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2026/02/18

Estátua de Camões em Goa por Martins Correia


                                        Estátua de Camões em Velha Goa , 1961                                      
"Portugal - Goa: estátua de Camões em Velha Goa / Emissora de Goa. 
1 postal : color. ; 10,5x15 cm
Goa : Emissora de Goa, [D.L. 1961] (Porto: Lito Of. Artistas Reunidos).
Existe um exemplar na BNP em Lisboa, com variantes de tom.

 ESTÁTUA DE LUÍS DE CAMÕES 

  O Poeta Nacional Português  

Escultura, em bronze, c.4 metros de altura | 1958

da autoria do escultor Martins Correia


Atualmente, na Galeria n.º 1 
Exposta originalmente no largo da igreja de S. Francisco de Assis, na Velha Goa.



MASTER SCULPTOR MARTINS CORREIA  Vídeo, 11.33
por František Jakub
Com a colaboração de Henrique Velez e Elsa Martins Correia
Music & Piano port Farshad Sanace
SolitArtGallery apresenta Slovak Art Film, 2014

Estátua de Camões em Goa. Autor MARTINS CORREIA

Gen.Vassalo e Silva em Goa, 1980.



"No dia 10 de junho de 1960, na ampla praça central de Velha Goa, o Governador Vassalo e Silva inaugurou uma estátua de Luís de Camões, que foi custeada através de uma subscrição pública por iniciativa do jornal Diário Popular, datada de 1956 e da autoria do escultor Martins Correia. 

Nesse dia, o jornal O Heraldo incluía um editorial intitulado “O Dia da Raça” e ilustrava-o com uma fotografia da estátua e, no dia 12, noticiava que as comemorações do Dia de Portugal no Estado da Índia “tiveram um brilho extraordinário nesta terra”. 

No dia 14 o mesmo jornal ainda voltava a referir “a brilhante e significativa cerimónia”, salientando que a estátua “se encontrava rodeada por centenas de filiados da M.P.” e reproduzia o discurso proferido na ocasião pelo major Ramos de Freitas, sub-chefe do Estado-Maior. 

A nova e imponente estátua de Camões “sobreviveu” aos acontecimentos de 1961 que levaram à queda da Índia Portuguesa e, em Junho de 1980, durante uma visita privada que o general Vassalo e Silva fez a Goa, ainda foi fotografado junto dela. 

Porém, em 1982 a estátua foi danificada por um engenho explosivo colocado por alguns “Freedom Fighters”, com o argumento de que Camões era o poeta dos colonizadores. A estátua foi imediatamente reparada e passou a ser guardada de noite pela Polícia, mas porque era demasiado oneroso manter aquele dispositivo de segurança, o policiamento cessou pouco tempo depois. Em 1983 a estátua voltou a ser atacada e danificada pelos mesmos activistas. 

Então, as autoridades decidiram retirá-la daquele local privilegiado e colocaram-na no interior do Archaeological Museum & Portrait Gallery, que ocupa um edifício conventual anexo à Igreja de S. Francisco de Assis, a pouca distância do local onde a estátua foi inicialmente colocada. 

Este museu aloja a famosa Galeria dos Vice-Reis e nele se encontra, também, a estátua de Afonso de Albuquerque que, até 1961, esteve na rotunda de Miramar, em Pangim."

Fonte: Escultor Martins Correia | Facebook., 11.07.2013


Martins Correia 
n. Golegã, 7.02.1910 - m. 30.07.1999
Artista plástico português, modernista
Escultor e Pintor

Orfão desde cedo, ingressou na Casa Pia, 
em novembro de 1922, onde concluiu o curso industrial.
Frequentou a Escola de Belas Artes de Lisboa, 
onde se diplomou em escultura.

 Foi professor do Ensino Técnico Profissional, 
nas Caldas da Rainha e em Lisboa.

Começou a expor no ano de 1938 e em 1940
já participou na Exposição do Mundo Português, em Lisboa. 
Ao longo da sua carreira artística acumulará muitos prémios e condecorações. 
Em 1951, tornou-se Presidente da Secção de Cultura Artística 
da Sociedade de Geografia de Lisboa. 

"A sua estatuária é composta de originais soluções decorativas policromáticas 
que aligeiram as suas figuras do solene compromisso oficial, sobretudo a partir de 1968 
com a utilização de intensos vermelhos, ocres, pretos, verdes, brancos, azuis e amarelos,
pintados nos materiais escultóricos."

Várias das obras mais representativas de Martins Correia
estão expostas em espaço público, acessíveis a todos os cidadãos. 
O seu nome foi dado à Escola E.B. 2,3 e Secundário do Concelho da Golegã. 

Em Lisboa, destacamos a estátua de granito rosa 
representando Fernão Lopes patente na BNP, 
e a decoração artística da estação do Metropolitano de Picoas 
e do átrio da Torre Vasco da Gama, no Parque das Nações. 

Trabalhou muitos anos num atelier da Câmara Municipal de Lisboa, 
tendo realizado alguns trabalhos para jardins e edifícios municipais, 
como a estátua em pedra de Bartolomeu de Gusmão.
Foi membro do Conselho de Arte e Arqueologia da C.M.L. 

O Mestre perpetuou a sua obra fora de Portugal.
Em Goa, fez em gesso a estátua de S. Francisco Xavier 
por ocasião do centenário do santo. Em 1958, executou a estátua em bronze 
de Luís de Camões, a qual lhe valeu o Prémio Diário de Noticias.

Em 1973, decorreu uma exposição retrospectiva 
da sua obra, na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde foram apresentadas 
"300 obras de escultura, desenho, medalhística e desenho colorido, 
versando sobre o período de 1939 a 1973."

Colaborou com 26 desenhos coloridos
para a antologia poética Mulher 
organizada por Natália Correia  (Lisboa: Estúdios Cor, 1973).

Em novembro de 1982, foi homenageado na Golegã com a inauguração 
da sua estátua “A Camponesa” e a abertura do Museu Municipal Martins Correia

"Temas como o cavalo, o touro, a terra e a mulher, 
são representativos nas suas obras, evidenciando a ligação profunda 
de Martins Correia às suas raízes goleganenses, ribatejanas e portuguesas. 
Está representado no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, 
no Museu Soares dos Reis, na Invicta, no Museu Regional de José Malhoa, 
no Museu de Arte Moderna de Madrid e claro, no Museu Martins Correia."

"O Mestre Escultor Martins Correia deixa uma obra 
que marca várias décadas da escultura, que o torna 
um dos maiores escultores portugueses do século passado."
Fonte: 



"A arte do século XX será […] idealista e poética ao mesmo tempo que popular"
e "nenhuma coisa pode ser nacional, senão é popular". 
Martins Correia

"Um escultor com o condão da poesia”

 ÁLBUM 


Atualmente a estátua de Camões concebida pelo mestre Martins Correia
está exposta "no interior do Archaeological Museum & Portrait Gallery
que ocupa um edifício conventual anexo à Igreja de S. Francisco de Assis, 
a pouca distância do local onde a estátua foi inicialmente colocada."


Imagem na Wikipédia

Estátua de Luís de Camões, no
Fotos divulgadas em Escultor Martins Correia | Facebook, jul.-ago. 2013


Originalmente, desde 10 de junho de 1960, data em que 
a estátua de Luís de Camões foi inaugurada pelo Governador Vassalo e Silva, 
a obra artística camoniana encontrava-se exposta nobremente
no centro da Praça de São Francisco Xavier, em Goa.


  Estátua de Camões no centro da Praça de São Francisco Xavier, em Goa 
in Mahendra Tamba | Facebook, 4.09.2017

 "Estátua de Luís de Camões e o Mosteiro de São Francisco de Assis", 1962  
Fotografia - por Francis Millet Rogers. 
Fundo "Francis Millet Rogers 1962", 
na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 
  "Velhos amigos numa foto antiga tirada em Goa Velha". 
Fotografia, preto & branco
Divulgada em: Joel's Goa Pics, no Flickr.

  A estátua de Camões, em 1956?  
pela equipa do Serviço Arqueológico da Índia.
 in Mahendra Tamba | Facebook, 22.08.2018
 
  A estátua de Camões em Goa   
in Mahendra Tamba | Facebook, 13.04.2018


para saber +


Estátua de Camões em Goa. Autor MARTINS CORREIA

Gen.Vassalo e Silva em Goa, 1980.



"No dia 10 de junho de 1960, na ampla praça central de Velha Goa, o Governador Vassalo e Silva inaugurou uma estátua de Luís de Camões, que foi custeada através de uma subscrição pública por iniciativa do jornal Diário Popular, datada de 1956 e da autoria do escultor Martins Correia. 

Nesse dia, o jornal O Heraldo incluía um editorial intitulado “O Dia da Raça” e ilustrava-o com uma fotografia da estátua e, no dia 12, noticiava que as comemorações do Dia de Portugal no Estado da Índia “tiveram um brilho extraordinário nesta terra”. 

No dia 14 o mesmo jornal ainda voltava a referir “a brilhante e significativa cerimónia”, salientando que a estátua “se encontrava rodeada por centenas de filiados da M.P.” e reproduzia o discurso proferido na ocasião pelo major Ramos de Freitas, sub-chefe do Estado-Maior. 

A nova e imponente estátua de Camões “sobreviveu” aos acontecimentos de 1961 que levaram à queda da Índia Portuguesa e, em Junho de 1980, durante uma visita privada que o general Vassalo e Silva fez a Goa, ainda foi fotografado junto dela. 

Porém, em 1982 a estátua foi danificada por um engenho explosivo colocado por alguns “Freedom Fighters”, com o argumento de que Camões era o poeta dos colonizadores. A estátua foi imediatamente reparada e passou a ser guardada de noite pela Polícia, mas porque era demasiado oneroso manter aquele dispositivo de segurança, o policiamento cessou pouco tempo depois. Em 1983 a estátua voltou a ser atacada e danificada pelos mesmos activistas. 

Então, as autoridades decidiram retirá-la daquele local privilegiado e colocaram-na no interior do Archaeological Museum & Portrait Gallery, que ocupa um edifício conventual anexo à Igreja de S. Francisco de Assis, a pouca distância do local onde a estátua foi inicialmente colocada. 

Este museu aloja a famosa Galeria dos Vice-Reis e nele se encontra, também, a estátua de Afonso de Albuquerque que, até 1961, esteve na rotunda de Miramar, em Pangim."

Fonte: Escultor Martins Correia | Facebook., 11.07.2013










Redação: 18.02.2026

2026/02/07

Camões sobrevive às águas do rio Zêzere em Constância

Ao Mestre Marcos Muge


  Monumento a Camões em Constância  
Obra em bronze, da autoria de Lagoa Henriques
inaugurada pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, em 1982.
Imagem no Facebook do Município de Constância
11 jan. 2026


FEV. 2026 | Em Constância

O rio Zêzere galgou as margens em Constância, 
e chegou à estátua de Camões.
Mas, como disse a escritora Isabel Rio Novo,
com ele não nos preocupamos
 pois "há de sobreviver a todos os naufrágios."


       FOTOGRAFIAS       
   "de uma calamidade que nos afunda"   
(Expressão de Edite Estrela)


© Fotografia por Paulo Renato | Facebook, 8.02.2026

© Imagem de Luísa Silva, de Constância, amiga de Isabel Rio Novo
"Com ele não me preocupo, há de sobreviver a todos os naufrágios.
Um abraço para todos quantos estão a sofrer com os efeitos das intempéries."
Isabel Rio Novo
in Facebook, 7.02.2026

© Fotografia por Paulo Leite | Facebook, 7.02.2026

© Fotografias de Ilda Pratas | Facebook, 7.02.2026


  QUADRAS AO GOSTO POPULAR  
     em época de inundações    


Francisco Gavancho (n. 1965, no Alentejo), cidadão do Entroncamento,
 e ativo nas redes sociais, compôs uma quadra jocosa a partir da situação:

O Zêzere molha-me os tomates
No seu caminho para o Tejo
Há horas que não os sinto
Há horas que não os vejo

in Facebook, 7.02.2026

E houve quem comentasse, 
em prosa e também em verso:


Em Constância do Ribatejo
Terra de Luís Vaz de Camões
O rio Zêzere subiu tanto
Que até lhe molhou os calções.
João Inglês Ferreira
in Facebook, 7.02.2026


A água fria já chegou há um bocado
Não tenho tanta sorte como tu
Mólha-me os pés, as pernas e o cú,
Mas eu continuo aqui sentado.
Luis Estrela Paixão
in Facebook, 7.02.2026


Ó água que vens tão brava
Lá dessas terras de além
Vai lá dizer a S. Pedro
Que mande mil notas de cem.
Manuel Lopes
in Facebook, 7.02.2026


O Zêzere caminha para o Tejo,
Galga muros o portões...
Já não posso estar sentado,
Pois molha-me os tintins.
Jcm Maia
in Facebook, 7.02.2026


"Sôbolos rios que vão / [...] Onde sentado chorei..."
Fernando Batista
in Facebook, 7.02.2026




para saber +


Jardim-Horto de Camões, Constância







Redação: 9.02.2026

2021/07/12

A estátua de Camões na websérie "Lembra-te, Angola" de Alberto Oliveira Pinto


"As estátuas coloniais de Luanda"

EPISÓDIO NO CANAL DO YOUTUBE

de
Alberto Oliveira Pinto

12 JUL. 2021, segunda-feira

25.º episódio da websérie "Lembra-te, Angola"



"Em 2006, escrevi um ensaio sobre as estátuas coloniais de Luanda armazenadas na Fortaleza de São Miguel e que incluí no meu livro Angola e as Retóricas Coloniais (2012). 
Porém, a segunda década do século XXI [...] introduziria uma alteração no acervo estatuário da Fortaleza de São Miguel: é que já nem todas as estátuas que lá se encontram são "coloniais", porquanto a da rainha Njinga Mbandi, bem pós-colonial e removida do Kinaxixi por um capitalismo que desdenha a memória e o património, também lá está agora, convivendo com os governadores de Angola e com as figuras que, não sendo angolanas nem tendo nunca passado por Angola, representavam involuntáriamente o chamado "Império Português", como Camões ou Vasco da Gama."
Alberto Oliveira Pinto | Facebook, 30.05.2021

"Este vídeo inclui fotografias, respetivamente, sobre as estátuas durante as obras de Fortaleza de São Miguel em 2011 e da "Maria da Fonte" coberta de um plástico vermelho em 1975, que devo à amabilidade dos meus amigos Fernando Paiva e Fernando Pereira. 
Inclui igualmente uma foto de um muxiluanda a ximbicar o seu dongo, tirada pelo meu pai nos anos de 1960, assim como uma foto tirada pelo meu filho João Alberto em 1997, ao tempo com quatro anos de idade, aos pais e à irmã, Joana Ramiro, na Marginal de Luanda e defronte da escultura de António Ole que se encontra em cima do antigo pedestal da estátua de Vasco da Gama. 
Inclui, por fim, uma homenagem ao meu amigo Onofre Santos e ao seu livro Descompasso: Angola 1962, cuja introdução, referente às estátuas da Fortaleza de São Miguel, teve a amabilidade de publicar na página do Curso Livre História de Angola."
Alberto Oliveira Pinto | Facebook, 12.07.2021

"A noite das estátuas"

de Onofre Santos
Trata-se de um diálogo entre as estátuas da Fortaleza de São Miguel, em Luanda, 
publicado em 2016 como prólogo do romance Descompasso: Angola 1962 de Onofre Santos, 
e reproduzido no portal Buala editado e ilustrado com fotos por Marta Lança.





Estátua de Camões, na cidade de Luanda, em 1973
No Pinterest de "Maria L Gingeira"




Alberto Oliveira Pinto
Em 2006, escreveu um ensaio sobre 
as estátuas coloniais de Luanda armazenadas na Fortaleza de São Miguel,
texto que incluiu no livro Angola e as Retóricas Coloniais"(2012). 



Desocultar os fantasmas coloniais

PREFÁCIO

por Ana Mafalda Leite

"O livro Angola e as retóricas coloniais [2012] de Alberto Oliveira Pinto é uma obra de imprescindível leitura para investigadores, académicos ou ainda para todos os leitores que se sentem atraídos por conhecer mais acerca do percurso colonial português em Angola, agora redescoberto em páginas literárias e figurações culturais múltiplas. Significa que a valência desta obra é simultaneamente passível de atingir um grande público, o leitor mais comum, apaixonado ou curioso, ou um outro tipo de leitor, mais especializado, o professor, o aluno, o pesquisador.

Isto porque a singularidade da escrita desta obra alia o encanto, a maturidade e a prática de um escritor prestigiado, que Alberto Oliveira Pinto é, ao conhecimento e aturada pesquisa do historiador de África, que se foi fazendo na última década e meia, o que nos deixa perante uma obra muito desafiante e muito sedutora.

Este conjunto de ensaios reúne uma revisão de obras de Júlio Verne, ou de Emílio Salgari, ou ainda da banda desenhada de Tintim, ou por outro lado, releituras do romance colonial, fazendo-nos repensar na ideologia que se constrói retoricamente naquelas ficções e na forma como o atual romance pós-colonial é propiciador desse processo de desocultação. São recuperadas geografias de Angola, cenários, personagens e lugares, que tipificam estereótipos diversos sobre a figura do africano, e da forma como foram sendo construídos, ao longo de vários séculos de dominação colonial do ocidente, em obras dispares e muito distintas. Mas um mesmo elo as une, são similares os processos retóricos para as representações racializadas e desumanas do escravo, do indígena, do assimilado, recorrendo-se a um arsenal metafórico que passa pela animalização, coisificação, infantilização, lubricidade e tantas outras figurações retóricas, disfarçadas na época colonial sob o manto diáfano da fantasia romanesca, que Alberto Oliveira Pinto, o autor deste livro, vai lenta e criticamente desvelando e colocando à nossa reapreciação.

A indagação dos imaginários coloniais vai mais longe ainda, além da literatura, configurada em diferentes géneros, percorre as pequenas vilas do interior, as geografias urbanas das cidades coloniais, mostrando os enredos criadores da estatuária colonial e suas significações, a par do jogo de certas biografias coloniais, esquecidas e ou recuperadas ideologicamente, num palimpsesto de obtusas significações. Os vários ensaios que arquitectam a segunda parte do volume Angola e as retóricas coloniais são sabiamente concatenados num cruzamento de leituras, que se entrelaçam e complementam nas várias secções da obra, mostrando como a colonialidade, e suas formas retóricas de persuasão, se manifestam em todas as áreas culturais, da arquitectura à estatuária, do ambaquismo ao romance colonial, da banda desenhada ao romance de aventuras.

O autor vai desenvolvendo paulatinamente a sua trama, de ensaio a ensaio, desconstruindo cenários, épocas, obras literárias, num percurso de indagação sobre o modus faciendi, a utensilagem retórica e poética configuradora dos imaginários da colonialidade, suas figuras (des)humanas e variantes, salientando os obscuros ideologemas entretecidos na prática cultural, num processo de demonstração, fundamentado e rigorosamente alicerçado em diversificada e adequada bibliografia.

Na terceira parte deste volume, ensaios como "A Génese da literatura colonial portuguesa", além de nos darem um percurso cronológico preciso e analisarem algumas das obras mais relevantes produzidas neste contexto, permitem ao leitor compreender a diferença entre o exotismo oitocentista e a literatura colonial propriamente dita, e balizar a forma como se processou a criação de um género narrativo, eminentemente ideológico, e de que modo os Concursos de Literatura Colonial impulsionaram o seu desenvolvimento. Encontramos aqui elementos preciosos para investigações futuras e novas pesquisas, dissertações, ensaios, que permitam colmatar uma área, ainda em desenvolvimento, como é a área de Estudos Coloniais, nomeadamente a de Literatura, e outras práticas culturais, Colonial, que este volume de Alberto Oliveira Pinto vem em tão boa-hora resgatar.

A última parte do volume inclui vários estudos sobre a literatura colonial angolana, passando pela análise de A Velha Magra de Luanda de Emílio de San Bruno, ou a obra Em Terra de Pretos de Henrique Galvão, assim como desenvolve a questão do tratamento da mulher e do feminino nos livros de Luís Figueira e de Ferreira da Costa. Este último conjunto de ensaios conclui com um estudo sobre o romance Uanga "Feitiço" Romance Folclórico Angolano (1935) de Óscar Ribas, enquanto apropriação do discurso colonial português por um autor angolano, conducente a uma afirmação da angolanidade através da escrita.

Naturalmente que na sequência deste tipo de análises e de estudos se interrogam também algumas das mais interessantes provocações e se abrem áreas de reflexão para o estudioso da literatura colonial: ver como a escrita e ideologia coloniais, de certo modo, vieram trazer os elementos necessários e as sementes para o nascimento, fortalecimento e constituição do romance africano, neste caso, angolano.

Acompanhado de uma excelente iconografia comentada e de uma bibliografia ensaio a ensaio, este livro de Alberto Oliveira Pinto vem trazer-nos a novidade de uma escrita de cunho romanesco/ensaístico, simultaneamente reflexiva, muito culta, pormenorizada até aos mínimos detalhes nas suas referências históricas, indagante e muitíssimo inteligente, sobre as múltiplas teias que o Império teceu nas suas diversas práticas culturais.

Estou certa de que esta obra se vai tornar um elemento bibliográfico de referência, imprescindível e fundamental, para a área de Estudos Coloniais, bem como outras que, certamente na esteira desta, este original ensaísta/ historiador/ narrador virá a produzir no futuro.

Deixo ao leitor a tarefa de poder ter o prazer de ler as páginas que se seguem, e também o de se sentir instigado por uma escrita, que desoculta do passado os fantasmas coloniais, muitos deles ainda fragmentados e inconscientemente presentes nas práticas culturais do presente."

por Ana Mafalda Leite
Professora do Dep. de Literaturas Românicas, FLUL
Investigadora do CEsA, do ISEG / UL


"Um questionamento sobre o facto colonial"

Angola e as retóricas coloniais reúne parte das intervenções – ensaios, comunicações, artigos, conferências - que o autor realizou durante cerca de uma década e que vieram a preparar a sua tese de Doutoramento em História de África, Representações [literárias] coloniais de Angola e dos angolanos e suas culturas (1924-1939), defendida na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2010 e publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2012.

Embora todos os estudos aqui seleccionados visem teorizar sobre as as representações do "Outro" na retórica preferencialmente literária, legitimadora do facto colonial, nem todas têm por objecto a análise do facto de obras literárias, além de não se restringirem, nem a autores coloniais portugueses, nem ao caso angolano.

Analisam-se inicialmente duas obras de ficção da literatura europeia do século XIX, uma de Júlio Verne, outra de Emílio Salgari, versando sobre Angola, além de duas obras de banda desenhada do século XX, uma de Hergé, outra de de Jacques Martin, tendo esta última como pano de fundo o que poderiam ter sido Angola e Congo na antiguidade clássica. Reflete-se também sobre os motivos pelos quais poder colonial erigiu em Luanda , no século XIX estátuas de Pedro Alexandrino da Cunha e de Salvador Correia de Sá, além de se proceder a uma abordagem geral sobre a instituição do Concurso de Literatura Colonial da Agência Geral das Colônias em 1926, ou seja de como emergiu efectivamente a literatura colonial portuguesa. Confrontam-se por fim obras de literatura colonial portuguesa com obras literárias angolanas emergentes da oralidade, nomeadamente as obras de Oscar Ribas.

Inserindo-se no campo teórico da história cultural ou dos imaginários – encarando a cultura como um conjunto significados e símbolos construídos pelos homens para explicar o mundo, que pressupõe sempre um posicionamento inevitavelmente valorativo, Alberto Oliveira Pinto, propõe ao leitor um questionamento sobre o facto colonial, encarado não da perspectiva da memória e da história, mas também das realidades contemporâneas que se convencionaram designar por “pos-coloniais”, ou mais concretamente, por neo-coloniais.”

In: badana direita do livro




Escritor, historiador, ensaísta, youtuber.
 Nasceu em Luanda, a 8 jan. 1962. 
É doutorado em História de África pela Faculdade de Letras da U. Lisboa, 
tendo lecionado em várias universidades portuguesas. 
do Instituto Superior de Economia e Gestão.

Como ficcionista publicou, entre outros títulos: 
Eu à Sombra da Figueira da índia (1990), Concerto na Nespereira (1991), 
O Saco dos livros (1991), O Senhor de Mompenedo (1992), 
O Onagro de Sintra (1994), A Sorte e a Desdita de José Policarpo (1995). 
Mazanga (1998) e Travessa do Rosário (2001). 

No ensaio é autor de
A oralidade no romance histórico angolano moderno (2003), 
Domingos José Franque e a história oral das linhagens de Cabinda (2004), 
Cabinda e as construções da sua história (1783-1887) (2006),
Representações literárias coloniais, de Angola, dos angolanos, e suas culturas (1924-1939), (2012).
Angola e as retóricas coloniais: roupagens e desvendamentos (2012),
História de Angola: da pré-história ao início do século XXI (2015).

Alberto Oliveira Pinto
é autor do Canal no YouTube LEMBRA-TE ANGOLA,
uma "Websérie sobre História de Angola"
com apresentação e Guião de Alberto Oliveira Pinto 
e realização de João Alberto Pinto.



para saber +


Alberto Oliveira Pinto | Canal no Youtube
que "publica todo o conteúdo oficial que se relaciona com a atividade" do escritor e historiador
e a sua websérie "Lembra-te, Angola", com episódios interativos cada 2ª-feira.

Fernando Paiva Facebook, 1.02.2021





Redação: 10.07.2025

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