unidade ao Partido Republicano. E quando soar a hora do advento da República, a estátua de Camões será juncada de flores e Teófilo Braga receberá a palma da vitória ofertada pelas multidões reconhecidas.

É um tributo de gratidão cívica."

Jornal "O Mundo", 9 de JUNHO de 1909.


Transcrição do documento original do Arquivo de Teófilo Braga
que integra o acervo da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
A imagem digital consta Arquivo dos Presidentes do MPR, 
disponível online em:







Redação: 9.04.2025

Cartaz do Colóquio Internacional 500/100: 500 anos do nascimento de Camões. 100 da morte de Teófilo Braga.

2020/06/10

10 de junho de 2020, Camões e o papel da poesia como bússola da interioridade





O QUE É AMAR UM PAÍS

discurso 

Cardeal D. José Tolentino de Mendonça
Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020

nas comemorações oficias do 10 JUN. 2020



O QUE É AMAR UM PAÍS

Agradeço ao senhor Presidente da República o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água [...] a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança -, mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação, não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore, não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável arte de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas[, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é ]sentir-se protagonista [e participante] de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. Desconfinar é não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para sonhar [ousar] sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto VI d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto VI tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

[No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.]

É à observação realística que Camões faz da tempestade que gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são afinal também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Por isso não há super-países, como não existem super-homens. Todos somos chamados a perseverar com [ealismo e] diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas.

O que é amar um país

O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da II Grande Guerra escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país porque o idealizamos, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, fica exposto a todos os riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática não só a admiração e o orgulho, mas também a compaixão – que é uma forma de amor no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo de fraternidade. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto VI d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história: um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça ou de pesca, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa e é aí que pode sempre recomeçar.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, redescobrir e reforçar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação [fraterna] da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar as pessoas no centro, ou quando não se empenha devidamente em tornar concreta a justiça social, que é uma nuclear aceção da palavra "justica" que n\ao deve, jamais, ser omitida. 
[quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional

Reforçar o pacto comunitário implica, entre nós, relançar a aliança intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a todo o momento uma coisa coesa e inseparável [: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral]. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar uma geração dispensável ou como um peso, pois não podemos viver uns sem os outros. É essa a lição das raízes.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos, por exemplo, como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Eles têm sido as principais vítimas da pandemia e não só porque o seu quadro clínico os coloca como população em risco, também socialmente os idosos estão transformados em população de risco, que nós não queremos ver. Estão mais sós, mais pobres, remetidos muitas vezes para precários contextos de institucionalização, vendo a sua condição humana e social esquecida quando não desvalorizada. Além disso, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determina uma diminuição do seu valor intrínseco. A vida é um valor sem variações. Uma raiz do futuro de Portugal  passa por aprofundar a contribuição dos seus mais velhos, ajudando-os a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Permitam-me um testemunho pessoal, quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, que era uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Em criança pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria se apercebesse, a mediar o nosso primeiro e inesquecível encontro com os tesouros da cultura. Os idosos são extraordinários mediadores de vida  e a comunidade deve ser a primeira interessada em beneficiar do seu contributo.

Mas robustecer a aliança intergeracional é também olhar seriamente para outra das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Reforçar o pacto comunitário implica abordar com coragem a questão da integração. No contexto do surto pandémico, foi um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes, com pedidos de autorização de residência pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração, essencial quando se perspetiva a comunidade é, porém, como sabemos imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes e essas não se improvisam, são lentas, requerem tempo, oportunidades e esperança, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, “Vitalina Varela”, onde se diz a alguém que chegou ao nosso país: “Chegaste atrasada. Aqui em Portugal não há nada para ti.” Sem compaixão, sem sentido de fraternidade não há comunidade presente ao futuro digna desse nome e fortalecem-se apenas os muros, alienando a possibilidade de gerar raízes. A comunidade não se reforça esquecendo as periferias, mas fazendo delas o motor da sua própria coesão. Reforçar o pacto comunitário implica também um olhar novo sobre a ecologia.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade sejam pensados a par do presente e do futuro da grande casa comum. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos nossos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o bem maior que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui antes uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que juntos interrogamos.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020




O que é amar um país?: O poder da esperança / José Tolentino Mendonça
Lisboa: Quetzal, 2020




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