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2026/02/14

Camões e Macau no romance “O Reino Proibido” do escritor neerlandês J. Slauerhoff



"Se a felicidade pudesse ser encontrada em algum lugar da Terra, tinha que ser lá."
O Império Proibido, 1932

Camões e Macau num romance neerlandês



O Reino Proibido / J. Slauerhoff. – Trad. Patrícia Couto, Arie Pos. Lisboa: Teorema, 1997.

Ed. original: Het verboden rijk. – Rotterdam: Uitgave Nijgh & Van Ditmar, 1932.


 




“O romance revela um mundo em decomposição e em conflito, dominado pela animosidade entre chineses e portugueses e é constituído por três linhas narrativas que se entrecruzam e se sobrepõem. Uma primeira relata a história de Macau, desde os acontecimentos que por volta de 1540 levaram à sua fundação até ao início deste século. À imagem dada segue a linha de ascensão e queda apresentada na obra de C. A. Montalto de Jesus, Historic Macao: international traits in China old and new (1926). Trata- e de uma reedição da obra publicada em 1902, aumentada com uma parte bastante crítica em relação à política governamental e ao futuro de Macau. Logo após a sua publicação foi proibida e queimada pelas autoridades [Nota: “Uma primeira edição portuguesa da versão apreendida em 1926, Macau Histórico, foi publicada em 1990 pela Livros do Oriente”, Macau. – 350 p.; il. (25 cm)]. Não obstante, Slauerhoff adquiriu um exemplar do livro durante a sua primeira visita a Macau. Utilizou-o como fonte de informações acerca da história da colónia portuguesa. Mais uma vez, tal como foi o caso com a biografia de Camões da autoria de Schneider, a obra fornecia uma visão e interpretação dos acontecimentos históricos que correspondia à visão do próprio Slauerhoff. E mais uma vez ele utilizou os dados para servir os seus intentos, de forma aleatória, transfigurando-os e deslocando-os no tempo e no espaço. Assim, encontramos no Prólogo que trata da fundação de Macau dois protagonistas chamados Farria e Mendes Pinto e um remake do episódio da vingança de António de Farria em resposta à destruição de Liampó pelos chineses, como relatado por Fernão Mendes Pinto na sua Peregrinação. Slauerhoff baseou-se no resumo do episódio que encontrou em Historic Macao.

Uma segunda linha narrativa descreve a vida de Luís de Camões na corte de Lisboa, a viagem de navio para o desterro, o naufrágio (aqui situado em frente à baía de Macau), um segundo exílio – desta vez para a China – e a travessia pelo deserto chinês. As duas linhas juntam-se quando Camões chega a Macau.

A terceira linha narrativa conta a vida dum radiotelegrafista anónimo de origem irlandesa, que nos inícios dos anos trinta do nosso século se encontra embarcado no Mar de China. O radiotelegrafista apanha sinais misteriosos que mais tarde se mostram ligados à vida de Camões. Através dos sinais, o espírito do poeta consegue tomar conta do espírito do radiotelegrafista. Também ele sofre um naufrágio e é obrigado a atravessar o deserto chinês. Ambos vagueiam à beira da morte pelo deserto, onde se dá por fim uma «sobreposição» das duas personagens. As duas personagens confluem e no corpo do radiotelegrafista (mas vestido nas roupas de Camões) conseguem voltar a Macau, onde o radiotelegrafista se liberta da influência avassaladora do poeta, que se refugia na sua gruta, dedicando-se exclusivamente à composição da sua epopeia. O radiotelegrafista volta para Hong Kong para retomar a sua vida, na ciência de que os espíritos do passado não o podem libertar do seu próprio destino.

O que pode parecer um romance histórico é, pelo contrário, um complexo e arrojado romance simbólico que trata do problema da identidade do homem moderno e da questão da inspiração poética. O radiotelegrafista pode ser interpretado como mais um alter ego do autor, desta vez na sua qualidade de poeta maldito moderno que se deixa inspirar por poetas malditos de outros tempos. A inspiração procurada ameaça a identidade do poeta moderno.

É com este mesmo sentido simbólico que no romance a linguagem é sempre apresentada como um instrumento inadequado, que conduz à falta de comunicação, ao isolamento e à morte. Também a linguagem está sujeita à corrosão do tempo. As palavras perderam a sua força, elas desvalorizaram-se na troca diária. No romance, praticamente não encontramos diálogos. Também as cartas nunca são respondidas, as ordens e conselhos não são ouvidos por ninguém. A profunda crise em que os dois protagonistas se encontram é a dum mundo fragmentado, sem coesão interna, porque foi o verbo, a palavra no sentido de logos, que perdeu o seu poder ordenador e criador. Quer isto dizer que também a palavra é fragmentada e que cabe aos protagonistas restaurá-la.

A busca desta palavra matriz é uma longa e perigosa expedição, tal como fora a viagem de Vasco da Gama. Desta vez o rumo não leva ao outro lado do mundo, mas para dentro, para o subconsciente. Abandonado no deserto chinês, numa alucinação próxima da morte, o radiotelegrafista é possuído por Camões, seu subconsciente é o recetor do canto do poeta português. É preciso procurar nas ruínas do passado, da tradição literária – aqui representada na figura de Luís de Camões –, os resíduos para construir um novo canto. O radiotelegrafista sobrevive porque é salvo por Camões e porque se salva de Camões, expulsando-o. Se necessita da tradição literária, também precisa de se distinguir dela para poder construir a sua própria identidade.

O texto que perverte Os Lusíadas, é ao mesmo tempo construído à base de fragmentos da obra lírica de Camões, recorrendo a palavras, imagens ou motivos do poeta português. Este é o romance em que Slaueihoff é «possuído» por Camões, de quem, como um vampiro, extrai o canto.”


Patricia Couto

In: “Camões e Macau num romance neerlandês”
em Camões: revista de letras e culturas lusófonas, n.º 7 – Macau
(out.-dez. 1999), 115-117.







 

  1. Slauerhoff, J. - [O Reino Proibido] - capa de ed. holandesa.
  2. Slauerhoff, J. J. - [O Reino Proibido] - capa de ebook em holandês.
  3. Um dos primeiros mapas minuciosos de Macau, 1639, pelo cosmógrafo António de Mariz Carneiro.
  4. Slauerhoff vestindo indumentária chinesa (in Col. Letterkundig Museum).
  5. Jan Jacob Slauerhoff e a baliarina Darja Collin, com quem esteve casado entre 1930-35.
  6. Panorama de Macau, em bilhete-postal, da coleção do escritor (in Literatuur Museum).


Registo vídeo da visita do escritor à Gruta de Camões, c. 1927
Favoriete reisbestemmingen [Notas de viagem favoritas]
Exposição online sobre J. Slauerhoff
in Literatuurmuseum / Kinderboekenmuseum, na Holanda
[O Museu da Literatura / Museu do Livro Infantil]


para saber +


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Exposição online sobre J. Slauerhoff
in Literatuurmuseum / Kinderboekenmuseum, na Holanda
[O Museu da Literatura / Museu do Livro Infantil]

Texto de Daan Cartens & Dick Welsink (texto)
Equipe Editorial: Maarten Hamelink e Esther Rikkengaa
Peças de arquivo fotográfico: Michiel Spijkers
Vídeo IN10 - Comunicação e Estúdio 05
Com aproveitamento da biografia de Slauerhoff 
de Wim Hazeu.






Redação: 11.03.2023, atualizado em 13.02.2026

2025/11/10

Carlos Morais José e o romance de temática camoniana

© Conteúdo integrante desta exposição.








 

Carlos Morais José
n. Lisboa, 1963. 
Poeta, escritor, editor e jornalista.

Licenciado em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa.

Foi jornalista do diário português O Século 
e do semanário O Independente

Em 1990, com 26 anos, mudou a sua residência e atividade para Macau,
trabalhando também aí em vários jornais e revistas:
Revista de Cultura, editada pelo Instituto Cultural de Macau;
o jornal Tribuna de Macau e o Macau Hoje.

Foi diretor da revista mensal Face (Macau, 1993)
e atualmente coordena  a revista trimestral Via do Meio 
(Lisboa, outono de 2023-), consagrada à sinologia.
É diretor do jornal diário Hoje Macau (desde set. 2001), em língua portuguesa,
fundou a editora COD e é também responsável pela Livros do Meio.

Tem várias obras publicadas e em diferentes géneros.

OBRA:

Crónicas, editoriais e banda desenhada: 
Porto interior: onde se fala de portugueses, chineses, burgueses, filipinos, deputados, governadores, tailandeses e outros malteses neste Macau à beira-China implantado (Macau, 1993), 
A Coluna da Saudade (Macau, 1994).
Complexo de Édito (2004, editoriais).
Caze: um caso de ópio (1997), com ilustração de Patrícia Fonseca.

 Ficção: 
A morte são 4 noites (Macau, 1996), 
O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja 
(Macau, 2016. | 2.ª ed., Lisboa, 2018. | Trad. em inglês, 2019),
Cartas ao mundo tal qual o conhecemos (2020),.

Poesia: 
Macau: o livro dos nomes (2010, 2.ª ed., rev. e aument., 2022), 
Anastasis (Lisboa, 2013), Visitações (2013), O Comedor de Nuvens (Macau, 2021).

Ensaios: 
Ladrão de Tempo (Macau, 2020),
Nove pontos na bruma: textos sobre a China (Macau, 2022).

Edição:
A poesia de Camilo Pessanha, Investigação, lição e apresent. 
de Carlos Morais José & Rui Cascais. ( Macau, 2004);
Quinhentos poemas chineses: antologia de poesia (Lisboa, 2014),
Coord. António Graça de Abreu & Carlos Morais José;
Obras completas de Wenceslau de Moraes, 9 vols. (Macau, 2004-20159).
A via do imortal / Li Bai (Lisboa, 2024); trad. e notas António Izidro, 
ed., rev. literária e introd. Carlos Morais José.

Argumento cinematográfico / representação:
"Pe San Ie: o Poeta de Macau", filme de longa-metragem de Rosa Coutinho Cabral.
(Em torno do exílio voluntário em Macau de camilo Pessanha)
Co-autoria do arg. de Rosa Coutinho Cabral, Carlos Morais José e Rui Pedro Mourão.
Um Produção de Art8 e Nocturno Filmes, 2018.
Trailer no Youtube.


O ROMANCE "O ARQUIVO DAS CONFISSÕES"
edições e tradução

O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja
ROMANCE
Macau: Livros do Oriente, 2016.

Obra lançada em Lisboa em outubro de 2016
e na Fundação Rui Cunha, em Macau, em 13 de dezembro de 2016.

2.ª ed., Lisboa: Arranha Céus, set. 2018.


The Archive of Confessions: Bernardo Vasques and Envy


Macao: PraiaGrande Edições, 2019.






O livro perdido de Camões na ficção de Carlos Morais José

O que aconteceu ao “Parnaso” de Luís de Camões?
por José Carlos Canoa

"O romance O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja (2016) tem 167 páginas repartidas por 27 breves capítulos numerados que se leem duma assentada. E todavia, a simplicidade da obra é aparente. 

Logo à entrada, na “Advertência ao leitor”, a nota preliminar funciona também como informação ao inverso: sendo uma “história” é certamente ficção e se, por isso mesmo, não é de esperar “rigor” ou “justeza” próprios da História, a narrativa nela irá beber, tratando-se, portanto, de um romance histórico, com uma personagem como Luís de Camões, que tanto é ficcional como verdadeira, tal como o cenário da Ilha na costa oriental africana, o furto de um manuscrito valioso e alguns outros aspetos da viagem que era estabelecida entre o Reino e o Estado da Índia. 

A natureza controversa do protagonista Bernardo Vasques e a ideia de ter existido em Macau um arquivo de confissões da comunidade são ótimos elementos ficcionais e envolvem o leitor no enredo simultaneamente fabuloso e credivelmente verdadeiro.

Complementarmente, no final da obra, Carlos Morais José regista nos “agradecimentos” as figuras da literatura, do cinema, da história e outras áreas do saber que o terão influenciado, entre elas, Helmut Schoeck, o autor de Envy: A theory of social behaviour (1966), que lhe proporcionará os fundamentos “científicos” para um pródigo exame da Inveja, outra protagonista da história.

Portanto, a narrativa de Carlos Morais José, para além de dialogar com a História de Portugal e a vida e a obra de Camões, configura e psico-romanceia Bernardo Vasques, desde a sua infância no núcleo familiar, passando pela comunidade académica de Coimbra e depois no grupo de viagem para a Índia, culminando em Macau.

Mas falemos do enredo e da organização da narrativa, construída em torno da leitura de um documento secreto, subtraído do Arquivo das Confissões, onde está retratada a dramática história de Bernardo Vasques, o homem que, devorado pela inveja, roubou na Ilha de Moçambique o Parnaso, um livro do grande poeta Luís de Camões. 

O livro inicia-se no presente, com a voz de um padre inglês protestante que medita sobre o estado eufórico que experimenta o viajante quando “parte da sua terra e enfrenta o desconhecido” (José 2018:11); é o seu caso – finalmente “a bordo de um veleiro a caminho da China” (idem, 11). Quando o barco que o transportava atracou em Singapura, onde teria de esperar dois dias por um transporte para Macau, acaba por ficar hospedado com a esposa na estalagem portuária “The Peacock Inn”, a qual dispunha de uma taberna espaçosa e mal frequentada no rés-do-chão. A hora é tardia, chove. Temos localizado o cenário ideal, bem ao jeito camiliano e mesmo queirosiano, para o convite à confissão das personagens, para o seu recuar ao passado e, da parte do leitor, a sensação ilusória de estar a ouvir uma história verídica.

Incapaz de adormecer, o padre desce à taberna, onde um padre católico irlandês em trânsito, a troco de um copo de aguardente, lhe “contará uma história única e merecedora de atenção” (idem, 27). Fica então a saber que “um pequeno grupo de jesuítas em Macau decidiu colecionar confissões e delas fazer objeto de estudo para uma melhor compreensão da mente, da alma e do espírito.” (idem, 29), criando então “um Arquivo de Confissões, onde os crimes, os desvios, os pecados e as lamúrias, numa palavra, uma extensiva parte da alma humana, se desvenda de forma voluntária e na sincera súplica do perdão” (idem:30), ou seja, resume-nos o padre católico, “uma biblioteca que contém os males do mundo” (idem.31). 

Perante a “inverosímil e fascinante história” do que considerou ser “os devaneios de um alcoólico ou de um louco” (idem:32), o padre católico tenta persuadi-lo passando-lhe um documento secreto – precisamente “a confissão de Bernardo Vasques, um português que viajou para a Índia no século XVI” (idem, 35). Estamos no cap. 4, assistindo a uma conversa que decorre num tempo presente, encontraremos doravante encaixada na narrativa outra narrativa, que pertence ao tempo passado. A narrativa inicial, a do personagem-narrador que é o padre inglês protestante, apenas será retomada no 27º e último capítulo, após terminar o relato contido no documento.

É precisamente esse documento, que ocupa 22 capítulos da sequência narrativa (cap. 5 – cap.26), que nos interessa. O documento, a confissão de Bernardo Vasques num tempo passado, teria sido transcrito pelo 1.º narrador, o padre inglês, pois o irlandês zelou pelo seu tesouro e levou-o consigo quando se sumiu de vez.

Mapa da ilha de Moçambique
in Itinerário de Jan Huygen van Linschoten (Amesterdão, 1595)
No cap. 5 inicia-se, pois, a voz de outra personagem. O incipit do mesmo é explícito: “Confissão de Bernardo Vasques, recolhida e comentada pelo Pe. Francisco Pacheco em meados de maio de 15...” (idem, 36). Continuamos com um padre, mas agora um jesuíta português em Macau, que ouve e regista em confissão um extraordinário navegante português. Mas logo a partir do cap. seguinte, o 6.º, e até ao 26.º, a voz e as peripécias de vida a que
assistiremos serão sempre do protagonista, Bernardo Vasques. E qual terá sido o crime que confessa? – O de ter roubado o “Parnaso” a Luís de Camões, na Ilha de Moçambique e, não lhe bastando, ter-lhe-á usurpado a própria identidade autoral desse livro.

Vivendo no tempo de Camões, zarpando na mesma rota marítima entre o Reino e o Estado da Índia, uma “nova porta que enfeitiçava a juventude” (idem, 43), natural seria que ele se cruzasse com o épico ou outros literatos seus amigos. É o que acontece, mas, ao contrário de Diogo de Couto, que com ele se junta no torna-viagem para Portugal, Bernardo Vasques avista-o na viagem de ida para a Índia. Tal ocorre nos caps. 12 a 14, o furto é executado no cap. 14.

No romance de Carlos Morais José, o Parnaso é um livro de poesia, o cancioneiro da lírica de Camões, o qual é furtado ao seu autor na Ilha e não no resto da viagem de regresso ao Reino ou já em Portugal; em vez de um amigo cronista, temos um inimigo poeta, uma espécie de poeta maldito, infetado pelos versos do Poeta (idem, 164), que se convence a si mesmo de estar a praticar o Bem, quando afinal está a servir o Mal (idem, 164). Torna-se um pecador em nome da inveja que o corrói, pois desejaria ser Ele, o inominado que é um Deus, o Absoluto em Poesia, mas que sabe ser incapaz de atingir, pois falta-lhe o talento d’Ele para ser Camões. Bernardo Vasques é o ser humano face ao poder da Arte, o sublime de uma obra-prima, que simultaneamente o exalta e oprime. Na impossibilidade de resumir a totalidade da experiência da leitura, tenhamos uma aproximação através de um excerto, que mostra uma das razões pelas quais o poeta Bernardo invejava o “príncipe dos poetas” a ponto de cometer um crime: 
“A sua obra era demasiado bela, encadeava. Como escrever depois dele? Quantos poetas vindouros não susteriam o verbo depois de lhe conhecerem os versos, por darem conta da impossibilidade de os igualar, ainda menos de os superar. O desaparecimento dos seus escritos sossegaria o futuro, manteria abertos os portões da imortalidade aos poetas a haver. Não era apenas a minha existência ameaçada: durante séculos os escritores comparar-se iam com ele e partilhariam do mesmo desespero. Aquela obra era demasiado genial para lhe ser permitida a existência. Nós, os mortais, não aguentaríamos viver a sua sombra. Destruí-la seria um ato humanitário, uma bondade digna do grande amigo do Homem.” (José 2028:87).

Em A literatura e o mal Georges Bataille afirma que ela “é o essencial ou não é nada” e se essa essencialidade também se acha vinculada ao mal é porque a literatura tem interesse como arte total, uma arte que desafia o bem convencional e a moral normativa, que confronta, pois, o mal. Todavia, ocorrendo no extremo do possível e do perigo, essa intensidade literária poderá levar as personagens à ruína. Bernardo Vasques perde-se, é um Anjo decaído, um Dorian Gray cujo retrato é uma confissão que espelha a sua degradação moral. A sua admiração extremada é quase irracional (idem, 161), o seu desejo é inveja, assumindo uma dimensão trágica como em les feux de l’envie do teatro de Shakespeare estudado por René Girard (1990). Por seu lado, Helmut Schoeck na sua obra mais conhecida A inveja: uma teoria social (1966), argumenta que a inveja é um sentimento universal e inerente à condição humana, desempenhando um papel central nas dinâmicas sociais. Em O Arquivo das Confissões ela é a protagonista, ostentada no subtítulo da obra. 

Mas quem roubou o Parnaso de Camões?


Este romance-tese, belo e profundo, que é O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja, de Carlos Morais José, ficciona de forma ousada e original a perda do “Parnaso de Luís de Camões”. A sua trama é imaginada, mas também ousada – convida-nos a conhecer o lado sombrio da natureza humana, a compreender o desejo que se reveste de inveja e também de culpa. A poesia de Camões é luz, encandeia, pode fascinar e cegar, exaltar e oprimir. E Camões, o seu criador, surge ora como um Deus omnipotente ora como um Fantasma obsidiante, nunca nomeado.

O mistério do desaparecimento do Parnaso inspirou esta narrativa contemporânea. O romance, ao refletir sobre a questão da inveja, com todas as suas implicações negativas e positivas, poderá ser a chave para a descoberta do verdadeiro “Parnaso” e do seu roubador. Para tal, será preciso pensar fora dos esquemas mentais convencionais e académicos. 

Se, como suspeita Maria Augusta Lima Cruz, o trecho biográfico do Poeta na Década 8.ª da Ásia pode ser uma “’construção’ biográfica, elaborada por Couto, mais de 40 anos após o encontro em Moçambique”, não sendo mais que “uma das muitas reconstituições da vida de Camões, baseadas na exegese da sua produção literária e nos seus primeiros biógrafos. (Cruz 2024) – Onde está o “Parnaso”? Que obra conhecida ou pouco conhecida de um autor da época de Camões revela afinidades com o estilo literário camoniano, com a vivência no Oriente do soldado-poeta? Alguns estudiosos estiveram perto, interrogando-se porque é que alguns aspetos da vida e da obra com que se ocupavam não eram perfeitos, não encaixavam no sistema. Falta aceitar a inveja e a maldade para se poder chegar a uma eventual usurpação de identidade, como em Os Naufrágios de Camões de Mário Cláudio, ou chegar ao livro furtado, como na narrativa de Carlos Morais José."
José Carlos Canoa
in © "Os livros perdidos de Camões na ficção contemporânea" (excerto)
comunicação apresentada no II Congresso do 
Meio Milénio do Nascimento de Camões 1525-2025: Maputo & Ilha de Moçambique.
Em Moçambique, de 6 a 10 de junho de 2025. 
Org. RCnA&A, U. Politécnica e U. Eduardo Mondlane, de Moçambique). 



  1. "Os livros perdidos de Camões na ficção contemporânea", slide da comunicação apresentada no II Congresso do Meio Milénio do Nascimento de Camões 1525-2025: Maputo & Ilha de Moçambique6.06.2025, por José Carlos Canoa.
  2. Cartaz do lançamento do romance em Macau, na Fundação Rui Cunha, em 13 de dez. 2016.
  3. Capa da revista Via do Meio, n.º 1 (outono 2023): Que Vinho se bebe na China?, dirigida em Macau por Carlos Morais José. - Inteiramente dedicada à cultura chinesa, nas áreas do Pensamento, da História, da Etnologia, da Literatura e as Artes, etc., com colaboração de sinólogos de várias nacionalidades.
  4. “Pé San Ié: o Poeta de Macau” (2017), é um projeto da realizadora Rosa Coutinho Cabral e da produtora Maria Paula Monteiro. Uma longa metragem inpirada na vida e na obra de Camilo Pessanha.


para saber +



José C. Mendes
(em torno de Nove pontos na bruma: textos sobre a China, Macau, 2022)
Entrevista, em Hoje Macau, 9.03.2022

Julia Martins
Em Mil Folhas, de Deus me Livro, 08.03.2019

Rui Filipe Torres 
Isabel Castro
Literatura, em Hoje Macau, 15.12.2016

Catarina Domingues (texto), Gonçalo Lobo Pinheiro (fotos)
in Revista Macau, jun. 2011

VII Festival Literário de Macau – Rota das Letras
Macau, Oficinas Navais – em direto.
Painel 7:
“O Arquivo das Confissões: Bernardo Vasques e a Inveja”, um caso de tradução
Conversa entre Carlos Morais José, David Brookshaw, Glenn Timmermans
Vídeo no Rota das Letras | Facebook






Redação: 29.08.2025

2024/10/07

Índias, o romance-biografia de João Morgado

 

"ÍNDIAS" de João Morgado

Apresentação do livro

(Nova edição, Lisboa: Clube do Autor)

por Deana Barroqueiro


7 OUT. 2024, segunda-feira | às 18h30

Na Fnac - Chiado, em Lisboa





"Vamos falar de Vasco da Gama que teve o seu lado obscuro, 
mas não deixou de ser um homem do seu tempo, 
e marcou a expansão marítima portuguesa... 

vamos fazer um enquadramento das suas três viagens às Índias e
 do seu temperamento assanhado! 

A meu lado vou ter a decana do romance histórico, 
DEANA BARROQUEIRO - vejam só o meu privilégio! 

Apareçam... vai ser um fim-de-tarde muito interessante! Acreditem!"
João Morgado | Facebook, 17.09.2024






Querem OuVer?
in RTP - Portugal em Directo | Vídeo, 6:50
Reproduzido em João Morgado | Facebook, 27.09.2024






Vasco da Gama, o Herói Imperfeito da História de Portugal


"Pêro da Covilhã rumou às Índias por terra, mas não regressou. Vasco da Gama chegou até lá por mar e regressou para receber todas as mordomias. D. Manuel I determinou que este seria então o capitão-mor de todas as armadas que partissem do reino em direção às Índias. Porém, logo na primeira armada, a maior, a mais lustrosa, o seu nome foi afastado e a glória coube a Pedro Álvares Cabral. Porquê?

Porque era odiado pela Igreja, pelos nobres, pelos comerciantes, pela Ordem Militar da Cruz Cristo e pela Ordem de Santiago? Porque era odiado por todos e tinha a admiração de D. Manuel I? Para encontrar a resposta que os livros de história esqueceram, vamos revisitar a vida de Vasco da Gama, a sua personalidade, as suas relações, os seus ódios e a sua ligação ao rei D. Manuel I. É sabido que a história dos homens e dos povos é pó solto em vendaval, leva por isso muita reviravolta. Como pôde um homem tão cruel ser endeusado por Camões n`Os Lusíadas e ganhar o estatuto de figura cimeira dos Descobrimentos Portugueses?

Vasco da Gama ousou enfrentar a mais longa viagem oceânica do seu tempo e abriu o cofre das especiarias para o reino de Portugal. Não olhava a meios para atingir os fins, o que lhe valeu o ódio de muitos, mas conquistou a admiração do rei e as glórias do reino. Este livro revisita as suas viagens às Índias e redescobre uma nova face deste herói dos Descobrimentos, o seu lado negro das ambições, das vinganças, das matanças. Poderemos julgar um homem à distância de quinhentos anos?

O que esconde o grande herói do tempo dos Descobrimentos?
Porque era odiado por todos e tinha a admiração de D. Manuel I?
Como era o quotidiano lisboeta no alvor do Renascimento?
Como era a vida nas naus?
Como é que os portugueses lidaram com as novas civilizações?
Qual é a estratégia para conquistar as Índias?"






  1. João Morgado, o autor do romance Índias.
  2. Índias: romance. Lisboa: Clube de Autor, 2016 | Nova ed., 2024.
  3. Os escritores João Morgado e Deana Barroqueiro, no lançamento de O livro do Império (2018) na Fnac Chiado, em Lisboa.








Para saber +


João Morgado, Escritor. | Página oficial

João Morgado | Blogue, com Agenda.

in Literatura, Literatura, Literatura, 14.12.2018.










Redação: 18.09.2024, atualizado em 28.09.2024

2024/04/17

O Livro do Império, as peripécias por detrás da publicação da Obra Magna de Camões

 

O Livro do Império

João Morgado

Reedição:
17 ABRIL 2024

Lisboa: Clube do Autor Editora, 2018 / 2024.








O Livro do Império

"Um manuscrito resgatado pela Inquisição para redenção de Portugal.

Portugal tem um império em declínio, com um rei destemido, 
mas influenciado por uma nobreza e um clero corruptos. 
Omnipotente, a Inquisição não hesita em 
prender, matar e destruir as mentes e as obras mais brilhantes.

No país vizinho, observam a decadência de Portugal, 
jogam com o poder e o apoio dos jesuítas, e 
mantêm a esperança de voltar a dominar toda a península.

Mas eis que um trota-mundos sem eira nem beira, 
apesar de uma vida de prisões, putaria e inimigos poderosos, 
decide cantar as glórias desse povo num poema épico que lembra 
todos “aqueles, que por obras valerosas” se foram da “lei da morte libertando”. 
Mas ao cantar uma estirpe de homens que se igualara a deuses, 
por contraste compunha também um libelo acusatório contra a depravação vigente. 
Como foi possível que el-rei e o Santo Ofício tenham deixado publicar esta obra?

O Livro do Império narra a vida de um poeta arrependido e 
a história de Portugal em vésperas da batalha de Alcácer-Quibir.»








JOÃO MORGADO

Nasceu na Covilhã em 1965 e é um escritor português multifacetado,
tendo publicado ficção (sete romances, contos e novelas) poesia e histórias para crianças.
Ficou conhecido com as obras Diário dos Infiéis e Diário dos Imperfeitos
  e ganhou notoriedade com a "Trilogia dos Navegantes", 
romances biográficos dos navegadores Cabral, Gama e Magalhães. 
Em 2018, lançou o romance biográfico sobre Camões e Os Lusíadas,
O Livro do Império
obra agora reeditado no âmbito das celebrações do 
meio milénio do nascimento de Luís de Camões.
Tem obras traduzidas para castelhano, chinês, inglês, russo e sérvio 
e tem participado em encontros internacionais de literatura.
 Autor bastante premiado, em Portugal e no Brasil.






  1. Capa da 1.ª edição da Obra, em 2018.
  2. O autor do romance, João Morgado, com Camões por perto, o autor da epopeia. - Foto perfil do Facebook do Autor.
  3. No lançamento da obra em 2018, na Fnac do Chiado. - Foto perfil do Facebook do Autor.
  4. Capa da tradução para a língua sérvia, em 2022.





para saber +


In: revista DESCLA, 26.04.2024.




O SAPO24 
publica um excerto do livro:
22.04.2024




2022/11/27

O romance os lusíadas (1977) de uma parceria literária, Manuel da Silva Ramos e Alface

 

os lusíadas: romance



Lisboa: Assírio e Alvim, 1977

Cadernos Peninsulares, especial 2

444 p.



excerto:


"De uma cidade interior ejacorreu um bibliurticário em adeuses. E uma tia em seu mersius. Um de três, embarcacilhei, uma de xadrez, aliviei – era uma vez.
Um sítio sumido, brando, invulgar nestas coisas de paisagem e longe de tudo isso, duas coisas que me são caras e croas: a escripta, os pressumidos ossos de Camões. Era ter a terra, versos navegáveis, civilização occipital. Gostos pizarros. A abhorração. Cousas que juntas se acham raramente? Quem cu tem e o sente usa cão, retroactiva munição? Quem tem cu que se sente. E que fale a gente. Para para informar quedas, semelotes, tisanas, indubitolidades, tochas tenentes, para informar mesuras, redes, febres dissidentes, estações, conivências, ditados cíveis, minúcias, tonitroantemente, informar quermesses coptas, ruas venérias, agredida anquilose, diuturnas expedições, queixinhas, formar platibandas napas, catascese, miriave, falsos momentos de eloquente sorte, cetáceos, furar domesticados bens, furtar pérolas novezinhas, esforçar retratos resistentes ao olhar derradeiro de uma manhã brumetida, aferir água doce suas consequências, mesmo assim suas decentes mesas, aferir parlamentáveis esmeros, iodadas amarguras de desuso perene cativo, aferir corridas paisagens, vozes trocadas a cingidos ventres, curtida zona de ornar, para ou para aferir, esvoaças madeixas de sincero século, sindbad em condor em melhor pousada em melhor mulher em melhor imprensa em melhor vazante, pra deduzir como corre o cão como toca o sino que faz dlãodão desabaladamente, para afligir marés robustas em praias justas, imiscuir no entendimento dos peixes conceitos impudentes, pender o cenábulo de tudo, atentar nos sons mínimos, para informar com regularidade disforme uma amplíssima sofreguidão de espaços cujo aconchego não evita uma onova missa, para abalanchar no seductor aspecto físico das coisas e sendo que, pouco aguda a simtaxe e fisionómico o rosto temos profícuo, quem de nós ao dizê-lo sente adverbialmente, para informar ruídos de âmbito inquestionável assinada frequência, ganhar corpo, uma prolixa proximidade, atender a que uma meã fereza ao invés de remoçar nos cataleva em espíricos descentrados levantamentos a frustres pinaças, mas imprimir com leveza, evitando resgates ímpios sem graça, intransitar a cobiça, os cósmicos vetustos piangentes esmaéticos narradores, amiudadamente depois pautar uma oferenda, que para amortecer advertida bonança, instrumentos usuais e desdizíveis e finalistas mas instrumentos pormenorizados, ocidentais, nem instrumentos corajosos ou sôfregos ou utensílios adversos memoráveis inquinados insalubres utencílios, saber cevar com urbanidade, complemento directo, adquirir usos civis, conotar a decência líquida, em pondo de lado a coação residual, ferina estânsia de odes, o abisso, para tudo, para urdir inota equidade, semelhança paramental bradura sinalização tessitura atinência oleosidade solidez advertência, para acenar a fundo, que não dizer. E vá a gente cubióticamente destinto, elmo fodibundo, grilo horizonde individose jugular invenal hissope galinha fatísica edeologando duplamento céreo, desforra embárquica f gavernoite (homementus) indivendado jeneral, lendo. Cuero dizer: ênfasia noces ganhos – hantaño – imprecionam jmagam luzem. Memoro nessas oudiências priclitóricas qonsequânsias. (Um povo que se move cultiva com tardio horror a paz de um livro): realivi serenos tubaratos uivindo-se. Logo jeremios louvação juvenal: santos de casa não saem de sagres. Querem perenigeração, quota paga, quociente penunbril. Atuei sempre súpito repouso, retina anedórica. Tudo uma vez. Xega. Ratifiquei isso ontem mientrava a pandalusa aneduda: ahora? Anexação anciosa arregaça a raça: pornofagia famérica, a falaz navelha, os manigantes, litoral peroração do peixe, do episodíaco, o palatino emirgrante, cintaxe revolúvel, quem mata os seus não degenera, geral gente genimunda. A manhã e a sanha: lusa anda andarolha acusa manda olha no estreito e no cabo a eito e a nado. A pariátria alheia a essas coisas, precipiciatória tendo marcos tendo supernos tendo um navio no mar. Manietar isto numa razião desmandada do discurso, num solusar, num precioso erguer o pau de carreira, uma pirotaria, em corsábios das ilhas, em philimusteiros concredos na boca, nas putas com juízo, gente com qualidades, o cozinheiro de borco, o senão da nau, bústula, ariostomos e constelações usufruíveis. Na demagonia do tempo ensaia-se uma deamputação patriórfica, a pretérita alquimia de uns dados fundeados no reduzido alcance da temeridade própria, o expaço hinominado: quem sai dos seus prolifera. Prolifere-se? Prolifoda-se.

in 
os lusíadas: romance, 1977, p. 109-110. 
Fonte: DGALB.




O rapto / Nessus e Dejanira, 1920 - por Pablo Picasso




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com Teresa Carvalho:










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