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2026/03/06

António Lobo Antunes, Sôbolos rios que vão


   António Lobo Antunes: fotobiografia   
de Tereza Coelho. 2.ª ed., Lisboa: D. Quixote, 2004.

António Lobo Antunes  

Lisboa, 1942 - Lisboa, 2026


António Lobo Antunes
  Sôbolos rios que vão: romance  
Edição ne varietur de acordo com a vontade do autor. 
 Rev. filológica António Bettencourt. 
Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010.
199 p. (24x16 cm)

fragmentos da sua vida

"Entre os últimos dias de março e os primeiros de abril de 2007, 
depois de uma operação grave, o narrador, 
entre as dores e a confusão provocada pela anestesia e pelos medicamentos, 
recupera fragmentos da sua vida e das pessoas que a atravessaram: 
os pais e os avós, a vila da sua infância, a natureza da serra, os amores e desamores. 
Como um rio que corre, vamos vivendo com ele as humilhações da doença, 
a proximidade da morte, e o chamamento da vida."

rios, camonianos, antunianos

"é um livro que, tendo um tema sinistro (a ameaça da morte por cancro), 
se escreve de modo excepcionalmente claro, quase luminoso; 
[…] um livro maravilhosamente bem escrito […]. 
Estes rios, camonianos, antunianos, são no fundo 
o grande rio que não pára, não se extingue, 
o rio do pensamento e da arte, da matéria das Humanidades 
que permite a pulsação desalienada no quotidiano, 
e por isso o título contém esses “rios que vão”, cuja água corre sempre, 
como a escrita de grandes autores."
Maria Alzira Seixo
JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

«Neste livro, que arranca no primeiro dia de Primavera, 
metáfora e enredo são um só: 
o fio de vida que vai da nascente à foz.»
Rui Catalão
in: Jornal Público


António Lobo Antunes
  Sôbolos rios que vão  
Rio de Janeiro: Alfaguara, 2010.

uma prosa que foge da linearidade

"Entregue à fraqueza do corpo após a retirada de um tumor maligno, 
o narrador desta história de fundo autobiográfico 
passa os dias sofrendo com as dores e humilhações da doença. 
Lembrando-se dos caminhos trilhados até então, 
como a ingenuidade e as descobertas da infância, 
a vila em que morou e os ares da serra, 
a convivência com os avós 
e as cartas não correspondidas pela menina que amava, 
ele narra suas experiências de vida, em contraste à angústia diante à morte. 
António, entre as dores e a confusão provocada pela anestesia e pelos medicamentos,
recupera fragmentos da sua vida e das pessoas que a atravessaram. 
Como um rio que corre, assim como no trecho de Camões - que dá título ao romance -, 
o leitor vive com ele as angústias em relação à doença, 
a proximidade da morte e o chamado da vida. 
Sôbolos rios que vão é um romance único, 
narrado de forma vigorosa - uma prosa que foge da linearidade, 
possibilitando que tempos distintos se misturem naturalmente entre as vozes dos personagens. 
Nele, Lobo Antunes revela a memória 
como uma valiosa herança para se lidar com o presente e superar os seus males. 
Em sua narrativa, o autor português insere o leitor em momentos de desesperança 
que se intercalam com a nostalgia do que viveu e imaginou."
in Amazon.com / Ed. brasileira


António Lobo Antunes
  By the Rivers of Babylon  
English translation by Margaret Jull Costa.
Yale University Press, US, 2023

an unexpected polyphony of voices and places 

"A profound and genre-defying work of literature about love, death, and illness 
from one of Portugal’s most celebrated writers"

Incapacitated after the removal of a malignant tumor, the narrator, António, 
spends his days in a Lisbon hospital enduring the humiliations of severe illness. 
As he drifts in and out of consciousness, 
he revisits fragments of his life and the people who passed through it. 
He recalls the village where he lived as a child 
near the Mondego River amid the eucalyptus and pines, 
his parents and grandparents 
and their tight-knit community of potato farmers and tungsten miners, 
and the woman he loved
—an unexpected polyphony of voices and places 
sounding in sharp counterpoint to debilitating pain.
 
By the Rivers of Babylon conjures the past and the present all at once, 
revealing the power of memory to embolden us in the face of extraordinary suffering. 
This is António Lobo Antunes’s homage to the beauty of a cherished life 
in its confrontation with imminent death.
 
“One of the essential writers of our tormented times.”
Alberto Manguel
in: Times Literary Supplement
 
“Little prepares one for this extraordinary book, 
in which each chapter, covering a single day, and lasting a single sentence, 
offers a teeming stream of consciousness...
Even pain is alive, and alive is the word for this book, alive and enduring.”
Michael Autrey
in: Booklist

  A OBRA  


O Tamanho do Mundo, 2022
As Outras Crónicas, 2023 | Diccionario da Linguagem das Flores, 2020
As Crónicas, 2021
*
A Última Porta Antes da Noite, 2018 | A Outra do Margem do Mar, 2019
Até que as Pedras se Tornem mais leves que a Água, 2017
Para Aquela Que Está Sentada no escuro à Minha Espera, 2016
 Caminho como uma Casa em Chamas, 2014 | Da Natureza dos Deuses, 2015
Comissão das Lágrimas, 2011 | Não é Meia Noite Quem quer, 2012
Quarto Livro de Crónicas, 2011 | Quinto Livro de Crónicas, 2013
Sôbolos Rios Que Vão, 2010
*
O Arquipélago da Insónia, 2008 | Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, 2009
Terceiro Livro de Crónicas, 2006 | O Meu Nome é Legião, 2007
Eu Hei-de Amar Uma Pedra, 2004 | Ontem Não te Vi em Babilónia, 2006
Segundo Livro de Crónicas, 2002 | Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, 2003
Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, 2000 | Que Farei Quando Tudo Arde?, 2001
*
O Esplendor de Portugal, 1997 | Exortação aos Crocodilos, 1999
A Morte de Carlos Gardel, 1994 | Livro de Crónicas, 1995 | Manual dos Inquisidores, 1996
Tratado das Paixões da Alma, 1990 | A Ordem Natural das Coisas, 1992
*
Auto dos Danados, 1985 | As Naus, 1988
Conhecimento do Inferno, 1980 | Explicação dos Pássaros, 1981 | Fado Alexandrino, 1983
*
Memória de Elefante – 1979 | Os Cus de Judas – 1979


para saber +


Carla Alves Ribeiro
in Diário de Notícias, 5.03.2026
Diário de Notícias

Mariana Andrade da Cruz
in: Letrónica, Porto Alegre, vol. 7, n.º 2 (jul.-dez. 2014), 934-948.






Redação: 5.03.2026

2016/11/20

SOBRE OS RIOS QUE VÃO, uma obra-prima do poeta Luís de Camões

A Torre de Babel
por Pieter Brueghel (c. 1525 – 9.09.1569)

Sobre os rios que vão



Sobre os rios que vão
por Babilónia m’ achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi o bem suceder mal,
e o mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, qu’ espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo,
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou,

assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.
Jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que, por vos ouvir, deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte
que quanto da vida passa
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade...
Não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas, em tristezas e enojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente á los ojos
por quien muero tan contento».
Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava,
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças da afeição,
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
qu'eu cantava em Sião.
Que foi daquele cantar
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por antr’ o espesso arvoredo;
e de noite o temeroso,
cantando, refreia o medo.
Canta o preso docemente
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, qu’ estas cousas senti
N’ alma, de mágoas tão cheia,
“Como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?”
Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.
Que, quando a muita graveza
de saüdade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que, se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei já,
nem menos o escreverei;
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porém se, para assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento,
d’ alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.
A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina
que voa da própria casa,
e sobe à pátria divina.

Não é logo a saüdade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pôde alterar,
não é quem se há de buscar:
é raio da fermosura
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos efeitos
que os corações têm sujeitos:
sofistas, que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o mando tirano
me obriga, com desatino,
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusões e d’ espanto,
como hei de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me fez grau para a virtude.
E faz este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti!
Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal;
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.
E tomando já na mão
a lira santa e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão da paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto;
que, do que já mal cantei,
a palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles, que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão;
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos efeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvídrio que tenho;
estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia!
Beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que üa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne n’ alma fez;
e beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível,
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que nem, por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.

Ali verá tão profundo
mistério na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, despois de a ti subir,
lá descanse eternamente.

Luís de Camões


Fonte:
Lírica completa - I [Redondilhas], org., pref. e notas de  Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., Lisboa: INCM, 1986, p. 269-280.


Os jardins suspensos de Babilónia (1998), por Lee Krystek




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