Pesquisar na e-CAM:

Mostrar mensagens com a etiqueta Cartas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cartas. Mostrar todas as mensagens

2022/07/01

Por que nem tudo seja falar-vos de siso... - carta, de Lisboa, a um clérigo algures no Reino, mandando novas "de folgar" da cidade


Por que nem tudo seja falar-vos de siso...

“Carta que hum Amigo a outro manda de novas de Lix.a” (Códice Varejão, 156r-157v)
Carta VI, “enviada de Lisboa para algures no Reino”, a “um clérigo”, em “20 de maio de 1551” (F. de Saavedra, 2022)



Por que nem tudo seja falar-vos de siso, após as novas que vos mandei de África e da Índia, que cá soaram, agora vos mando estas de folgar, que à orelha vos hajam de soar melhor, e ainda que escrever-vos isto seja empresa baixa, e de baixo sujeito, pois é praguejar de putas, contudo não terei culpa, senão se ma vós causardes, com me descobrirdes, por que eu pera vós só o escrevo, com quem posso e devo falar tudo, e assi desta cautela de segredo, e não seja necessário ficardes vós culpado comigo, nem eu desculpado convosco, e que eu não seja destas cousas o mais diligente solicitador desta terra: nunca faltam más línguas que vos fazem tudo em que vos pez.

Bem sabeis já como é entrada nesta cidade Madama del Puerto, com a Senhora Barbórica sua filha, e também sabeis que este sobrenome “del Puerto”, não cobrou ela por cem mil milagres, que nele fizesse, onde muito tempo residiu em seu ofício, mas por cem mil velhacarias que estão significando cem mil açoutes, que por elas lhe pintaram nas costas, com trombetas, por que a Senhora Bárbora foi mais vezes cosida e renovada por Sua Madre que umas botas de um escudeiro, e assi a vendia por “buena”. E, porém, a Puta Velha com o furto que lhe tomaram nas mãos lançaram-lho nas costas com trombetas, até que por vários casos, “per tot discrimina rerum”, tornou aqui a aportar a Lisboa – Ó má Lisboa, que é um ninho velho, e domicílio antigo de putas antigas, e aqui como dizem das cegonhas, as moças mantém as velhas, foi logo a Sra. Bárbora assoalhada por essas estações, e perseguida de alguns novéis, que a não conheciam, que aos veteranos não podia ela enganar, pera estes modernos que digo, usou logo a puta velha de um ardil muito bom, que foi fazer a filha casada com um Mártire do Alentejo, que não reside aqui, e diz ela aos seus devotos, que é isto um pão pera os cães, e assim é, que com este pão feitiço, abre e fecha quando quer, e se nega, e se defende, e ofende, e espanca, os tristes dos Canitos novos que com ela gastam o seu, com estes tem seus tratos, e comércios, e c’os mundanos maciços que sabem o erro, tem seus passatempos, e manda tanger e cantar a Senhora Bárbora, descantando sobre o Monte de Sião, e “de super Judeorum turbam”.

E olhai esta declaração, que nem Ascênsio nem Donato a puderam dar melhor, os praguentos de agora, se não entremetem latinzinho hão que não escrevem bem, e eu assim o faço imitando mais seu estilo que o meu, por que já em escrever-vos, e “nos aliquod nomenque decusque gessimus”, e vós já me gabastes mais, do que vos eu gabo, e isto basta pera vos escrever agora, como quiser, sem guardar ordem, nem ordens, conforme ao lugar, e estado, em que agora viveis,

E eu vivo noutro, de um morcego sem ser ave nem rato, a culpa disto dá-la-hão uns ao triste que passa a pena e outros aos acontecimentos da fortuna, que não respondem sempre aos fundamentos de cada um, ainda que sejam bons, outros a darão aos corações humanos que nunca se satisfazem, mas enfim eu sei cuja lela é.

E tornando ao nosso tema, digo que a Senhora Bárbora, “y la puta de su Madre”, vem tão avante no putarismo, que podem ler de cadeira, e com seus donaires ora portugueses ora castelhanos, nunca lhe faltaram em que empreguem suas letras, e suas manhas, por que neste cesto roto de Lisboa, onde elas lançam tudo, bem sabem que cada panela tem seu testinho, e que sempre neste mar magno morrem madraços que vêm picar em seus anzolos, com que elas pescam, de muitas maneiras, e como agora anda tudo de levante com estas armadas, e na água em volta pesca o pescador, elas também d’armada dão por esses coitados que hão de ir pera fora sobre as águas do mar, uns debruadinhos d’arte, a quem como sabeis pagam soldos e moradias adiantadas, com outras mercezinhas, e de maneira os tratam que como franceses; depois de lhes vazarem as bolças, de bem vestidos e louçãos que andam, os tomam e lhes despem até as couras golpeadas.

E destes, os que agora dão mais vistas e mostras, são os Ceitis, que assi chamamos aos que se agora fazem prestes pera Ceuta, e estão as casas destas Damas todas cheias destes Ceitis, de que elas fazem alguma prata. E estas falsas que “rebivem para dar muerte”, que como o trigo senão apodrece na terra não dá fruito nem espiga, assim estas velhacas parece que quanto mais podres, de seus males, e doenças, amortalhadas em seus suadouros, refrescam e reverdecem mais, porém já sabeis que “latet anguis in herba”, como se vê nelas cada dia, que são peçonhentíssimas, mas como são, são quistas, amadas e requestadas de seus amantes, mais perdidos que elas.

E das putas claustrais as que mais andam agora nos pelouros de seus folgares, são a Tarifa, a Surradeira, a Marquesa, a Sintroa, Antónia Brás, e as que chamam as folionas. “Ay” também outras Claustrais, mas mais autorizadas, as freiras, Bárbora, Luzia e outras desta laia, “ay” outras inda de mais autoridade, estas dão sua casa a onde se pagodeia, por que com as pessoas não servem, por serem já velhas, assim como Guiomar Mendes, Felipa de Bairros, Beatriz Flamenga, com suas filhas “et cum socijs suis” e às casas destas se vão apontar toda a imundícia destes que digo.

Aconteceu, pois, que esta semana, que uns certos Ceitis (que por sua honra não nomeio) ordenaram um pagode real, com Madama del Puerto, e sua filha Bárbora, e com as velhacas da Surradeira, e Marquesa, e pera isto fintaram pera a cabeça da Serpe o mais que eles puderam ajuntar, com que fizeram abastada despensa de comer, e beber, o que foi tudo levado a Orta Navia, em Alcântara, aonde havia de ser a mojanga, e por mais te honrar, Mafoma, e ser a cousa mais crespa, saíram de suas casas a tempo que “o radiante sol esparzia sus dorados Rayos sobre la haz de la tierra”, nesta ordem e concerto, “scilicet” as Damas iam ao varonil, em trajo de homens cavalheiros em quartaos, que lhe eles buscaram muito guerreiros, com seus penachos recamados de ouro e prata, por ir a cousa meia em prata e meia em Ceitis, por que ainda que os Senhores eram todos dos Ceitis, digo um deles que principalmente ia por servidor da Marquesa, “su padre era de Ronda, y su Madre era de Antequera”, ou de Guiné, a Puta Velha por guardar mais o decoro e majestade de Madre, ia de Andilhas, porém louçã e muito enfeitada, e coberta com uma capa de escarlata, mas como dizem escusada é a decoada, e por demais na cabeça do asno, por que ela não deixava de parecer quem é, ou parecia tudo a falsa Cábria, quando a vestiram nos trajos da outra, desta maneira chegarão a Navía, onde como Alcatruz se vazaram, e eram cheios, como se diz, não de água, mas de muito vinho, com que de todo, segundo fama, desenfadarão seus corpos, e dou-vos fé que me espantaram as cousas que então fizeram, muito notáveis que não são pera vos contar. E não vos pareça que ficou a madre velha de todo de fora, porque os cavalheiros eram mais que os das Damas, puseram se a fazer festa, por que também fosse regozijada.

Saíram-lhe diante uns Almogávares, que souberam desta ida, os quais eram seus Marinhanos, (e vós os conheceis, amantes destas damas) primo e irmão da Surradeira, e outros, determinando afrontarem-nos de alguma maneira, perpassaram por eles muitas vezes, a rédeas tendidas fazendo muito pó, e rocando-se com as Damas, que iam de isto em extremo receosas, por cuidarem que era isto caminho de algumas brigas, cousa no certo que as mais namora, e, porém, os cavalheiros foram todos conhecidos logo dos outros e ficaram “buenos y leales”. E assim, dissimulando cada um com sua mágoa, foram retirando-se, os Rufianos se tornaram, e a outra mais companhia seguiu sua rota, agasalhando-se aquela noite cada amante com a sua, aonde se diz que foram matraqueados dos outros de amorosas batarias; outros recontros notáveis são passados entre matantes e estas senhoras “mias”, espero informar-me bem, de um matador que me há de contar tudo, então vo-lo escreverei, mais largamente, e por agora contentai-vos com isto, por que “visa est mihi digna relata pompa”.

O vosso homem leva a vossa encomenda, a minha não esqueça a v. m. com me escrever largo, como eu faço sem medo nem vergonha,

Beijo as mãos de v. m. desta aldeia de Lisboa, a melhor do Reino, 
a 20 de maio, de 1551 anos.






Texto atualizado a partir de:

VAREJÃO, Pedro Alvarez, comp. – Códice Varejão, BNP: 9492, 156r-157v.

SAAVEDRA, Felipe de (2022) [Fac-simile e transcrição da carta], in Epistolário magno de Luís de Camões: volume I – Celestina em Lisboa. Edição crítica, analítica e comentada de – Lisboa: Canto Redondo, p. 8-15.


2020/08/23

Esta vai com a candeia na mão... - carta, escrita em Ceuta para um amigo, de Luís de Camões


Imagem in: "Epistolário Camoniano" / Missiva.pt


Esta vai com a candeia na mão...

"Carta II. A outro amigo" (1598)

"Carta I, Escrita de Ceuta" (H. Cidade, 1946, 4.ª ed. 1985)


Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v.[ossa] m[ercê] e se daí passar seja em cinza, porque não quero que do meu pouco comam muitos. E se, todavia, quiser meter mais mãos na escudela, mande-lhe lavar o nome, e valha sem cunhos.

 

La mar en medio, y tierras he dejado,

Y cuanto bien, cuitado, yo tenía.

Mas cuan vano imaginar, cuan claro engaño

Es darme yo a entender que, con partir-me,

De mi se a de partir un mal tamaño.

 

Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do sentimento! E se não, digam quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque, enfim, la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes cuidados jogam meus pensamentos à barreira, tendo-me já, pelo costume, tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo uso dos anos se converte em natureza. Pois o que é para mor mal, tenho eu para mor bem. Ainda que para viver no mundo, me debruo doutro pano, por não parecer coruja entre pardais, fazendo-me um para ser outro, sendo outro para ser um; mas a dor dissimulada dará seu fruito, que a tristeza no coração é como a traça no pano:

 

E por tão triste me tenho,

Que se sentisse alegria,

de triste não viveria.

Porque a tal sorte vim,

que não vejo bem algum

em quanto vejo,

que não nasceu para mim;

e por não sentir nenhum,

nenhum desejo.

 

Porque cousas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las. E por isso,

 

Só tristeza ver queria,

Pois minha ventura quer

Que só ela

Conheça por alegria;

E que, se outra quiser,

Morra por ela.

 

Pouco sabe da tristeza quem (sem remédio para ela) diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperareis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que dês[de] que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais que não sou gente fora do meu bairro, vedes vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados. E cuido que não é tão dedo queimado, que não seja dos que El-Rei mandou chamar; o qual fala assim:

 

Não quero, não quero

jubão amarelo.

 

Se de negro for,

Também me parece,

Quanto m’aborrece

Toda a alegre cor!

Cor que mostra dor

Quero, e não quero

jubão amarelo.

 

Parece-vos que se pode dizer mais? não me respondais: Quem gabará a noiva? Porque assentai que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que não é tão pequena habilidade. E porque vos não pareça que foi mais acertar que querê-lo fazer, vedes vai outra do mesmo jaez, contanto que se não vá a pasmar:

 

Perdigão perdeu a pena,

Não há mal que lhe não venha.

 

Em um mal outro começa,

Que nunca vem só nenhum;

E o triste que tem um

A sofrer outro s’ofereça;

E só pelo ver conheça,

Que basta um só que tenha,

Para que outro lhe venha.

 

Que graça será esperardes de mim propósitos em cousas que os não tem pera comigo?, pois ainda que queira, não posso o que quero; que um sentido remontado de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe sucede assim; e cada um acode ao que lhe mais dói. E mais eu que o que mais me entristece é contentamento ter, pois fujo dele, que minha alma o aborrece, [por]que lhe lembra que é virtude de viver sem ele. Porque já sabeis que magoa é, vê-lo-ás e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,

 

Toda a cousa descontente

Contentar-me só convinha.

De meu gosto;

Que o mal de que sou doente,

Sua mais certa mezinha

É desgosto.

 

Já ouviríeis dizer: Mouro o que não podes haver, dá-o pela tua alma. O mal sem remédio, o mais certo que tem, é fazer da necessidade virtude: quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, enfim, Allegados son iguales, / los que viven por sus manos / etc. A este propósito, pouco mais ou menos, se fizeram umas voltas a um mote de enche mão, que diz por sua arte zombando, mais que não de sizo (que toda a galantaria é tirá-la donde senão espera) o qual crede, que tem mais que roer do que um praguento. Portanto recuerde el alma adormida, e mande escumar o entendimento, que de outra maneira, De fuera dormiredes pastorzico. E o meu, Senhor, diz assim:

 

Dava-lhe o vento no chapeirão,

Quer [lhe] dê, quer não.

 

Bem o pode revolver

Que o vento não traz mais fruito

E mais vento é sentir muito,

O que, enfim, fim há de ter.

O melhor é melhor ser

Que o vento no chapeirão,

Quer lhe dê, quer não.

 

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado. E a morte até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vos sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é:

 

Que esperança me despede,

Tristeza não me falece,

E tudo o mais m’aborrece.

Já que mais não mereceu

Minha estrela,

Só a tristeza conheço,

Pois que para mim nasceu

E eu para ela.

 

No mundo não tem boa sorte, senão quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhai de que maneira:

 

Vivo assim ao revés,

tomando por certa vida

certa morte,

com que folgo em que me pês,

pois minha sorte é servida

de tal sorte.

 

Uma cousa sabei: que o mal, inda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não tache com o coração.

 

Ajudai-me a sofrer,

Vida tão sem sofrimento

E tão sem vida,

Ver que enfim, fim há de ter

Desgosto e contentamento,

Uma medida.

 

Atentai que não são maus confeitos de enforcado para os que estão com o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, ainda que sejam diferentes na vida, são conformes na morte; porque vemos

 

Que não há tão alta sorte,

nem ventura tão subida,

ou desastrada,

a quem não assopre a morte,

não sopre o fogo da vida,

A seu fim todas as cousas vão correndo.

Nem há cousa a que o tempo não consuma,

nem vida que de si tanto presuma,

que se não veja nada, em se vendo,

 

que o mais certo que temos

é nada termos certo

cá na terra,

pois para seus não nascemos;

se o seu nos dá incerto,

nada erra.

 

Quero-vos dar conta de um Soneto sem pernas, que se fez a um certo recontro que se teve com este destruidor de bons propósitos, e não se acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor é o seguinte:

 

Forçou-me Amor um dia que jogasse;

Deu as cartas, e [ás] de ouros levantou,

E sem respeitar mão, logo trunfou,

Cuidando que o metal que m’enganasse.

 

Dizendo, pois trunfou, que triunfasse

A uma cota de ouros que jogou;

Eu então por burlar quem me burlou,

Três paus joguei, e disse que ganhasse.

 

Príncipes de condição, ainda que o sejam de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza; fazem com sua fidalguia com que lhe cavemos fidalguias de seus avós: onde não há trigo tão joeirado, que não tenha alguma ervilhaca. Já sabeis que basta um frade ruim, para dar que falar a um convento. Três cousas não se sofrem sem discórdia: companhia, namorar, mandar vilão ruim sobre cousa de seu interesse. Não se pode ter paciência com quem quer que lhe façam o que não faz. Desaguardecimentos de boas obras, destroem a vontade para não fazê-las a amigo, que tem mais conta com o interesse, que com a amizade, rezai dele que é dos cá nomeados.

 

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto, quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta, que a lua recebe a claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá. Não tem que aguardecer quem no que recebe a não recebe: porque bem comprado vai, o que com ela se compra. Nada se dá de graça, o que se pede muito. Está certo que não tem uma vida, tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório, a que chamais honra, donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade, nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano, quem creu mais o que lhe dizem, que o que viu. Agora, ou se há de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo que le duele.

 

Hora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem assim achareis meio real de descanso nesta vida, ela nos trata somente como alheios de si, e com razão:

 

Pois somente nos é dada

para ganharmos nela,

o que sabemos:

se se gasta malgastada,

juntamente com perdê-la,

nos perdemos.

 

Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve é,

 

Ponderemos e vejamos,

que ganhamos em viver,

os que nascemos:

veremos que não ganhamos,

senão algum bem fazer,

se o fazemos.

 

E por que respeitando,

 

Que o por vir tal será,

entesouremos,

porque não sabemos,

quando a morte nos pedirá,

que lhe paguemos.

 

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta mil pensamentos vãos, que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas, para com estes que vivem a mor bonança como ela. Porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos à costa, e se vem à mão com as almas no inferno, que é bem ruim guasalhado.

 

E pois todos isto temos

Não nos engane a riqueza

Porque tanto esmorecemos

E trás que vamos,

Já que temos por certeza

Que quando mais a queremos,

A deixamos.

 

Gastamos em alcançá-la

A vida, e quando queremos

Usar dela,

Nos tira a morte lográ-la;

Assim que a Deus perdemos,

E a ela.

 

Porque já ouviríeis dizer ninho feito, pega morta. Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda a dura dele está em quanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque acabado de alcançar é passado, e maior saudade deixa, do que é o contentamento que deu. Esperai por me fazer m[ercê] q[ue] lhe quero dar umas palavrinhas de propósito.

 

Mundo, se te conhecemos

Porque tanto desejamos

Teus enganos?

E se assi te queremos,

Mui sem causa nos queixamos,

De teus danos.

 

Tu não enganas ninguém

Pois a quem te desejar,

Vemos que danas,

Se te querem qual te veem,

Se se querem enganar,

Ninguém enganas.

 

Vejam-se os bens que tiveram

Os que mais em alcançar-te

Se esmeraram;

Que uns vivendo, não viveram

E outros só com deixar-te,

Descansaram.

 

Se esta tão clara fé

Te aclara teus enganos,

Desengana,

Sobejamente mal vê

Quem com tantos desenganos

Se engana.

 

Mas como tu sempre mores

No engano em que andamos

E que vemos,

Não cremos o que tu podes,

Senão o que desejamos

E queremos.

 

Nada te pode estimar

Quem bem quiser conhecer-te,

E estimar-te,

Que em te perder ou ganhar,

O mais seguro ganhar-te

É perder-te.

 

E quem em ti determina

Descanso poder achar

Saiba que erra;

Que sendo a alma divina,

Não a pode descansar

Nada da terra.

 

Nascemos para morrer,

Morremos para ter vida

Em ti morrendo;

O mais certo é merecer

Nós a vida conhecida

Cá vivendo.

 

Enfim, mundo, és estalagem

Em que pousam nossas vidas

De corrida;

De ti levam de passajem

Ser bem, ou mal recebidas

Na outra vida.

 

Afuera, afuera, Rodrigo, que eu, se muito for por este caminho, darei em enfadonho. Ainda que me pareça já me não livrará privilégio de cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, sofrei-me com meus encargos. E porque não digais que sou herege de Amor, e que lhe não sei orações: vedes vai uma, “Di Juan de que murió Blas?” com um pé à Portuguesa e outro à Castelhana, e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer palmo desta matéria perco o norte. E os suplicantes dizem assim:

 

— Di, Juan, de que murió Blas,

Tan niño, y tan mal logrado?

— Gil, murió de desamado.

 

—  Dime, Juan, quien le engañó,

Que con amor se engañase

Pensando que el bien hallase,

Adonde el mal cierto halló?

Después que el engaño vio

Que hizo, desengañado?

Gil, morió de desamado.

 

Travou com ele pendença

Em ter razão confiado;

Mas amor, como é letrado,

Houve contra ele a sentença;

E com aquela diferença

Disse entre si o coitado:

— Gil, morreó de desamado.

 

Quem tem razão tão cerrada

Que não saiba, sendo rudo

E sem respeito,

Que, sem Deus, é tudo nada,

E nada, com ele, tudo

Sem defeito?

 

E sendo isto tão certo,

Como todos confessamos,

E sabemos,

Não demos pelo incerto

O em que tão certo estamos

Pois o vemos.

 

A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Faetão, porque del dicho al hecho, va gran trecho. E de saber as cousas, e passar por elas, há mais diferença que de consolar a ser consolado. Mas assim entrou o mundo, e assim há de sair; muitos a repreendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isso amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa, nosso Senhor, etc.

 

 

 

Fonte:

Rimas / Luís de Camões. Lisboa, 1598, 193-200.

Carta I, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 225-242.





Quanto mais tarde vos escrevo... – carta, de Lisboa a um seu amigo, em que lhe dá novas da cidade, de Luís de Camões


Quanto mais tarde vos escrevo...


“Carta IV, De Lisboa, a um seu amigo em que lhe dá novas da cidade” (H. Cidade, 1946, 4.ª ed. 1985)

 

 

Quanto mais tarde vos escrevo, tanto mais me ficais devendo, e se uma vossa vale três das minhas, é necessário que faça quatro. E quanto às novas que me na vossa pedis, aguardei pondo à parte a muita necessidade que de vós me faz ter, que já não quero que as façais por mais amizade. Sabereis que eu ando não de paz, mas de guerra, laus Deo, e porque o ladrar sem morder nesta terra é como bucha de papel, que dá grande estouro e não leva pelouro, grandes mãos de ferro, capuzes de lâminas, maças de Hércules e golpes de Amadis, tudo contra o pobre de Camões.

 

Simão Rodrigues paga soldo aos maiores matadores desta terra, os quais já de in illo tempore lhe tinham cozinhado a morte. Este soldo se paga no tesouro, scilicet em talhadas de marmelada e púcaros de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que ainda que esta mercadoria seja defessa, pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.

 

Vosso comborço Denis Boto foi espancado nesse ressio uma boca da noite, e não se sabe donde veio este desastre, mais que quanto os homens alcançam por sua lança, mas não é pera espantar se isto de longe se guarda, por quem por amores de Lia dá isto e mais se há de passar. E por que este senhor não cuidasse que era solus peregrinus in Jerusalem, lhe fez companhia daí a uns dias Gaspar Borges Corte-Real, à porta de Pêro Vaz. Dizem que com uns paus o sacudiram como oliveira. Cuidou ele que as pedras não falavam, e disse que dera de comer a seus companheiros com as orelhas que tirara, mas São Lucas afirma que só São Pedro tirou uma a Malco na prisão de Cristo.

 

É certo que cuidastes que esta cantiga que era a duo, pois desenganai-vos, que um mouro da estrebaria do Carneiro lhe levou as contrabaixas, outra noite, mas cuido que não levou mais que duas ou três cargas, porque as outras eram já gastadas, com as figuras acima escritas.

 

Parece-me que já gora querereis que troque as bolas, tocando outras histórias. Tratando algumas cousas das Ninfas da água doce, sou contente, porque sei que há pedaço que me aí aguardais.

 

Dizem que Francisca Gomes, que [já] não amassa no forno aonde soia, por que veio outro mercadante, competidor, e fez a cama fora do leito chorando. Gabai-me esta estratagema, que é de ambas as bandas como tafecira.

 

A senhora Isabel Barbosa, com a outra senhora, deixou a casa para Isabel Nunes, crendo que faria a sua vinda mais cedo, mas já não virá até que paira, salvo se vier também o amante cantante, que por nome não perca.

 

Bajana fez grande festa aos soldados de cima, caindo da sela como Lúcifer da cadeira, e despois da caída, foi salteado pelos franceses, aonde por partido lhe deixaram as armas, mas a verdade é que ele se remeteu a certas cantigas de volta, das que tinha feito, mas não lhe valeu, que aquele privilégio tinha quebrado já em Orfeu, que se escreve que foi moído com as feridas.

 

Parece-me que já terei merecido os mil bens, e porém, não quero que me digais que vos não meço sobre o funil; tomai mais esta minha Algozaria: a terceira Ninfa, Antónia Brás, foi levada a galera Nueva, aonde foram atados seus cabelos de ouro ao pé do mastro.

 

Aonde com triste som

lhe cantaram a mangana

e com esta dor profana

gritos dava de pasión

aquella Reina troyana.

 

Um talabarte zunia

na dama por que foi peca;

ela com dor dizia:

Atentai mano Fonseca,

la terrible pena mía.

 

Ao outro dia esperámos que a cidade fosse posta em armas, mas estorvou-lhe o rifão que está na regra de viver em paz, que diz, dos arruídos, mas a puta leu outra regra que está mais abaixo, que diz: “Atenta bem o que fazes, não te fies de rapazes”, e dês que caiu no entendimento dela, disse, ao seu homem: “Não me sirvais, cavalheiro, i-vos con Dios, que eu mudarei o vinte a parte onde não digam os de Alfama que não tenho guardador, de modo que já hão deixado os três Cupidos do Rompeu.

 

E se vos enfadardes de ler tanto, não acordeis o cão que dorme, mas sofrei mais estas duas regras, nas quais vos darei conta de mi, Já que ma vos não dais:

 

Dizem que é passado nesta terra um mandado para prenderem a uns dezoito de nós, e porque nestas pressas grandes sem vós não somos nada, sabei que deste rol vós sois o primeiro, como sempre fostes em tudo. A razão dizem que é por um homem fidalgo, que dizem que foi espancado uma noite de São João pelo senhor João de Melo, e ele saberá se é assim.

 

O senhor António de Resende beija as mãos a vossa mercê, o mesmo faz Pero Ribeiro Serpe.

 

Depois de ter escrito, soube que não foi Afonso de Bajana o que deixara a espada, senão que fugira, e a espada foi de Simão Ribeiro, tanto monta.

 

Trazei de lá estudado um conluio que faça a Brás Antónia porque, pedindo lhe sobre aposta seu corpo, me fez perder, cousa de que ando muito magoado, e desejoso de vos ver nesta terra. – Vale.

 

 

 

Fonte:

1.     [...]

2.     Carta IV, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 259-264.





2020/08/22

Uma vossa me deram... – carta, de Lisboa a um seu amigo, de Luís de Camões


Imagem in: "Epistolário Camoniano" / Missiva.pt


Uma vossa me deram...

 

Uma vossa me deram, a qual pelo descostume me pôs em tamanho espanto, que me voltou o contentamento de saber novas de quem tanto desejo, mas com esta vos culpo do esquecimento que de mim tivestes, em me não escreverdes antes o que passa nessa boa Coimbra.

 

Entre algumas novas que na vossa me dais, vi que nela tratais mal a vida rústica, como são as águas claras, árvores sombrias, bosques saudosos, aves que cantam, e outras saudades de Bernaldim Ribeiro, quae vitam faciunt beatam. Não vos nego a enveja que delas vos tenho, e queixo-me do pouco conhecimento que delas tendes, pois me dizeis que já vos enfadam.

 

A troco destas novas eu vos darei outras, tão contrárias dessas, como vos esta carta dirá.

 

Primeiramente sabereis, que os homens vivem cá da mão do mundo, o que é despor cravos, ou rosas, ir ver a vinha se a rói a lagarta, rir das rústicas palavras dos pastores, festejar os seus amores não fingidos. E quem há de exercitar suas vidas de maneira que floresçam em boas obras, por que a lagarta das más línguas não roa as vidas alheias, trazem sempre as palavras aparadas para falarem com se prezarem disso, cousa que eu tenho por grande trabalho – andar a descrição pendurada em os amores fingidos, que os vossos pastores lá não usaram, porque vereis cá dama tão dama que, por o ser de muitos, que se a um mostra bom rosto, porque lhe quer bem, ao outro o não amostra ruim, por que lhe não queira mal. Estas digo que são como o Camaleão, que toma a cor de qualquer lugar em que o põem.

 

Derredor de cada uma destas vereis uma dúzia de parvos tão confiados, que cada um jurara que é o mais favorecido; um vereis encostado à espada com o sombreiro até os olhos, e a parvoíce até os geolhos, a cabeça entre os ombros, capa curta, as pernas compridas, nunca lhe falta uma conteira azulada que luz ao longe. Estes quando andam carregam nas pernas, e quando vão pelo sol, olham a sombra, e se se vêm bem dispostos, dizem que teve Narciso de se enamorar de si; têm o andar pausado, torcem os sapatos pera dentro; outros trazem sempre Boscão na mão, falam pouco, e tudo saudades, na conversação enfadonhos, pelo que cumpre a gravidade do amor. Nestes assim fazem as alcoviteiras seu ofício, e os esfolam, com palavras doces, e esperanças largas, recados falsos, hoje vos falam pela greta da porta, como me não falou, estava mal disposta, sentiu a sua mãe, porque esta é a isca com que Celestina apanhava las cien monedas a Calisto, com uma sobreinfusa.

 

Outras damas há cá, que ainda que não sejam letradas, são fermosas e menos trabalhosas, como são as Beatas de São Domingos, e outras que conversam os Apóstolos. Estas se queixam de viúvas honestas, ou de casadas, que têm seus maridos no Cabo Verde, e as por casar, e outras que andam fazendo devoção que lhes traga Deus seus maridos, de cuja vinda elas fogem, e nunca lhe[s] escapa as quartas-feiras a Santa Bárbora, sextas a Nossa Senhora do Monte, dias do Espírito Santo.

 

Umas dizem que jejuam a pão e água, outras a três folhas de oliveira, outras não comem cousa que padeça morte, e desta impressão são umas que fazem ir e vir uma nau à Índia em três dias; grandes capelos, hábitos de sarja, contas na mão, e o cu ladrão, porque debaixo disto, achareis mantéus debruados, gravins lavrados, gibões brancos e justos. Estas não se servem com músicas suaves nem vestidos lustrosos, nem com passeios, mas com peitas grosas, e cruzados amarelos, porque por dinero baila el perro, e palavras e plumas in vanum laborauerunt.

 

Os Cupidos destas não são uns capuzes frisados, e uns pelotes com petrinas ao olivel do embigo, e pantufos de veludo, estes medram por sesudos afora as custas, que também amassam neste forno frades de São Francisco, que andam com as calças desatacadas e lombos roliços, e dos de Santo Elói, que têm que dar, ainda que o doutor Martin Vaz do Casal afirma que frades andam anexos a mulheres fidalgas, pela conversação das confissões, mas eu digo que jogam de todas as armas, porque todos somos del merino.

 

E quanto ao que toca a outras damas de aluguer, há muitos que se servem delas, e dirão muitos, que como não há nestas mais que pagar e andar, que não pode haver engano neste jogo. Digo que é ao contrário, por que vereis estar um rosto, que fará luxuriosa a castidade de Lucrécia, uma testa de alabastro, uns olhos de mordifuge, nariz de manteiga, uma boquinha de púcaro de Estremoz, mas o pueri, latet... se vos disserem que estas pelam quem as tem, dizei-lhe que mentem, por que muitos vi eu que não tinham nada de seu, que agora andam a cavalo e mula.

 

E alguns que conheceis e vos eu direi novas, a Maria Caldeira matou-a seu marido, que foi grande perda pera o povo, que amparava muitas órfãs e adubava muitos pagodes de Lisboa, afora outras obras de grandes respeitos,E por que esta senhora não vivesse muito tempo no outro mundo sem cartas de cá, por que partiu dali a alguns dias para lá Beatriz da Mota, vossa amiga.

 

Deste dilúvio algumas damas havendo medo destas se acolheram, determinaram ficar na Torre de Babilónia, aonde se acolheram, em a qual vos certifico que são já tantas as linguagens que cedo cairá, porque ali achareis Mouros, Judeus, Castelhanos, frades, clérigos, casados, solteiros, moços e velhos, e de todas as sortes. A esta Torre chamam alguns a Goleta, pela fortaleza, mas o filósofo João de Melo lhe chamou o Rompeu, por ser de três paus, scilicet: Francisca Gomes a Surradeira, Isabel Tarifa, Antónia Brás, a bola é Maria da Rosa; eu a crismei daí a poucos dias, e lhe pus nome o Mal-cozinhado, porque sempre se acha ali de comer, mal ou bem, tudo é vianda.

 

Destas senhoras os rostos são novos e as camas são velhas. Digo eu, que são Ninfas de água, porque não deitam mais que a cabeça fora, e porque estas são mais em Lisboa que em outras partes, porque afora os seus rostinhos bonitos, chamam-lhe[s] cá patinhas folio[n]as, porque bailam e cantam bem, que não hão inveja aos que el-Rei mandou chamar, os pagodes que fazem estas são da Seita de Epicúrio, que punha sua bem-aventurança no comer e beber, mas digo eu que o faziam, porque estas não eram ainda vindas.

 

Nesta casa se acham continuamente muitos Cupidos valentes, aos quais por diversas alcunhas chamam Matadores, Matistas, Matantes, matarises, e outros nomes derivados destes, porque sempre os achareis com cascos, rodelas gladiis et fustibus como se Nosso Senhor outra vez houvera de padecer, porque eu não lhe acho outra desculpa, nem causa. Confesso-vos que estes me fazem fazer outro tanto. Estes na prática, dir-vos-ão mis arreos son las armas, mas eu sei vos dizer, que se

 

na paz mostram coração,

na guerra mostram as costas,

porque ali dizem que torce a porca o rabo.

 

Ora como vos parece, Senhor, que se pode viver entre estes, que não seja melhor essa vida que dizeis que vos enfada, e essa quietação branda, com dormir à sombra de uma árvore, ao tom da corrente de um rio, e ao canto dos passarinhos ouvindo sua doce harmonia, em braços com os Sonetos de Petrarca, e Éclogas de Vergílio, onde vedes aquilo que ledes?

 

Se vos a vós, Senhor, essa vida enfada, ainda a troco pela minha e vos tornarei o que for bem, e não vos esqueça de me escreverdes mais vezes que esta pois sabeis o gosto que tenho de ver cartas vossas, com novas da saúde dessa pessoa cujas mãos mil vezes beijo, Vale.

 

 

 

Fonte:

1.     [...]

2.     Cf. Carta III, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 249-257.






Etiquetas