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2026/07/04

Antologia "Escrevo Camões para Camões" lançada durante espectáculo e gala de de Jantar na Fundação Oriente

 

 Escrevo Camões para Camões 

  LANÇAMENTO DA OBRA  


10 JUN. 2026 | 17h00 – 21h50
Na Fundação Oriente, em Lisboa

Reservas:
+351 968 184 894 (WhatsApp): Escritora Paula OZ I Edições Oz
Lotação limitada e sujeita aos lugares reservados.

PARTICIPAÇÃO PARA TODOS
GALA — 100 € (Inclui espectáculo e jantar)
GALA MECENAS — 120 €
Experiência completa (espectáculo + jantar + PODCAST)
Lugar reservado nas primeiras filas
Menção no programa oficial
Fotografia individual em destaque na revista CenasOz Magazine.

Fotografia: Antonio Alfredo | Hugo Ascenção
Filmagem: José António Esteves

Organização:

Voz - Cultura com vida
em parceria com a Fundação Oriente


 "CAMÕES À MESA DA PALAVRA" 

Espectáculo e Gala de Jantar

"No Dia de Camões, 
a VOZ – Cultura Com Vida e a Fundação Oriente 
convidam para uma noite onde literatura, música e teatro se encontram.
O programa inicia-se com espectáculo na Sala Beijing, 
seguido de cocktail dinatoire e jantar no Restaurante Panorâmico com vista para o Tejo,
reunindo convidados e autores numa noite de cultura, convívio 
e celebração da Língua Portuguesa."

Momento especial da noite
Apresentação da antologia

 Escrevo Camões para Camões 
Antologia pética
Lisboa: Edições Oz, 2026.

Edição limitada, exclusiva e numerada
com uma tiragem especial de 20 exemplares

Uma obra concebida como edição de coleccionador,
que reúne vinte vozes da poesia contemporânea
em homenagem ao poeta Luís de Camões.

Com assinatura e cunho especial 
do escritor Mia Couto e Paula OZ

e capa com a pintura de Camões 
de António Dias.



  PROGRAMA  

Na Sala Beijing
Espectáculo com teatro - Ator Miguel Rosendo Linares - e música
  O ator Miguel Linares como poeta Luís de Camões | © Imagem no Facebook do artista   
Entrega do Prémio Camões da Palavra 
pela Actriz e Escritora Sónia Balacó
Breve apresentação da antologia
“Escrevo Camões para Camões”
Momentos musicais inspirados na tradição portuguesa: 
Música Renascentista | Fado | Saxofone | Cânticos a Camões
Cocktail dinatoire seguido de jantar 
no Restaurante Panorâmico com vista para o Tejo
Photoshooting oficial do evento e cobertura da revista


para saber +


in e-CAM, 3.07.2026

Cristina Caeiro | Facebook, 15.03.2026

Edições Oz | Facebook









Redação: 4.07.2026

2026/06/09

Além-Mar, um soneto alusivo a Camões de Maria Teresa Leite Neves


   Pintura chinesa da exposição individual “Ilha dos Amores” de Leong Kit Man, jun. 2026.  
Mostra no Albergue da Santa Casa da Misericórdia, em Macau.


Além-Mar


Tão nosso este País que nem é grande
porém em todo o mundo e apenas num,
há uma bela História em que expande
glória escrita e não em mais nenhum;

ressalta o sabor a mar de vasto alcance
que de ilustrado foi em lira incomum,
nos Cantos em que a Tormenta abrange
recônditos lugares e mais algum,

vibrava o navegar-se até à India,
por arrojo além mais foi-se alcançar
a onda de rompante, e de razões,

Gama o navegador, mais fez ainda:
relembrar o Infante – ir pra além-mar
sublimes epopeias – Luís de Camões.


Teresa Leite Neves

Recebido da autora por email, 
5 jun. 2026


Maria Teresa Leite Neves
Poetisa, ficcionista e pintora
***
Também assina "Tereza Neves".
Nasceu em Lisboa, em 1932 (93 anos).
Trabalhou na Emissora Nacional (1947),
depois na Radiotelevisão Portuguesa (1956).

Publicou recentemente o romance
Um drama deslocado no tempo
(Carnaxide: Cordel d'Prata, 2025).



para saber +


Teresa Leite | Facebook

in e-CAM, 20.09.2025

in RTP Notícias, 15.06.2005




Redação: 8.06.2026

2026/02/27

Camões em Sophia de Mello Breyner Andresen




Navegámos para Oriente –
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo

 
Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Navegações. Lisboa: INCM, 1983
Reed. na Assírio & Alvim, 2015

Camões e a tença


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Dual. Lisboa: Moraes, 1972.
Reprod. em Obra Poética III
Lisboa: Caminho, 1991, p. 162.


Soneto à maneira de Camões


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que m'o dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Coral, 1950


Gruta de Camões

Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta
Cujo silêncio ainda escuta
Os teus gestos e os teus passos.

Aí, diante do mar como tu transbordante
De confissão e segredo,
Choraste a face pura
Das brancas amadas
Mortas tão cedo. 

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Dia do Mar, 1947
Reprod. em Obra Poética
Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 157


para saber +


André Vinagre

In Luís de Camões - Diretório de Camonística, 11.06. 2017


Virgínia Boechat
Aquele que recebeu em paga: 
acerca de um Camões no poema [“Camões e a tença”] de Sophia
in ABRIL – Revista do Núcleo de Estudos de 
Literatura Portuguesa e Africana da UFF, 
Vol. 3, n.° 4 (Abril  2010), 105- 





Redação: 27.02.2026

2026/02/25

A CAMÕES, de Soares de Passos

 

António Augusto Soares de Passos, 1826-1860


A CAMÕES

Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo - vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.

Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais os vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.

A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.

Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.

Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.

De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:

Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.

"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte
"Cantemos!" disse, e recordando glórias
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.

E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heroico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!

Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea....
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!

Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
'Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!'
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!

Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De misero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!

Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!

O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!

Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:

Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
'Pátria querida, morreremos juntos!'
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.

Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.

Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor.. porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?"

Soares de Passos
Poesias, 1856



Os infortúnios vividos por Camões

Soares de Passos [...] publicou, em 1856, o poema "A Camões", dedicado a recordar os principais feitos do poeta quinhentista, em uma síntese dos principais topois associados ao mito camoniano e desenvolvidos no poema épico de Almeida Garrett.

Estão presentes todos os infortúnios vividos por Luís de Camões, como a Má Fortuna assinalada desde o nascimento, as tristezas de amor, os tempos de exílio vividos no Oriente, os conflitos bélicos enfrentados pelo guerreiro, os cantos d'Os Lusíadas, as tristezas reservadas aos poetas, as errâncias solitárias por mares e terras, as reflexões sobre a ingratidão da pátria na Gruta de Macau, o retorno a Portugal, a falta de reconhecimento e auxílio por parte dos compatriotas, a amizade fiel do escravo Jau, a morte em situação de indigência, o local ignoto da sepultura e a valorização póstuma por parte dos portugueses".
Vicente Luis de Castro Pereira

para saber +


Vicente Luis de Castro Pereira
Tese de dout. - Orient. Annie Gisele Fernandes
São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP



Redação: 25.02.2026

2026/02/20

Camões nos versos de J. J. Monteiro


   O poeta J. J. Monteiro no Jardim Luís de Camões   
Foto em Macau vista por dentro, 2020, p. 442

   Desta gruta, que escutou o vate   
     que aqui cantou        
   a  Pátria, o Amor, a Saudade!   

J. J. Monteiro, 1913-1988
poeta português radicado em Macau

Poemas extraídos da sua obra
Macau Vista por Dentro


A venerável gruta do famoso vate
MARAVILHAS DE MACAU

Tens sempre a porta aberta, entra ó peregrino,
Pão, abrigo e carinho, acharás, afinal,
Neste luso cantinho, aqui tão pequenino.
Sim, china, amigo nosso, entra, não tenhas medo
E abraça o português, que só o mal combate;
Respeita esta cidade e admira aquel' rochedo,
A venerável gruta onde o famoso vate,
Luís Vaz de Camões, cantou, com voz maviosa,
O seu amor à Pátria e mais as suas tristezas!

J. J. Monteiro

"Macau vista de fora"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 76


Camões na História de Macau
OITAVAS

Factos mais importantes da História
Desta linda terra Macau, nobre e legal,
Quisera eu narrar, sem ter a glória
De a mim me acompanhar a musa ideal,
Que acompanhou Camões de alta memória,
Ao escrever no seu Livro Imortal
Os feitos duma gente resoluta,
Como Macau o ouviu naquela gruta!

É certo que o silêncio do Poeta
Não fala de Macau, nem nada diz
De ser a sua estada aqui concreta,
Talvez por se julgar muito infeliz
Com a morte da sua tão dileta
Natércia que, também sem ser feliz,
Morreu pensando nele e ele nela.
Aqui naquela gruta, longe dela.

Diz-me, ó gruta, se igual ao teu negror,
Não eram dele as queixas mil que ouviste?
E se não foi também com pranto e dor
Que a sua musa, então falando triste,
Assim disse, inspirando o bom Cantor:
– Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente!…

Gruta benigna*, sábia testemunha,       [* Expressões de Garrett em Camões 1824, 
seu amor à Pátria e mais também             Canto V, est. VI].
Dos lânguidos suspiros* que lhe punha
Sua alma saudosa, vendo além
Tão distante de si com quem mais supunha
Amá-lo, porque amou muito e bem,
Como esta mesma gruta lhe escutou
As queixas namoradas* que soltou.

Hoje, linda Macau, franca Cidade,
Orgulhosa se sente em ali ter
Um recanto de amor e de saudade,
Cheio de fresquidão, calma e prazer,
E o busto de Camões; olhando-o há-de
Muito brio ter a gente em pertencer
À mesma Pátria que o Poeta amou,
E que em seus versos tanto sublimou!

Pátria que todos nós aqui, do fundo
Do coração, amamos, vendo nela
A Mãe que mais heróis tem dado ao mundo
E outros varões ilustres, dignos dela;
Portanto, igual amor e brio profundo
Sentem nesta minúscula parcela,
Nós outros portugueses, por bem sermos
Da Pátria de Camões e por o lermos.

J. J. Monteiro

"Macau e a sua História"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 57-59


Camões na cidade de Macau
QUADRO DE MAGIA

Para além dos dois portões, 
Está o Jardim de Camões 
E ainda o novo museu 
Que tem por recheio seu 
A alindar as galerias 
Valiosas velharias
E muito antigo troféu.

Novo Museu de Camões
E, à volta, as habitações
Dos guardas e jardineiros, 
Tanques, estufas, viveiros, 
Árvores, sombra, frescura, 
Lindos tufos de verdura.
Alegretes e canteiros.

Por entre o denso arvoredo
Vê-se um ou outro penedo,
Junto à gruta de Camões 
Mirantes, caramanchões, 
Belos e umbrosos caminhos
E, sobre os ramais vizinhos,
Das aves suas canções.

Frescas ruas em declive,
Assim nos trouxe onde vive
A doce tranquilidade
Que oferece a soledade
Desta gruta, que escutou
O vate que aqui cantou
A Pátria, o Amor, a Saudade!

Longe da Pátria, exilado,
E de peito às musas dado
Num haurir de inspirações, 
Aqui, Luís de Camões,
Grande Adamastor da ideia,
Começou sua epopeia
Que é o assombro das Nações.

Poema que, à luz dos sóis,
Canta a Pátria dos heróis
E os esforços mais que humanos
Dos ousados lusitanos,
Mais fortes em valor fero
Que os priscos heróis de Homero,
Por seus feitos soberanos.

Gruta benigna que ouviste
De Camões a lira triste,
Nas suas amarguradas 
Penas, muitas espalhadas
Pelos teus verdes recantos, 
Os seus suspiros e cantos,
Suas queixas namoradas!

Lusíadas!… Pátrio tesouro,
Onde há só páginas d’ouro
A engrandecer Portugal!
Poema, Livro Imortal,
Que todos devemos ler
Como um sagrado dever
Do nosso Amor Nacional.

Gruta saudosa e querida
Que a grata e encarecida
Natureza caprichou;
Aqui como a edificou
Guarda ela, orgulhosa, o busto,
Do nosso Épico augusto
Que à sombra sua cantou.

De ano a ano sem faltar, 
A juventude escolar
Mais toda a gente em geral, 
Ante o busto do imortal
Poeta, numa romagem,
Prestam a sua homenagem
No dia de Portugal.

Pelas paredes da gruta
E ali noutra rocha abrupta, 
Lê o viajante que passa
Versos
duma essência e graça
Doutros bardos, com amor, 
Consagrados ao cantor 
Que decanta a lusa raça.

E quem passa, com certeza, 
Sente um cunho de tristeza 
E a sua alma aqui se inflama, 
Lendo os cantos de alta fama
Gravados neste rochedo, 
De Almeida Garret, Quevedo, 
De Tasso a Vasco da Gama.

Fica-te, gruta saudosa,
Entre a flora alta e viçosa
Deste jardim tão formoso, 
Recanto maravilhoso
De onde nos vamos com custo, 
Curvados, saudando o busto 
Do poeta harmonioso.

Olhem ainda a gentinha
Que goza a fresca sombrinha
Junto à gruta de Camões, 
Onde há belos pavilhões, 
Mirantes, bancos e mesas, 
Várias figuras chinesas, 
Bichos, bonecos, dragões!


E aqui mesmo à nossa roda
Encontra-se Macau toda
Cercada de tanta ilha;
Ao ver tanta maravilha, 
Tanto encanto e poesia, 
Este quadro de magia, 
Como a nossa alma se humilha!

Quão doce é viver assim, 
Sob as frondes dum jardim 
Como este, onde se aninha
E canta a inocentinha
Ave, sacudindo as penas 
E onde se vêem centenas 
De pessoas à sombrinha.

Ruas com vasos e flores
E frescos nos seus verdores
«Ficus», acácias, pinheiros, 
Palmeiras, caramboleiros, 
E pelas rochas sombrias
Trepa a hera e os «bons-dias»
E alastram-se os espinheiros.

«Árvores de São José», 
«Do pagode» e a flor de ipé, 
Lírios, cravos, açucenas, 
Goivos, rosas e verbenas
Dão-nos sombrinha e perfumes;
E ouvem-se os doces queixumes 
Das aves de lindas penas.

Encantos deste jardim
Que vamos deixar por fim, 


J. J. Monteiro

"Macau vista por dentro"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, 135-7



O Jardim de Camões hoje
O MESMO JARDIM DE ANTES 

(1960? - 1983)
E daqui passo eu agora
Para o jardim de Camões...

À entrada, vasos com flores, 
Do Épico o busto, ao centro 
Da Gruta, que se viu cá 
Há «Vinte e mais Anos» já,        [Anos 60. Macau vista por dentro é escrito nesta década, 
Em que levei os leitores             embora venha a ser publicado apenas em 1983,
A ver Macau cá por dentro...      na obra homónima que também integra outros livros de poesia]

O mesmo jardim de antes
Cheio de encanto e verdura, 
De sombrosos arvoredos, 
Miradoiros e rochedos, 
Alamedas verdejantes
Onde há paz, calma e frescura.

Prover vão este jardim
(Brevemente e sem deslize, 
Como se pensa e é lógico) 
De um bom Jardim Zoológico
E oxalá que seja, sim, 
Um sonho que se realize...

De tão boas esperanças
Bem vivem presentemente
(P'ra poderem ver um dia 
A fauna mansa ou bravia)
As simpáticas crianças, 
Novos, velhos, toda a gente...

Se sonhos são ilusões, 
Que este não seja; e, dest'arte, 
Sem mudarmos de lugar, 
Vamos também visitar 
O amplo Museu de Camões 
Que deste jardim faz parte...

Vejamos, como os turistas, 
Artefactos sepulcrais, 
Valiosas antiguidades, 
Raras preciosidades,
Peças de arte nunca vistas
E outras muitas coisas mais.


J. J. Monteiro

"Macau ontem e hoje (1960 - 1984)"
in Macau vista por dentro
2.ª ed., Macau: IIM, 2020, p. 443.




para saber +


António Aresta
in: Jornal Tribuna de Macau, 14.05.2025

Jorge A. H. Rangel
in: Jornal Tribuna de Macau, 24.06. 2024

António Aresta
“José Joaquim Monteiro, um homem de valor”
in: Jornal Tribuna de Macau, 07.06.2024

Jorge A. H. Rangel

António Aresta
“J.J. Monteiro”
in: Jornal Tribuna de Macau, 10.03.2011







Redação: 20.02.2026

2026/02/18

António Manuel Couto Viana como Camões


Camões em Macau

 “The grotto of Camoens, Macao" 
Desenhado por Thomas Allon | Gravado por S. Bradshaw,
para The Chinese Empire illustrated, 1858, de Thomas Allon 


Camões


Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
— Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"













1923 - 2010
Encenador, tradutor, poeta, 
dramaturgo e ensaísta português.

In: Até ao longínquo China navegou
     Macau: Instituto Cultural de Macau, 1991.
     Col. Poetas de Macau, 4
     Prémio Camilo Pessanha, IPOR 1992.





* Viveu dois anos em Macau, entre 1986 e 1988, 

   onde foi docente do Instituto Cultural.




para saber +


No programa "O que é feito de si?"
da RTP 2, 11.06.1992






Redação: 17.02.2026

2026/02/17

Poema a Jau por António Manuel Couto Viana

 

Um poema para Jau

  “Camões na Gruta de Macau”, 1900  
Ilustração de Roque Gameiro & Manuel Macedo
e fotogravura de P. Marinho. 
In: Os Lusíadas / LUiz de camões, "Grande Edição ilustrada",
revista e prefaciada por Sousa Viterbo.
Lisboa: Empreza da História de Portugal Sociedade Editora,1900.


A Jau

Sou a tua presença, aos pés, calada, quieta,
Ó jau, com quem me identifico tanto,
Nesta gruta onde estou e escuto o canto
Das cigarras que é, hoje, a voz do teu poeta.
António sou (tenho o teu nome)
E escravo, também, da poesia.
Para ela é que estendo, em cada dia,
A mão à minha fome.

















Poema datado de 10 jun. 1986
In: Suplemento da Revista Latina, 
Macau, maio de 1991, p. 59


* Viveu dois anos em Macau, entre 1986 e 1988, 

   onde foi docente do Instituto Cultural.




para saber +


No programa "O que é feito de si?"
da RTP 2, 11.06.1992






Redação: 17.02.2026

2025/11/08

Apresentação do livro “Flores para Camões” de Cristino Cortes



      ESCRITA COM(N) VIDA    

  “Flores para Camões: poemas”  

  APRESENTAÇÃO DO LIVRO  

com a presença do autor, Cristino Cortes
e a apresentação do livro por Thierry dos Santos


8 NOV. 2025, sábado | às 16h00

na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda
 
Entrada livre

Organização:



"Integrando-se nas comemorações do 
V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, 
este livro de Cristino Cortes junta poemas evocativos 
e, a esse título, algo circunstanciais, 
com algumas observações sobre a vida e a obra do insigne Poeta. 
Termina com algumas composições sobre 
o mistério e o mester da poesia."



Fotografia na bio do autor na Wook
n. Fiães, Trancoso, em 1953.

Poeta, contista e cronista
com vasta colaboração em jornais e revistas.
Licenciado em Economia,
 trabalhou no Ministério da Cultura
e vive em Lisboa desde 1971. 

Destacamos a obra

Flores para Camões / Cristino Cortes

1.ª ed., Lisboa: Calçada das Letras, maio de 2025.

Embora o livro esteva subintitulado "poemas",
vai para além desse género, da mera reunião de poemas.
De facto, apresenta dois conjuntos de textos poéticos:
14 poemas inspirados na obra de  Camões (10 inéditos e 4 de livros anteriores),
 com o nome "Ecos camonianos" (p. 12-30)
e "13 poemas teórico-musicais" (p. 73-89), 
que glosam "a temática da própria poesias.

Todavia, e para alguns leitores esse será o maior interesse 
deste volume de 96 páginas, a obra apresenta 
um "pequeno ensaio" que, embora, nas modestas palavras do autor,
não obedeça "a requisitos académicos" nem tenha "propositadamente, 
o aparato tradicional desses estudos",
proporciona "algumas observações" deveras pertinentes sobre:
"contexto" (p. 33-35), a "biografia" (36-53), a "obra" (54-68) 
e as "conclusões, sempre provisórias" (69-71).





para saber +





Associado Cristino Cortes Convida
in Associação Portuguesa de Escritores | Facebook, 9.06.2025







Redação: 7.11.2025

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