DELÍRIO
"Se acendeu de outro fogo do desejo"
Luís de Camões
Quisera acordar em teu sangue a ondulação das ondas
que pelo meu ser se espraiam. Vagas voluptuosas,
ardentes, resplandecentes de espuma, doridas de azul,
incandescentes de sal. E vivas. Vivas.
Quisera exaltar teu ventre entre o delírio e a loucura,
tua carne que em mim se transfigura num sorriso vasto
de anseios puros, para sagrar contigo a vida mais fecunda.
Ah, deixa-me aspirar o ar em tua radiante fronte
antes que o dia expire e se alastrem as sombras
até que de nós nada mais reste
que um murmúrio no vento,
um gemido abrasado e um doce lamento.
Ó espanto deste amor no coração do verão aceso,
fervor de um corpo indefeso ao meu desejo entregue,
pleno de sumptuosos aromas
e de inebriantes fragrâncias,
a invadir de júbilo a íntima doçura da manhã.
Ó êxtase que percorre como um sigilo a minha pele,
luz que te pertence, dádiva de tua ardorosa claridade,
prodígio encantado da alegria onde em ebriedade me perco.
Ó cálida mulher por minhas mãos estremecida,
com odor quente a vertigem, a bosque silvestre,
a resina, a álamos, a frutos molhados,
a ramos verdes de folhagem
em cuja pele se espelham os astros num resplendor infinito.
Não escutas o apelo deste fogo convulsivo
que sobre mim estende seu instinto prisioneiro
consumindo a cada instante o meu desejo
e minha alma inteira libertando?
Fogo que habita e se alastra em meu peito,
que por ti pede, implora e suplica,
que teu amoroso sopro impele e reaviva?
Que chama viva me convida a percorrer-te
se em tuas próprias águas uma labareda ateaste?
Deixa-me arder na languidez aveludada de tua carne,
fazer vibrar em teu colo os acordes da mais pura água
ser música de alba no suspiro que de ti transborda.
Amar é o melhor ensejo para relembrar que a morte é nada.
Amo tuas ancas sumptuosas, o denso ardor de seu meneio,
cada movimento de sua dança, a sua elegância de baile e maresia.
O próprio mar ao vê-las mais se azula, se enfeitiça e se deslumbra
com a frescura de suas ondas, de suas vagas, de suas espumas.
Quantas vezes são fúria de água a arrastar-me para os fundos
impondo ao meu olhar que por elas cega a sua submersa claridade!
Gonçalo Salvado
In Entre a Vinha (2013)
NASCIDA DAS VAGAS
Retoma com tuas mãos o caminho do meu corpo:
ainda é cedo para o declinar do estio
e o sol resplandecendo persiste
em festejar em nossa pele
o fulgor da sua própria avidez
Não há lugar para o inverno
quando o fogo lateja firme no sangue
e os sentidos vibram ateados pelo desejo
e se surpreendem lavas e delírios
no enlace dos corpos que se fundem
Vê como a luz testemunha
esta rubra exaltação que incessante me percorre
ao fluirem meus dedos pela linha da tua cintura
ao abraçar tua nudez numa sede estremecida
Vê como o mar se encrespa alvíssimo
em doce melodia e um manto de espuma viva
vem cobrir a orla do nosso mútuo assombro
Quero-te assim: reclinada no meu peito
cintilante de sal rendida às vagas
das carícias de meus dedos
exposta ao ardor da minha posse
em súplice abandono
Deixa-me beber nos teus lábios a sorvos largos
a embriaguez da volúpia
saborear em tua boca
o gosto fremente dos pomos
visitar-te poro a poro
com desbordante entusiasmo
até desfalecer de gozo na suavidade do teu ventre
Nua, ao meu lado, estendida sobre a areia
és o apogeu da própia vida a entregar-se plena
ao fascínio da minha contemplação
Como merecer-te? doar-te todo o ardor que
em sobressalto me acende o olhar e te celebra?
Como domar o fogo que chega ditoso
em tropel numa urgência de se revelar?
Acalmar este indómito desejo? E como? Se irrompe
febril diante do teu vulto claro, e me cega?
…………………………………………………….
Gonçalo Salvado
(inédito)