Pesquisar na e-CAM:

Mostrar mensagens com a etiqueta Camões em Macau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camões em Macau. Mostrar todas as mensagens

2026/02/21

CAMONISTA - Eduardo Ribeiro

© Conteúdo integrante desta exposição.













Eduardo Ribeiro junto da réplica do mais antigo globo terrestre chinês, 
executado na China em 1623 (Coleção da British Library, Londres). 


Eduardo Alberto Correia Ribeiro, n. em 15.04.1948
Camonista, magistrado, advogado, jurista, investigador.
*
Licenciado pela faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, em 1972.
Nasceu em Moçâmedes, Angola, onde viveu cerca de 24 anos (1948-58, 1962-66, 1973-82); residiu em Macau 28 anos (1985-98, 2000-2014) e vive atualmente em Portugal. A sua vida profissional, muito diversificada, estendeu-se, pois, de África ao extremo Oriente (Macau).
Em março de 2006 publica no jornal diário de Macau Ponto Final o artigo “Camões nas partes da China. Obviamente, em Macau”. Desse ano em diante dedicar-se-ia ao estudo da vida e obra de Luís de Camões com uma abordagem centrada na sua biografia oriental.
Para além dos muitos artigos, comunicações e palestras, destacam-se as três obras: Camões em Macau: uma verdade historiográfica (2012, reeditada em 2020), Camões no Oriente e outros textos (2012, reeditada em 2018) e Camões in Asia (1553-1570) (2016), obra em língua inglesa “com uma súmula da investigação do Autor sobre a historicidade de Camões em Macau”. Leiam-se infra alguns comentários à sua obra, por parte de um grande amigo e também do reconhecido camonista Vítor Aguiar e Silva.

Camões em Macau

"[...] fiquei ciente do seu empenhamento na pesquisa camoniana, com foco na demonstração historiográfica da estada de Camões em Macau. A pesquisa começou com uma polémica em jornal local e continuou no livro Camões em Macau, que em Lisboa foi reeditado e publicado em versão inglesa para venda no estrangeiro [Camões in Asia, 2016].

Esta mudança de tempo e geografia gerou uma pergunta intrigante de resposta escorregante: que relação há, se há, entre a judicatura profissional e a devoção historiográfica quanto à estada de Camões em Macau e o mais de atinente biografia? Afinal há uma relação, sim: O juiz averigua a verdade e julga com base nas teses e antíteses das partes fazendo a síntese (verdade epistémica dos autos); o historiador averigua a verdade do passado com ela presenteando o público ledor, atual e futuro"
Miguel Faria de Bastos, 
no Proémio a
O Som das Nossas Vozes: uma memória angolana (1972-1982),
de Eduardo Ribeiro, publicado em 2021.


 Camões nas partes do Oriente

"Bem documentada e inteligentemente argumentada, é obra que ficará na história dos estudos camonianos como contributo relevante para o conhecimento da vida de Camões nas partes do Oriente, para o conhecimento de alguns aspectos da sua obra poética escrita durante esses largos anos. Mas não se restringe o interesse do seu estudo a esse período da vida e da obra do Poeta - o título não faz justiça à amplitude da obra -, porque as suas informações, reflexões e plausíveis conjeturas sobre Camões após o seu regresso a Lisboa, em 1570, em particular sobre a edição de Os Lusíadas, merecem uma leitura atenta."
Vítor Aguiar e Silva,
carta (excerto) enviada ao autor de Camões no Oriente 
e partilhada na página do Facebook do escritor.

CAMONIANA

Camões em Macau: uma verdade historiográfica

de Eduardo Ribeiro
2.ª ed., “revista e atualizada”. Pref. João Paulo Oliveira e Costa.
Lisboa: Mythus de Er, 2020.

  • Camões e a China: o que terá o Poeta Luís de Camões, nos dois anos que estanciou em Macau, China (1562-1564), sabido do Império do Meio, a China Ming, e que eventual impacto terá tido esse conhecimento na sua obra? – Palestra, em Lisboa, na Sociedade de Geografia - Secção Luís de Camões, 18.10.2019.
  • Camões em Macau. – Palestra, em Portela, na Universidade Sénior, 22.10.2019.
  • Diogo do Couto e os trabalhos de Sísifo: a importância da “Década VIII da Ásia” para a biografia oriental camoniana. – Palestra, em Lisboa, na Sociedade de Geografia - Secção Luís de Camões, 15.03.2019.

Camões no Oriente e outros textos

de Eduardo Ribeiro
2.ª ed., Lisboa: e.a., out. 2018.
1.ª ed., Lisboa: Labirinto de Letras, fev. 2012.

[A enumeração dos 6 textos que se seguem está de acordo com a ordenação dada pelo autor na coletânea de ensaios Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa, 2018:]

I. Roteiro cronológico de Camões no Oriente, Labirintos, revista eletrónica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, Bahia, Brasil, vol. 5, 2009. – reprod., com o título Roteiro cronológico de Camões no Oriente (1553-1570), em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 23-63.

II. A Pena de Camões, a espada e a caldeirinha, Labirintos – Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, Bahia, Brasil, vol. 4 (2.º semestre de 2008). – reprod., com o título A Pena de Camões num reino de colusão entre a espada, a caldeirinha e a pimenta, em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 65-156.

III. Camões “nas partes da China”, Labirintos – Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, Bahia, Brasil, vol. 3 (1.º semestre de 2008). – reprod., com o título Camões ‘nas partes da China’ (1562-1564), em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 159-184.

IV. Camões e a Grande Muralha da China, primeira versão, Tribuna de Macau, Macau, 15.04.2010; “versão final, revista e aumentada”, Labirintos – Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, Bahia, Brasil, vol. 8, n.º 2 (2.º semestre de 2010). – reprod. em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 187-204.

V. 1513, o ano em que tudo começou ou a ilha da veniaga desvendada, Ponto Final, Macau, 5.06.2009. – reprod. em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 207-211.

VI. Camões e o baralho de cartas: pequena dissertação sobre a insustentável incerteza do estar (ou ter estado) em Macau, Tribuna de Macau, Macau, 10.06.2008. – reprod., com o título O baralho de cartas camoniano, em Camões no Oriente e outros textos, 2.ª ed., Lisboa: e.a., 2018, p. 213-222.

Referências bibliográficas, p. 224-231.
Bibliografia do Autor, p. 232-235.


  • Camões e a China, comunicação, in Diálogos Interculturais Portugal-China 1– Atas. – Aveiro: UA Editora, nov. 2018. – [Congresso Internacional, Aveiro, Instituto Confúcio da Univ. de Aveiro, 15-17.02.2017].
  • Apresentações sobre o tema na Casa Memória de Camões em Constância, em jan. 2018; na Biblioteca Municipal Marquesa do Cadaval de Almeirim, em fev. 2018.
  • A historicidade da presença de Camões em Macau. – Palestra, proferida em Lisboa, na Sociedade de Geografia, 17.11.2017; repetida na Casa-Memória de Camões em Constância, 17.12.2017 [v. também aqui], e na Biblioteca Municipal Marquesa do Cadaval de Almeirim, 28.02.2018.

Camões in Asia (1553-1570)
de Eduardo Ribeiro
Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2016.

Edição em Lisboa em 2016 e lançado em março de 2017.
Igualmente lançado em Macau, em 20.05.2018, 
na Sala Stanley Ho do Clube Militar de Macau, RAEM.
  • A tradição e a historicidade do estanciamento de Camões em Macau, Revista Oriente/Ocidente, Instituto Internacional de Macau, n.º 32 (2015), p. 28-33.
  • Viagem de Camões ao Oriente. – Palestra, Lisboa, na FLUL, 23.02.2015, org. FLUL e o Círculo Europeu da FLUL.
  • A grande viagem de Camões até à China. – Comunicação, Colóquio Internacional CHINA/MACAU: viagens, peregrinações e turismo, Lisboa, Centro Científico e Cultural de Macau, 13 a 15.10.2014. – [Foram publicadas as Atas do encontro].
  • Presença de Camões em Macau: tradição e historicidade. – Palestra, in Seminário de Estudos Sobre Macau, Lisboa, na FCSH – UNOVA, 3.06.2014.
 
  • Camões em Macau: uma verdade historiográfica. Texto, coord. e rev. Eduardo Ribeiro. Lisboa: Labirinto de Letras, 2012. / 2.ª ed., 2020.
  • Camões no Oriente: coletânea de textos. Lisboa: Labirinto de Letras, fev. 2012. / 2.ª ed., 2018.
  • Roteiro Cronológico-Sentimental de Camões antes departir para o Oriente, Labirintos – Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, vol. 9, 2011. – (“Enviado mas não publicado por interrupção da publicação da Revista”).
  • Camões na China, Macau. – palestra, in Colóquio Camões pelo Mundo, Constância, na Casa Memória de Camões,3.07.2011.
 
  • A língua de Camões, Hoje Macau, Macau, 20.12.2010, Supl. especial do 11.º aniversário da RAEM.
  • Camões e o Mostrengo Adamastor: um poeta sepultado vivo nos Penedos do morro de Patane, Tribuna de Macau, Macau, 10.06.2010.








Camões e Macau

verbete, redigido em 2016, por Eduardo Ribeiro

in DITEMA – Dicionário Temático de Macau
Macau: Universidade de Macau, mar. 2010, 
vol. I, p. 249-253.





  • Os "Penedos de Camões em Macau, Labirintos – Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses da UEFS, Bahia, Brasil, vol. 7, n.º 1, 2010.
  • Luís Vaz de Camões: um património desperdiçado, Hoje Macau, Macau, 10.06.2009.
  • Camões e a busca dos trunfos perdidos, Hoje Macau, Macau, 10.06.2008.

  • Camões na periferia de dois impérios: "... verdades puras são, e não defeitos...", Ponto Final, Macau, 8.06.2007, ed. especial de 10 de junho.

Camões em Macau: uma certeza histórica

de Eduardo Ribeiro
Macau: Edições COD, 22.11.2007.
  • Atenas: o primeiro pilar da identidade europeia (os 2514 anos da primeira democracia no mundo) [em duas partes], Ponto Final, Macau, 29 e 30.05.2007.
  • Camões: um poeta na periferia de dois impérios, Ponto Final, Macau, Supl. especial de 10.06.2006.
  • A passagem dos francos (Cheng Ho e “1421”; os Árabes, o Islão e Yunnan; o Índico, Vasco da Gama e Ibn Majid; “os experimentados” e o “canal de entrada”) [estudo publicado em cinco partes sucessivas], Ponto Final, Macau, 24 a 28.04.2006.
  • Lusíadas ainda em Macau. Obviamente, Camões com eles, [texto publicado em cinco partes] Ponto Final, Macau, 3, 4, 5, 7 e 10.04.2006.
  • Camões nas partes da China. Obviamente, em Macau, Ponto Final, Macau, 17.03.2006.

Eduardo Ribeiro, autor de Camões em Macau, de visita a Paços de Ferreira


Para saber +
















Redação: atualizado em 21.02.2026

2026/02/10

"Camões na Gruta de Macau", obra de Francisco Augusto Metrass



     "Camões na Gruta de Macau"    

Portugal, 1853. - Óleo sobre tela, 163 cm x 132 cm.
por Francisco Augusto Metrass.

Museu do Chiado / Arte Contemporânea, Lisboa.


A obra de Metrass é selecionada para 
Exposição Universal de Paris, em 1855

"Esta geração romântica acaba por se consagrar em torno da Exposição Universal de Paris de 1855 e da trienal de Lisboa do ano seguinte, muito por ação do monarca consorte, já então viúvo, depois da morte da rainha, ocorrida em 1853. 

Paris constituiu a primeira representação artística nacional além fronteiras [Nota 30] com uma comissão própria presidida pelo Conde de Farrobo e da qual faziam parte, entre outros, António Manuel da Fonseca, mas também Anunciação (nomeado professor substituto de Paisagem em 1852), Metrass e Meneses. O processo de seleção das obras foi naturalmente muito esgrimido entre as fações estéticas e exigente da intervenção apaziguadora do rei, na altura regente, atendendo à menoridade do filho herdeiro D. Pedro. 

É curioso notar que das pinturas escolhidas e enviadas a Paris, algumas já pertenceriam à coleção do monarca, com evidência para a obra Camões na Gruta de Macau, de Francisco Metrass, oferecida pelo artista a D. Fernando que o gratificou com a quantia de 225$000, em 1853 [Nota 31]."

Nota 31 - "A.H.C.B., Casa Real, Secretaria de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, Contabilidade, Livro de caixa de 1853, Cota NNG 3512, f. 31. Agradeço a Inês Marques a informação."

Maria João Neto & Marize Malta (coord.)
Coleções de Arte em Portugal e Brasil nos Séculos XIX e XX: Modus Operandi | [PDF]
Lisboa: Caleidoscópio, 2023, p. 56.



Camões na gruta de Macau, 1853
 de Francisco Metrass
imagem divulgada na folha de sala e
na Exposição também disponibilizada online - CAMÕES 500
Com curadoria de Paulo da Silva Pereira e Filipa Araújo
Patente de 9 jan. a 25 jul. 2025, na Sala de São Pedro, da BGUC.


    Camões na Gruta de Macau    

c. 1853. - Óleo s/ tela, 28 x 20 cm
Ass. em baixo à esquerda: Metrass
de Francisco Metrass

In: [Catálogo de exposição]
Um percurso pela Pintura Portuguesa: Colecção Telo de Morais |  [PDF]
 Viseu: C. M. de Coimbra e Museu Grão Vasco, 2012, p. 12

Comentário:
Obra que parece ser um esboço (daí a indicação da data "c. 1853")
da obra conhecida com o mesmo nome, datada de 1853.


     METRASS    
Francisco Augusto Metrass

n. Lisboa, em 1825 - m. 1861

"Frequentou a ABAL, onde foi aluno de António Manuel da Fonseca na cadeira de Pintura de História.
A sua estada em Roma (1844-1846), onde estudou nos ateliers de Overbeck e de Cornelius, pô-lo perante a produção do Grupo dos Nazarenos, reforçando o seu interesse pela pintura de história, mas agora com conotações místicas e simbólicas. 
A sua passagem por Paris teve também grande impacto na sua obra e no meio artístico português na medida em que contactou com a pintura romântica francesa, cujos princípios estéticos terá divulgado no nosso país. 

O regresso a Portugal (1847) foi, porém, marcado pelo insucesso junto do público, partindo, desiludido, de novo para Paris. Durante o período seguinte de viagens entre Portugal e França, Metrass pintou as suas obras mais emblemáticas, encenando dramaticamente cenas da História nacional (Camões na gruta de Macau, 1853 e Inês de Castro pressentindo os assassinos, 1855, ambas do Museu do Chiado) e explorando expressivamente os temas românticos do limiar da morte ou da angústia existencial. 

O romantismo popularizou-se então em Portugal, após um primeiro momento de incompreensão, com as pinturas de Metrass, que seria nomeado professor da cadeira de pintura de História da EBAL."
In: [Catálogo de exposição]
Viseu, 2012, p. 12.


Camões em Macau

"Existem indícios fortes de que Camões desempenhou, por algum tempo (talvez durante a década de 60 do séc. XVI), função de provedor-mor dos defuntos em Macau. 

Aí se encontra uma gruta que, segundo a lenda, teria funcionado como espaço de recolhimento e de trabalho do poeta e que guarda ainda hoje o seu nome. 

Embora não comprovada documentalmente, tal lenda reflete bem  a importância de Camões para a identidade cultural daquele território para a preservação da língua portuguesa no quadro das relações históricas entre Portugal e a China. 

Na tela do pintor Francisco Augusto Metrass,  o poeta, tendo a pena na sua mão direita e a espada a seus pés, surge acompanhado pelo jau, um escravo oriundo da ilha de Java, mas é pouco provável que em Macau este já estivesse ao seu serviço."

Paulo da Silva Pereira e Filipa Araújo (curadores)
in Folha de sala da exposição CAMÕES 500, Coimbra 2025.



para saber +





Paulo da Silva Pereira e Filipa Araújo (curadores)
CAMÕES 500 - ["Folha de sala" da exposição, 
patente de 9 jan. a 25 jul. 2025, na Sala de São Pedro, da BGUC].
Exposição CAMÕES 500 - Reproduzida online.
Produção: Maria Luisa Sousa Machado; José Amado Mateus;
Design: Atelier d'Alves.
Coimbra, 2025

Nuno Sadanha
Francisco Metrass (1825-1861): Melancolia, Eros e Tanatos.
in Arte, Cultura e Património do Romantismo. Actas do 1.º Colóquio “Saudade Perpétua”
2017, p. 769-799.

[Catálogo de exposição]
"Um percurso pela Pintura Portuguesa: Colecção Telo de Morais" |  [PDF]
 Viseu: Câmara Municipal de Coimbra e Museu Grão Vasco, 2012.

José-Augusto França
A Arte em Portugal no Século XIX
Lisboa, 1991, p. 146-147.

História da Arte em Portugal, Vol. 10
Lisboa: Publicações Alfa,1986, pp. 158-159.

Museu Nacional de Arte Contemporânea
Camões nas Colecções do Museu Nacional de Arte Contemporânea: Catálogo
Lisboa: MNAC, 1972.




Redação: 9.02.2026

2025/11/10

Macau e a gruta de Camões, por Camilo Pessanha

© Conteúdo integrante desta exposição.























Camilo Pessanha, 1867-1926

"Camilo de Almeida Pessanha, o mais singular e original poeta simbolista português, apenas viu publicado em vida o livro Clepsydra (1920), que reuniu o essencial da sua produção poética. 
Colaborador fugaz de vários jornais e revistas, viveu os últimos anos da sua vida afastado do convívio dos seus principais companheiros de letras, em Macau, repetindo os seus melhores versos "de memória", como gostava de sublinhar. 
Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro contaram-no entre os seus mestres, estabelecendo-se, através da sua obra, a ponte que em Portugal ligou simbolismo e modernismo."




O Jardim Luís de Camões em Macau, China.

Um vídeo - no Facebook -  que participou no concurso "Falar Macau, falar português",
organizado pelo IPOR - Instituto Português do Oriente em 2019. 


A Gruta de Camões no Jardim

Imagem atual, com o investigador Eduardo Ribeiro
Fonte: página do Autor no Facebook


Macau e a gruta de Camões

por Camilo Pessanha

Dos templos profanos portugueses dedicados ao culto da Pátria e ao culto do génio é sem dúvida um dos mais venerados o modesto jardim de Macau, chamado a Gruta de Camões. Nenhum português absolutamente, nenhum estrangeiro de mediana instrução vem a Macau, mesmo de passagem, cujo primeiro cuidado não seja o de irem em romagem a esse recinto sobre cujo solo é tradição que poisaram os pés do poeta máximo de Portugal – um dos máximos poetas de todo o mundo e de todos os tempos –[,] enquanto o seu génio elaborava algumas das estrofes de bronze dos Lusíadas. E a nenhuma deixa de invadir, apenas transposto o vulgaríssimo portal de quintalejo suburbano, que dá acesso ao local, um sentimento dominador de religiosidade, a todos impondo silêncio, como se do lado de dentro das duas insignificantes umbreiras de granito estivesse aquela tela que existiu à entrada da cartuxa do Bussaco, onde a pintura macerada de um frade fitava imperativa, com o seu olhar imóvel, os que se aproximavam, erguendo verticalmente diante da boca o indicador da mão direita.

Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica há de decerto renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa.

É a sorte de todas as tradições consagradas. A crítica histórica, a história-ciência, positiva e experimental, vem fazendo tábua rasa de quando é anedótico e pessoal, das atitudes esculturais, dos gestos dramáticos, das frases eloquentemente concisas, em que tradições, lentamente evoluídas, haviam definido, em termos quási sempre de inexcedível beleza, um carácter, um acontecimento ou uma época. Para só me referir à história literária, basta lembrar que, demonstradamente, Homero nunca existiu; e que, quanto a Shakespeare, se é, ao que suponho, incontestado ter havido no século XVI a XVII um actor inglês desse nome, não falta já quem lhe negue a autoria de todas e cada uma das tragédias que o mesmo nome imortalizaram e para apreciação de cujo valor não se encontra termo de comparação mesmo nas supremas criações do teatro grego clássico.

Mas discussões são essas de carácter puramente académico, só interessando à investigação erudita. Se as tradições estão bem arraigadas e vivas, não será a demonstração de sua inexatidão histórica que as poderá destruir. É que não foi nas dissertações dos sábios que elas germinaram e medraram, nem é delas, mas do sentimento popular, que tiram a seiva. A Ilíada e a Odisseia hão de chamar-se sempre os poemas homéricos; e quando os infatigáveis sapadores que são os historiadores modernos chegarem à conclusão documentada de que Shakespeare não existiu, ou de que não sabia escrever, nem por isso a série de assombrosas figuras animadas que, no Hamlet, no Macbeth, no Otelo, no Rei Lear, se estorcem nas grandes crises das suas paixões sobrehumanas, traduzindo, ampliadas até ao grandioso, todas as modalidades de afectividade, cessariam de constituir a galeria das personagens shakespearianas. 

Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efémeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heróica da Grécia.

A vitalidade das tradições lendárias, ou quási lendárias, depende essencialmente de dois requisitos. É necessário que o objecto a que se referem se imponha pela sua grandeza à admiração contemplativa de todos os tempos. É-o igualmente que a própria tradição, nos diversos factores que a constituem, seja adequada a esse objecto. As tradições pertencem ao folclore, há nelas, preponderante, um elemento estético; e toda a obra de arte precisa, antes de mais nada, de ser bem equilibrada.

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima que culminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portuguesa do Mar da China ligado ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou. 

Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda atividade portuguesa no Oriente, nesses tempos gloriosos. Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia. Há, com efeito, padrões mortos. São essas inscrições obliteradas em pedra, delidas pelas intempéries e de há muito esquecidas ou soterradas, que os arqueólogos vão pacientemente exumando e penivelmente decifrando, tão lamentavelmente melancólicas como as ressequidas múmias dos faraós.

A fatalidade do determinismo histórico fez que a colonização portuguesa quási exclusivamente se desenvolvesse a dentro dos trópicos, e, com exclusão de Macau, todas as colónias portuguesas, ou ex-portuguesas de clima relativamente temperado são situadas no hemisfério austral. Assim[,] é Macau a única terra do ultramar português em que as estações são as mesmas da Metrópole e sincrónicas com estas. 

É a única em que a Missa do Galo é celebrada em uma noite frígida de Inverno; em que a exultação da aleluia nas almas religiosas coincide com o alvoroço da Primavera – Páscoa florida com a alegria das aves novas ensaiando os seus primeiros voos; em que a comemoração dos mortos queridos tem lugar no Outono. Mais ainda: em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal, menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas, destacando a cada canto em retângulo[s] de papel vermelho, das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante, com as suas velas de esteira fantasmáticas, e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa. Quem estas linhas escreve teve, por várias vezes, (há quantos anos isso vai!), deambulando pelo passeio da Solidão, a ilusão, bem vivida apesar de pouco mais duradoira que um relâmpago, de caminhar ao longo de uma certa colina da Beira Alta, muito familiar à sua adolescência.

Ora a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes no húmus do solo natal. É por isso que os grandes poetas são em todos os países os supremos intérpretes do sentimento étnico. Toda a poesia é[,] em certo sentido, bucolismo; o bucolismo e regionalismo são tendências do espírito inseparáveis. Notáveis prosadores (basta lembrar, dentre os contemporâneos, Lafcádio Hearn, Wenceslau de Moraes e Pierre Loti) têm celebrado condignamente os encantos dos países exóticos. Poeta, nenhum. Os poucos que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escrevem em verso, é sempre para cantar a pátria ausente, para se enternecerem (os portugueses) ante as ruínas da antiga grandeza da pátria e, sobretudo para dar desafogo à irremediável tristeza que os punge. E se na reduzida obra poética colonial desses escritores – Tomás Ribeiro, Alberto Osório de Castro, Fernando Leal (este último nascido na Índia, mas nem por isso menos exilado ali, português como era pelo sangue e pela educação) – se encontram dispersos alguns traços fulgurantes de exotismo, é só para tornar mais pungente pela evocação do meio hostil de inadequado pela sua estranheza à perfeita floração das almas – a impressão geral da tristeza – da irremissível tristeza de todos os exílios. 

Veio toda esta divagação a propósito de dizer que ainda é Macau a única terra de todo o ultramar português, em que se pode ter, até certo ponto, a ilusão de se estar em Portugal, essencial ao exercício por portugueses da sua especial atividade imaginativa... Para concluir contra toda a tradição e contra toda a evidência histórica, que tenha sido escrita ou concebida em Macau uma parte considerável da vastíssima obra poética de Camões? Seria verdadeira loucura.

O génio de Camões alimentado embora exclusivamente da seiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história, das suas lendas, das suas crenças, da sua cultura científica e literária – tem pujança bastante para triunfar dos meios mais adversos, para resistir aos mais implacáveis factores de perversão e de atrofia. As suas composições são datadas (indiretamente datadas) dos mais diversos pontos e dos mais inclementes climas – da África e da Ásia[,] por onde no século XVI se estendia o imenso império português e se despendia a exuberante energia da raça portuguesa. Muitas das obras primas do seu lirismo, das mais tipicamente nacionais pelo acentuado tom elegíaco de que estão impregnadas, brotaram na Índia do seu coração saudoso; e uma delas, das mais comoventes e das mais conhecidas, nasceu entre essa penedia sinistra da costa do Mar Vermelho; dessas nuas penedias incandescentes, que escaldam os pés a quem ali desembarca e parecem[,] vistas a certa distância, formadas de escumalha de ferro.

Mas a terrível acção depressiva do clima e do ambiente físico e social dos países tropicais, se não tiveram poder contra a assombrosa vitalidade criadora do poeta máximo, têm-no, todavia, não só para esterilizar em cada um de nós outros, os pigmeus que a quatro séculos de distância o contemplamos, o pouco de aptidão versificadora que algum tivesse, mas ainda para destruir, mesmo nos melhor[es] dotados, a comezinha parcela de imaginação de que é indispensável dispor quem intente evocar a estatura do gigante, o seu esbelto perfil e a sua figura augusta. E, pois que Macau, não só pelas suas condições climáticas mas também como mais remoto padrão da acção portuguesa na Ásia, é o palmo de terra mais próprio para essa evocação se fazer, natural é que, à semelhança do que sucedia com os mais célebres santuários pagãos, situado cada um deles em terra ilustrada por algum episódio da vida da]divindade a que era dedicado, seja em Macau o santuário nacional – pan-lusitano – consagrado ao génio do poeta, e que a Macau a biografia deste particularmente se refira.

É a Gruta de Camões, com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correcção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguirem, há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal, e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então erma, sobre o porto interior, junto das penhas com aparência de dólmen em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze.

Macau, junho de 1924
CAMILO PESSANHA

In: "Macau e a gruta de Camões", in A Pátria [semanário], Macau, 7.07.1924.

Reprodução em:
  • Contemporânea, 5.ª série, nº3 (jul-out. 1926), 116-118.
  • Camões nas Paragens Orientais: textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. -  opúsculo. - Ed. Petrus, 1927.
  • Camões nas paragens orientais. - Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. S.l.: s.n., 1951.
  • Macau e a gruta de Camões. - [Camilo Pessanha]. Macau: Imp. Nacional, 1972.
  • Camões nas Paragens Orientais: textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. - Reedição anastática do opúsculo editado por Petrus em 1927. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau, 1999.

Para saber +

  • RIBEIRO; Eduardo (2020) Camões em Macau: uma verdade historiográficaPref. João Paulo Oliveira e Costa. 2.ª ed., “revista e atualizada”. Lisboa: Mythus de Er. - [1.ª ed., Lisboa: Labirinto de Letras, 2012].
  • RIBEIRO; Eduardo (2018) Camões no Oriente e outros textos. 2.ª ed., Lisboa: e.a.. - [1.ª ed., Lisboa: Labirinto de Letras, fev. 2012].
  • RIBEIRO; Eduardo (2016) Camões in Asia (1553-1570). Lisboa: CCCM.
  • FRANCHETTI, Pauylo - Pessanha e a gruta de Camões. - Texto lido no colóquio “Camilo Pessanha: orientalisme, exil et esthétiques fin-de-siècle”, Universidade Paris Oeste/Nanterre, nov. 2008. - São Paulo: USP.
  • BOTAS, João - [...], in Macau Antigo: a blog about Old Macau.






Redação: 17.02.2023, atualizado em 10.11.2025

2025/09/13

O Álbum poético de pedra de Camões na sua Gruta em Macau


Foram efetuados trabalhos de reparação nos poemas do pedestal do busto de Camões

O Instituto para os Assuntos Municipais  (IAM) de Macau informou, em julho de 2025,
a jornalista Catarina Pereira, do Jornal Tribuna de Macau,
que tinham sido concluídos os trabalhos de renovação do busto de Camões.

Um ano antes, o investigador António Aresta
tinha alertado num artigo de opinião publicado no mesmo jornal
para a questão da erosão das pedras onde estavam gravados os versos
camonianos, que precisavam de ser reescritos.


O poeta português Luís de Camões (1524-1580) 
viveu, trabalhou, escreveu e amou em Macau,
durante cerca de três anos (± 1563-1565).
Camões esteve em Macau, enviado em comissão 
como Provedor dos Defuntos e Ausentes. 
Aí retirou-se para junto dos penedos da colina de Patane,
de onde podia desfrutar de uma rasgada vista sobre o mar em redor.

Séculos mais tarde, em memória de Camões, 
nesses três penedos, atualmente designados "Gruta de Camões",
foi colocado um busto do Poeta. 
Em 1849, Lourenço Marques, proprietário do Jardim Luís de Camões 
e comerciante rico, renovou a gruta com um novo busto, 
agora da autoria do escultor português Bordalo Pinheiro. 
Em 1866, o busto de Camões foi refundido em bronze.

É na parte detrás do pedestal onde assenta o busto do Poeta
que estão gravadas três oitavas de Os Lusíadas,
uma dela estava bastante ilegível.

E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.
Luís de Camões
in Os Lusíadas, Canto VI, est. 81.

As outras duas oitavas gravadas no pedestal em pedra 
são as estâncias 95 do Canto VI e 42 do Canto VIII.


para saber +

Catarina Pereira 
in Jornal Tribuna de Macau, 30.07.2025







Redação: 13.09.2025

Etiquetas