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2022/08/02

CELESTINA MODERNA EM LISBOA


A alcouceira, por Gerrit van Honthors

Imagem utilizada no início da parte "Fama e infâmia da 'ars lenandi'" (p. 146) da obra
de Felipe de Saavedra.

Na obra referida a pintura de Honthorst surge intitulada como

A Celestina, o cliente e a tangedora, 1625. 

Pintura a óleo de Gerrit van Honthors

ilustrando exemplarmente a Carta VI, provavelmente inspirada no 
Libro de Calixto e Melibea y de la puta vieja Celestina (c.1520) de Fernando de Rojas.



Uma carta do poeta Luís de Camões conservada no Códice Varejão da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP 9492, 156r-157v) foi revelada em 1925 pelo Professor e camonista José Maria Rodrigues. Todavia, o texto seria votado ao ostracismo, permanecendo desconhecido dos leitores não especializados durante quase mais uma centúria.
De facto, embora a epístola “tivesse sido comentada e citada fragmentariamente” (SAAVEDRA, 2022, p. 42), apenas viria a ser publicada aquando da efeméride dos 450 anos da publicação de Os Lusíadas, este ano de 2022. 
Este extraordinário texto foi conservado ou "ocultado" mais de 470 anos, apenas tendo sido dada a conhecer este ano por Marcia Arruda Franco, na obra coletiva por si coorganizada – Reescrever o século XVI: para uma história não oficial de Camões (FRANCO & RIBEIRO Filho, 2022, pp. 231-237; 250-262) em que a Professora faz uma “proposta de edição”, e, simultaneamente, por Felipe de Saavedra com a “edição crítica, analítica e comentada” na Celestina em Lisboa, o volume I de cinco que constituem o Epistolário Magno de Luís de Camões (SAAVEDRA, 2022, 305 pp.).

Disponibilizamos aqui uma versão traduzida em português atual, a partir do desdobrável da edição de SAAVEDRA, o qual contem o fac-símile da carta e a respetiva transcrição semi-paleográfica, texto que obtivemos a partir do Autor.


CELESTINA (MODERNA) EM LISBOA


Para que nem tudo seja falar-vos com siso, após as notícias que vos mandei de África e da Índia que cá chegaram, agora vos mando estas de folgar, que à orelha vos hajam de soar melhor. E ainda que escrever-vos isto seja intriga baixa, e de baixo assunto, pois é difamar putas, contudo eu não terei culpa alguma se ma não causardes vós com me denunciardes, porque eu o escrevo só para vós, com quem posso e devo falar tudo. E assim, com esta precaução de segredo, para que não seja necessário ficardes vós culpado comigo, nem eu desculpado convosco, e que não seja eu destas coisas o mais diligente solicitador desta terra, onde nunca faltam más-línguas que vos fazem tudo para vos danar.


Bem sabeis já como é entrada nesta cidade Madama del Puerto, com a Senhora Barbora sua filha, e também sabeis que este sobrenome “del Puerto” não o ganhou ela por cem mil milagres que aqui fizesse, onde por muito tempo residiu em seu ofício, mas por cem mil velhacarias que lhe renderam cem mil açoites que por elas lhe zurziram nas costas, com pregão. Porque a Senhora Barbora foi mais vezes cosida e renovada por Sua Madre que umas botas de um escudeiro, que assim a vendia por boa moeda. E, porém, à puta velha, apanhada em flagrante, chicotearam-lhe as costas com anúncios de trombetas. Até que por vários casos, após muitos acontecimentos, tornou aqui a aportar a Lisboa. Ó má Lisboa, que és um ninho velho, e domicílio

antigo de putas antigas! E aqui, como dizem das cegonhas que as moças mantêm as velhas, foi logo a Senhora Barbora exibida por estas paragens, e requestada por alguns novatos, que a não conheciam, que aos veteranos não podia ela enganar. Para estes modernos que eu digo, usou logo a puta velha de um ardil muito bom, que foi fazer a filha casada com um tal Mártir de Alentejo, que não reside aqui. E diz ela aos seus devotos que isto é muito conveniente, e assim é, pois com este estratagema abre e fecha quando quer as portas, e se nega, se defende, e ofende, e espanta os tristes dos cachorrinhos novos que com ela gastam o seu dinheiro. Com estes tem ela seus tratos e comércios, e com os mundanos experientes, que sabem da fraude, tem ela seus passatempos. E a velha manda a Senhora Barbora tanger e cantar uma cantiga triste.

E olhai esta declaração, que nem Ascênsio nem Donato a poderiam dar melhor. Os más-línguas de agora, se não entremetem o seu latinzinho, acham que não escrevem bem. E eu assim o faço, imitando mais o seu estilo do que o meu. Porque já em escrever-vos ganho algum crédito, e vós já me gabastes mais do que eu vos gabo: isto basta para vos escrever agora como eu quiser, sem guardar ordem, nem ordens, conforme ao lugar e estado de religioso em que agora viveis.

E eu vivo noutro estado, o de um morcego, que é sem ser ave nem rato. A culpa disto dá-la-ão uns a mim, o triste que passa a pena do escrever e a do tormento; os outros aos acontecimentos da fortuna, que não respondem sempre à natureza de cada um, ainda que esta seja boa; outros a darão aos corações humanos, que nunca se satisfazem; mas enfim, eu sei de quem a culpa é.



E tornando ao nosso tema, digo que a Senhora Barbora, e a puta de su Madre, vão tão avançadas no putarismo que podem ler de cátedra. E com os seus ditos graciosos, ora portugueses ora castelhanos, nunca lhes falta onde empregar a sua ciência e as suas manhas, porque neste cesto roto de Lisboa, onde elas tudo lançam, sabem bem que cada panela tem a sua tampa, e que sempre neste mar magno morrem madraços que vêm picar nos seus anzois, com os quais elas pescam de muitas maneiras. E agora anda tudo alvoroçado com estas armadas que partem, e na água revolta pesca melhor o pescador. Elas também com ardis apanham esses coitados, que hão de ir para fora sobre as águas do mar, uns enfeitadinhos a quem, como sabeis, se pagam soldos e pensões adiantadas, com outras mercezinhas. E tão bem os tratam, como se eles fossem franceses. Depois de lhes esvaziarem os bolsos, de bem vestidos e louçãos que andam, os tomam e lhes despem até os calções do uniforme.

E destes, os que agora dão mais nas vistas e mostras são os ceitis, que assim chamamos aos que agora se aprontam para ir para Ceuta. E estão as casas destas damas todas cheias destes ceitis, moeda de cobre de que elas fazem alguma prata. E estas falsas revivem para dar morte, que, como o trigo, se não apodrecer na terra não dá fruto nem espiga, também estas velhacas parece que quanto mais podres de seus males e doenças, amortalhadas nos seus lençóis, mais remoçam e reverdecem. Porém, já sabeis que a serpente se esconde na erva, como se vê nelas cada dia, que são peçonhentíssimas, mas mesmo como elas são, são desejadas, amadas e requestadas pelos seus amantes, mais perdidos do que elas.

E das putas em clausura, as mais populares são a Isabel Nunes de Tarifa, a Surradeira, a Marquesa, a Sintroa, a Antónia Bras, e as que chamam as folionas. Há também outras claustrais, mas mais autorizadas, as freiras, Barbora, Luzia e outras desta laia. Há outras ainda de mais autoridade, estas dão a sua casa aonde se pagodeia, porque para as pessoas não servem por serem já velhas, tais como Guiomar Mendes, Felipa de Barros, Beatriz Flamenga, com as suas filhas e as amigas delas. E às casas destas se vai fazer toda a imundice que digo.

O Triunfo de Baco (1650) por Michaelina Wautier
O Triunfo de Baco (1650) por Michaelina Wautier
Aconteceu, pois, que esta semana, uns certos ceitis (que pela honra deles não nomeio) encomendaram um pagode real com Madama del Puerto e sua filha Barbora, e com as velhacas da Surradeira e da Marquesa. E para isto contribuíram com o mais que eles puderam juntar, com que fizeram abastada despesa de comer e beber, para ser tudo levado a Orta Navía, em Alcântara, onde havia de ser a paródia. E para apimentar o ato, e ser a coisa mais crespa, saíram de suas casas em plena luz, quando o sol radiante já esparzia os seus doirados raios sobre a face da terra, nesta ordem e concerto, a saber: as damas iam ao varonil, em trajo de homens cavalheiros, em montadas muito guerreiras que eles lhes foram buscar, com penachos recamados de ouro e prata, por ir a coisa meia em prata e meia no cobre dos ceitis. Porque ainda que os senhores eram todos dos ceitis, um deles, que ia principalmente por servidor da Marquesa, era mulato, tinha “o pai de Ronda e a Mãe de Antequera”, ou melhor, da Guiné. A puta velha, por guardar mais o decoro e majestade de Madre, ia de cadeirinha sobre a albarda, porém louçã e muito enfeitada, e coberta com uma capa de escarlata. Mas, como se diz, é escusada a barrela na cabeça do asno, porque ela não deixava de parecer quem é, ou parecia a falsa Cábria quando a vestiram nos trajos da outra. E desta maneira chegaram a Navía, onde se vazaram os odres como alcatruzes, que eram cheios, como se disse, não de água, mas de muito vinho, com que de todo, segundo a fama, desenfadaram os seus corpos. E dou-vos fé que me espantaram as coisas que então fizeram, muito notáveis, que não são para vos contar. E não vos pareça que ficou a Madre velha de todo de fora, porque os cavalheiros eram em maior número do que as damas: puseram-se a fazer festa, para que também fosse consolada.

Saíram-lhes diante uns almogávares, que souberam desta ida, os quais eram clientes regulares. E vós os conheceis, os amantes destas damas: o primo coirmão da Surradeira, e outros. Decidindo afrontarem os ceitis de alguma maneira, perpassaram por eles muitas vezes, a rédeas tendidas, fazendo muito pó, e roçando-se com as damas, que iam disto receosas em extremo, por cuidarem que fosse isto caminho para algumas brigas, coisa por certo que as mais namora. Porém, os cavalheiros foram logo todos reconhecidos pelos outros, e ficaram bons companheiros. E assim, dissimulando cada um a sua mágoa, foram-se retirando: os rufias tornaram a Lisboa, e a outra companhia seguiu a sua rota, agasalhando-se naquela noite cada amante com a sua amada, e diz-se que foram provocados pelos outros com agravos amorosos. Outros recontros notáveis são passados entre matantes e estas senhoras minhas, espero informar-me bem por um matador que me há de contar tudo, então vo-lo escreverei mais largamente. E por agora contentai-vos com isto, pois creio que vi algo digno de ser contado.

O vosso homem vos leva esta resposta, quanto à minha não esqueça vossa mercê de me escrever longamente, como eu faço, sem medo nem vergonha.

Beijo as mãos de vossa mercê desta aldeia de Lisboa, a melhor do Reino, a 20 de maio de 1551 anos —


Leitura modernizada por Felipe de Saavedra
Fonte: Editora Canto Redondo



Luís Vaz de Camões
Carta VI


2022/08/01

CELESTINA EM LISBOA





Celestina parou primeiro em Óbidos - Vila Literária, em festa com o Mercado Medieval, onde
este sábado foi recebida pelo mestre-livreiro Luís Gomes, da Livraria Artes & Letras, para a apresentação do livro Epistolário Magno de Luís de Camões, vol. 1. – Celestina em Lisboa, obra que constituirá um marco incontornável nos estudos camonianos.


Como refere na parte introdutória Felipe de Saavedra, o autor da edição crítica desta Carta VI de Luís de Camões agora publicada, ela permite-nos entender como o Poeta 
“adentra a cultura da comédia peninsular, adotando um registo burlesco que glosa a proposta moralista de Rojas. Enriquecem-na informações valiosas para a história dos costumes da Lisboa Quinhentista, temperadas pela efemeridade do anedotário, pelo confessionalismo e pelo desabafo próprios da escrita missivística, aqui valorizados por uma vasta cultura literária e um apurado sentido de humor”.



A apresentação da obra, dedicada à memória do Professor J. V. de Pina Martins, esteve a cargo do Professor José Camões, que entre muitos aspetos importantes para o leitor explanou a estrutura da obra – ver aqui a reprodução do índice. Na assistência convivial estiveram presentes colegas camonistas como as Professoras Maria do Céu Fraga e Isabel Almeida, ambas citadas na obra e referidas durante a conversa do autor.

Este Epistolário Magno de Luís de Camões faz parte da Coleção “Epistolários” da editora Canto Redondo, da responsabilidade de Joana Morão, com revisão de texto por Conceição Candeias e grafismo de José Espadinha.







Para saber mais sobre a obra, consulte:





2022/07/29

Já chegou o primeiro volume do Epistolário Magno de Luís de Camões!



Está convidado para a sessão de apresentação do livro Epistolário Magno de Luís de Camões, vol. 1. Celestina em Lisboa, de Felipe de Saavedra, que terá lugar no próximo sábado dia 30 de julho de 2022, pelas 15 horas, na Livraria Artes & Letras, em Óbidos.

A apresentação da obra estará a cargo de José Camões, e será seguida por uma conversa com o Autor.

Edição de Canto Redondo, veja na livraria Espaço Livro.

Veja divulgação do evento no Facebook.


2022/07/01

Por que nem tudo seja falar-vos de siso... - carta, de Lisboa, a um clérigo algures no Reino, mandando novas "de folgar" da cidade


Por que nem tudo seja falar-vos de siso...

“Carta que hum Amigo a outro manda de novas de Lix.a” (Códice Varejão, 156r-157v)
Carta VI, “enviada de Lisboa para algures no Reino”, a “um clérigo”, em “20 de maio de 1551” (F. de Saavedra, 2022)



Por que nem tudo seja falar-vos de siso, após as novas que vos mandei de África e da Índia, que cá soaram, agora vos mando estas de folgar, que à orelha vos hajam de soar melhor, e ainda que escrever-vos isto seja empresa baixa, e de baixo sujeito, pois é praguejar de putas, contudo não terei culpa, senão se ma vós causardes, com me descobrirdes, por que eu pera vós só o escrevo, com quem posso e devo falar tudo, e assi desta cautela de segredo, e não seja necessário ficardes vós culpado comigo, nem eu desculpado convosco, e que eu não seja destas cousas o mais diligente solicitador desta terra: nunca faltam más línguas que vos fazem tudo em que vos pez.

Bem sabeis já como é entrada nesta cidade Madama del Puerto, com a Senhora Barbórica sua filha, e também sabeis que este sobrenome “del Puerto”, não cobrou ela por cem mil milagres, que nele fizesse, onde muito tempo residiu em seu ofício, mas por cem mil velhacarias que estão significando cem mil açoutes, que por elas lhe pintaram nas costas, com trombetas, por que a Senhora Bárbora foi mais vezes cosida e renovada por Sua Madre que umas botas de um escudeiro, e assi a vendia por “buena”. E, porém, a Puta Velha com o furto que lhe tomaram nas mãos lançaram-lho nas costas com trombetas, até que por vários casos, “per tot discrimina rerum”, tornou aqui a aportar a Lisboa – Ó má Lisboa, que é um ninho velho, e domicílio antigo de putas antigas, e aqui como dizem das cegonhas, as moças mantém as velhas, foi logo a Sra. Bárbora assoalhada por essas estações, e perseguida de alguns novéis, que a não conheciam, que aos veteranos não podia ela enganar, pera estes modernos que digo, usou logo a puta velha de um ardil muito bom, que foi fazer a filha casada com um Mártire do Alentejo, que não reside aqui, e diz ela aos seus devotos, que é isto um pão pera os cães, e assim é, que com este pão feitiço, abre e fecha quando quer, e se nega, e se defende, e ofende, e espanca, os tristes dos Canitos novos que com ela gastam o seu, com estes tem seus tratos, e comércios, e c’os mundanos maciços que sabem o erro, tem seus passatempos, e manda tanger e cantar a Senhora Bárbora, descantando sobre o Monte de Sião, e “de super Judeorum turbam”.

E olhai esta declaração, que nem Ascênsio nem Donato a puderam dar melhor, os praguentos de agora, se não entremetem latinzinho hão que não escrevem bem, e eu assim o faço imitando mais seu estilo que o meu, por que já em escrever-vos, e “nos aliquod nomenque decusque gessimus”, e vós já me gabastes mais, do que vos eu gabo, e isto basta pera vos escrever agora, como quiser, sem guardar ordem, nem ordens, conforme ao lugar, e estado, em que agora viveis,

E eu vivo noutro, de um morcego sem ser ave nem rato, a culpa disto dá-la-hão uns ao triste que passa a pena e outros aos acontecimentos da fortuna, que não respondem sempre aos fundamentos de cada um, ainda que sejam bons, outros a darão aos corações humanos que nunca se satisfazem, mas enfim eu sei cuja lela é.

E tornando ao nosso tema, digo que a Senhora Bárbora, “y la puta de su Madre”, vem tão avante no putarismo, que podem ler de cadeira, e com seus donaires ora portugueses ora castelhanos, nunca lhe faltaram em que empreguem suas letras, e suas manhas, por que neste cesto roto de Lisboa, onde elas lançam tudo, bem sabem que cada panela tem seu testinho, e que sempre neste mar magno morrem madraços que vêm picar em seus anzolos, com que elas pescam, de muitas maneiras, e como agora anda tudo de levante com estas armadas, e na água em volta pesca o pescador, elas também d’armada dão por esses coitados que hão de ir pera fora sobre as águas do mar, uns debruadinhos d’arte, a quem como sabeis pagam soldos e moradias adiantadas, com outras mercezinhas, e de maneira os tratam que como franceses; depois de lhes vazarem as bolças, de bem vestidos e louçãos que andam, os tomam e lhes despem até as couras golpeadas.

E destes, os que agora dão mais vistas e mostras, são os Ceitis, que assi chamamos aos que se agora fazem prestes pera Ceuta, e estão as casas destas Damas todas cheias destes Ceitis, de que elas fazem alguma prata. E estas falsas que “rebivem para dar muerte”, que como o trigo senão apodrece na terra não dá fruito nem espiga, assim estas velhacas parece que quanto mais podres, de seus males, e doenças, amortalhadas em seus suadouros, refrescam e reverdecem mais, porém já sabeis que “latet anguis in herba”, como se vê nelas cada dia, que são peçonhentíssimas, mas como são, são quistas, amadas e requestadas de seus amantes, mais perdidos que elas.

E das putas claustrais as que mais andam agora nos pelouros de seus folgares, são a Tarifa, a Surradeira, a Marquesa, a Sintroa, Antónia Brás, e as que chamam as folionas. “Ay” também outras Claustrais, mas mais autorizadas, as freiras, Bárbora, Luzia e outras desta laia, “ay” outras inda de mais autoridade, estas dão sua casa a onde se pagodeia, por que com as pessoas não servem, por serem já velhas, assim como Guiomar Mendes, Felipa de Bairros, Beatriz Flamenga, com suas filhas “et cum socijs suis” e às casas destas se vão apontar toda a imundícia destes que digo.

Aconteceu, pois, que esta semana, que uns certos Ceitis (que por sua honra não nomeio) ordenaram um pagode real, com Madama del Puerto, e sua filha Bárbora, e com as velhacas da Surradeira, e Marquesa, e pera isto fintaram pera a cabeça da Serpe o mais que eles puderam ajuntar, com que fizeram abastada despensa de comer, e beber, o que foi tudo levado a Orta Navia, em Alcântara, aonde havia de ser a mojanga, e por mais te honrar, Mafoma, e ser a cousa mais crespa, saíram de suas casas a tempo que “o radiante sol esparzia sus dorados Rayos sobre la haz de la tierra”, nesta ordem e concerto, “scilicet” as Damas iam ao varonil, em trajo de homens cavalheiros em quartaos, que lhe eles buscaram muito guerreiros, com seus penachos recamados de ouro e prata, por ir a cousa meia em prata e meia em Ceitis, por que ainda que os Senhores eram todos dos Ceitis, digo um deles que principalmente ia por servidor da Marquesa, “su padre era de Ronda, y su Madre era de Antequera”, ou de Guiné, a Puta Velha por guardar mais o decoro e majestade de Madre, ia de Andilhas, porém louçã e muito enfeitada, e coberta com uma capa de escarlata, mas como dizem escusada é a decoada, e por demais na cabeça do asno, por que ela não deixava de parecer quem é, ou parecia tudo a falsa Cábria, quando a vestiram nos trajos da outra, desta maneira chegarão a Navía, onde como Alcatruz se vazaram, e eram cheios, como se diz, não de água, mas de muito vinho, com que de todo, segundo fama, desenfadarão seus corpos, e dou-vos fé que me espantaram as cousas que então fizeram, muito notáveis que não são pera vos contar. E não vos pareça que ficou a madre velha de todo de fora, porque os cavalheiros eram mais que os das Damas, puseram se a fazer festa, por que também fosse regozijada.

Saíram-lhe diante uns Almogávares, que souberam desta ida, os quais eram seus Marinhanos, (e vós os conheceis, amantes destas damas) primo e irmão da Surradeira, e outros, determinando afrontarem-nos de alguma maneira, perpassaram por eles muitas vezes, a rédeas tendidas fazendo muito pó, e rocando-se com as Damas, que iam de isto em extremo receosas, por cuidarem que era isto caminho de algumas brigas, cousa no certo que as mais namora, e, porém, os cavalheiros foram todos conhecidos logo dos outros e ficaram “buenos y leales”. E assim, dissimulando cada um com sua mágoa, foram retirando-se, os Rufianos se tornaram, e a outra mais companhia seguiu sua rota, agasalhando-se aquela noite cada amante com a sua, aonde se diz que foram matraqueados dos outros de amorosas batarias; outros recontros notáveis são passados entre matantes e estas senhoras “mias”, espero informar-me bem, de um matador que me há de contar tudo, então vo-lo escreverei, mais largamente, e por agora contentai-vos com isto, por que “visa est mihi digna relata pompa”.

O vosso homem leva a vossa encomenda, a minha não esqueça a v. m. com me escrever largo, como eu faço sem medo nem vergonha,

Beijo as mãos de v. m. desta aldeia de Lisboa, a melhor do Reino, 
a 20 de maio, de 1551 anos.






Texto atualizado a partir de:

VAREJÃO, Pedro Alvarez, comp. – Códice Varejão, BNP: 9492, 156r-157v.

SAAVEDRA, Felipe de (2022) [Fac-simile e transcrição da carta], in Epistolário magno de Luís de Camões: volume I – Celestina em Lisboa. Edição crítica, analítica e comentada de – Lisboa: Canto Redondo, p. 8-15.


2022/06/11

CELESTINA EM LISBOA – UMA CARTA DE CAMÕES OCULTA POR 471 ANOS


Epistolário Magno de Luís de Camões vol. 1 – Celestina em Lisboa

por Felipe de Saavedra

Amadora: Canto Redondo, julho 2022.





"Vem aí o primeiro volume do Epistolário Magno de Luís de Camões!"


"Há várias décadas que os estudos camonianos não progrediam no resgate de novos textos e documentos, o que é surpreendente tendo em conta a existência de muitas fontes manuscritas por identificar e publicar. Quando esta edição do «Epistolário Magno de Luís de Camões» por Felipe de Saavedra estiver completa, constituirá um marco inegável nesses estudos.

As catorze cartas contempladas no total dos cinco volumes previstos (doze principais e mais duas suplementares) são apresentadas em texto crítico e com extenso comentário histórico e biográfico.

Elas incluem, para além das cinco epístolas em prosa tradicionais (VII-X, XII), mais três que são estudadas como epístolas (II, III, XI) e outras três que são reatribuídas a Camões (I, IV e IVa). Para mais duas missivas é estabelecida a autoria camoniana pela primeira vez (Ia, V), enquanto uma última, há muito reconhecida como sendo de Camões, permanecia inédita em versão integral (VI), sendo esta a primeira a vir a público nesta série.

O acervo de informações que as cartas de Camões revelam inclui, por exemplo, a cidade onde ele nasceu; como era a vida militar da guarnição portuguesa de Ceuta onde ele serviu, e as queixas dos portugueses contra o capitão da praça; quem eram os seus companheiros de má vida na noite lisboeta, e por que razões foi preso em 1552; o impacto da pandemia da sífilis nas letras europeias e portuguesas; ou como se malcomportavam as diversas tribos urbanas que compunham a colónia portuguesa residente em Goa.

No comentário, o mais extenso até hoje elaborado para o epistolário camoniano, estudam-se aspectos que têm sido pouco contemplados, desde os biográficos – sejam os contornos da sua doença e as circunstâncias precisas da sua morte – aos mais teóricos: a afinidade entre a comédia, a sátira e a epístola pelo elemento dionisíaco que subjaz à sua filosofia de vida e visão do mundo.

O retrato ao vivo que resulta deste assinalável esforço interpretativo não é o de um «novo Camões», nem o de um Camões alternativo ao Camões brônzeo ou marmóreo, dito «oficial». Pelo contrário, quem reemerge destas páginas é o Camões «mais antigo», o original, ainda humano e talvez «demasiado humano», com quem os seus contemporâneos privaram quando ele se achava ainda isento do mito com que os pósteros o iriam depurar e desumanizar."

Fonte: Na página no Facebook da editora Canto Redondo.


VOL. 1 CELESTINA EM LISBOA – UMA CARTA DE CAMÕES OCULTA POR 471 ANOS



"A presente publicação do Epistolário Magno de Luís de Camões, em edição crítica, analítica e exegética, fundamenta-se na escrupulosa releitura das mais antigas fontes manuscritas e impressas, elevando o estudo da epistolografia clássica portuguesa a um novo patamar de exigência científica.

Esta obra em cinco volumes inicia-se com uma missiva inédita, votada ao ostracismo desde 1925. Adicionar quase mil e quinhentas palavras ao corpus camoniano é um feito a que desde há muito não se assistia. E não são meramente mais palavras, e sim uma colorida evocação de Celestina, a alcoviteira nascida da pena de Fernando de Rojas em 1499, que aqui revive na Madama del Puerto, a alcouceira que retorna a Lisboa após ter sido açoutada e banida da cidade.

Nesta extensa crónica das desvivências do submundo de Lisboa, iniciada pela proposição Por q̃ nẽ tudo seja falaruos de siso, Camões denuncia os engodos das toleradas para espoliaram do seu pré os jovens ceitis — mancebos conscritos para a praça militar de Ceuta — e também como as compradiças propagavam a pandemia de sífilis que assolava a Europa. O relato é rematado com a descrição de uma charanga carnavalesca que, às primeiras horas da madrugada, parte do porto de Lisboa rumo aos jardins de Horta Navia, em Alcântara, onde se celebrará um festival báquico.

Enquanto obra destinada tanto a uma audiência académica quanto a um público interessado, este estudo da carta Celestina em Lisboa concilia a erudição filológica, o rigor histórico e a mestria hermenêutica, com um tom ocasionalmente mais jocoso, entremetendo também algum latinzinho para aceder às propostas do próprio Camões."




EPISTOLÁRIO MAGNO DE LUÍS DE CAMÕES – 5 volumes


VOL. 1 CELESTINA EM LISBOA
  • CARTA VI — Por q̃ nẽ tudo seja falaruos de siso

VOL. 2 QUẼ TERA TÃ LIVRE O PENSAMENTO?
  • CARTA I — Huã de v m me deraõ tam guastada
  • CARTA II — Quem pode ser no mundo tã quieto
  • CARTA III — Aquella cuio peito em flama ardido
  • CARTA IV — Por usar costume antigo

VOL. 3 VISITAÇÃO AOS PAÇOS DE VÉNUS
  • CARTA V — Mandarame que lh’escreuesse
  • CARTA VII — Huã vossa me deraõ a qual pello descostume
  • CARTA VIII — Quanto mais tarde vos escreuo

VOL. 4 CÀ, & LÂ MÀS FADAS HA (LETRAS DA ÍNDIA)
  • CARTA IX — Deſejei tanto hũa voſſa
  • SÁTIRA I — Eſte mundo es el camino
  • SÁTIRA II — E hũ q̃ bebia exceßiuamente
  • CARTA X — Esta uai com a candeia na maõ
  • CARTA XI — Aquelle vnico exemplo

VOL. 5 HORA TEMPERAIME LA ESSA GUAITA
  • CARTA XII — Quem ouuiu dizer nunca
  • Cartas perdidas
  • Receção crítica



Para saber +




2020/08/23

Esta vai com a candeia na mão... - carta, escrita em Ceuta para um amigo, de Luís de Camões


Imagem in: "Epistolário Camoniano" / Missiva.pt


Esta vai com a candeia na mão...

"Carta II. A outro amigo" (1598)

"Carta I, Escrita de Ceuta" (H. Cidade, 1946, 4.ª ed. 1985)


Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v.[ossa] m[ercê] e se daí passar seja em cinza, porque não quero que do meu pouco comam muitos. E se, todavia, quiser meter mais mãos na escudela, mande-lhe lavar o nome, e valha sem cunhos.

 

La mar en medio, y tierras he dejado,

Y cuanto bien, cuitado, yo tenía.

Mas cuan vano imaginar, cuan claro engaño

Es darme yo a entender que, con partir-me,

De mi se a de partir un mal tamaño.

 

Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do sentimento! E se não, digam quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque, enfim, la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes cuidados jogam meus pensamentos à barreira, tendo-me já, pelo costume, tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo uso dos anos se converte em natureza. Pois o que é para mor mal, tenho eu para mor bem. Ainda que para viver no mundo, me debruo doutro pano, por não parecer coruja entre pardais, fazendo-me um para ser outro, sendo outro para ser um; mas a dor dissimulada dará seu fruito, que a tristeza no coração é como a traça no pano:

 

E por tão triste me tenho,

Que se sentisse alegria,

de triste não viveria.

Porque a tal sorte vim,

que não vejo bem algum

em quanto vejo,

que não nasceu para mim;

e por não sentir nenhum,

nenhum desejo.

 

Porque cousas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las. E por isso,

 

Só tristeza ver queria,

Pois minha ventura quer

Que só ela

Conheça por alegria;

E que, se outra quiser,

Morra por ela.

 

Pouco sabe da tristeza quem (sem remédio para ela) diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperareis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que dês[de] que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais que não sou gente fora do meu bairro, vedes vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados. E cuido que não é tão dedo queimado, que não seja dos que El-Rei mandou chamar; o qual fala assim:

 

Não quero, não quero

jubão amarelo.

 

Se de negro for,

Também me parece,

Quanto m’aborrece

Toda a alegre cor!

Cor que mostra dor

Quero, e não quero

jubão amarelo.

 

Parece-vos que se pode dizer mais? não me respondais: Quem gabará a noiva? Porque assentai que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que não é tão pequena habilidade. E porque vos não pareça que foi mais acertar que querê-lo fazer, vedes vai outra do mesmo jaez, contanto que se não vá a pasmar:

 

Perdigão perdeu a pena,

Não há mal que lhe não venha.

 

Em um mal outro começa,

Que nunca vem só nenhum;

E o triste que tem um

A sofrer outro s’ofereça;

E só pelo ver conheça,

Que basta um só que tenha,

Para que outro lhe venha.

 

Que graça será esperardes de mim propósitos em cousas que os não tem pera comigo?, pois ainda que queira, não posso o que quero; que um sentido remontado de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe sucede assim; e cada um acode ao que lhe mais dói. E mais eu que o que mais me entristece é contentamento ter, pois fujo dele, que minha alma o aborrece, [por]que lhe lembra que é virtude de viver sem ele. Porque já sabeis que magoa é, vê-lo-ás e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,

 

Toda a cousa descontente

Contentar-me só convinha.

De meu gosto;

Que o mal de que sou doente,

Sua mais certa mezinha

É desgosto.

 

Já ouviríeis dizer: Mouro o que não podes haver, dá-o pela tua alma. O mal sem remédio, o mais certo que tem, é fazer da necessidade virtude: quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, enfim, Allegados son iguales, / los que viven por sus manos / etc. A este propósito, pouco mais ou menos, se fizeram umas voltas a um mote de enche mão, que diz por sua arte zombando, mais que não de sizo (que toda a galantaria é tirá-la donde senão espera) o qual crede, que tem mais que roer do que um praguento. Portanto recuerde el alma adormida, e mande escumar o entendimento, que de outra maneira, De fuera dormiredes pastorzico. E o meu, Senhor, diz assim:

 

Dava-lhe o vento no chapeirão,

Quer [lhe] dê, quer não.

 

Bem o pode revolver

Que o vento não traz mais fruito

E mais vento é sentir muito,

O que, enfim, fim há de ter.

O melhor é melhor ser

Que o vento no chapeirão,

Quer lhe dê, quer não.

 

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado. E a morte até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vos sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é:

 

Que esperança me despede,

Tristeza não me falece,

E tudo o mais m’aborrece.

Já que mais não mereceu

Minha estrela,

Só a tristeza conheço,

Pois que para mim nasceu

E eu para ela.

 

No mundo não tem boa sorte, senão quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhai de que maneira:

 

Vivo assim ao revés,

tomando por certa vida

certa morte,

com que folgo em que me pês,

pois minha sorte é servida

de tal sorte.

 

Uma cousa sabei: que o mal, inda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não tache com o coração.

 

Ajudai-me a sofrer,

Vida tão sem sofrimento

E tão sem vida,

Ver que enfim, fim há de ter

Desgosto e contentamento,

Uma medida.

 

Atentai que não são maus confeitos de enforcado para os que estão com o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, ainda que sejam diferentes na vida, são conformes na morte; porque vemos

 

Que não há tão alta sorte,

nem ventura tão subida,

ou desastrada,

a quem não assopre a morte,

não sopre o fogo da vida,

A seu fim todas as cousas vão correndo.

Nem há cousa a que o tempo não consuma,

nem vida que de si tanto presuma,

que se não veja nada, em se vendo,

 

que o mais certo que temos

é nada termos certo

cá na terra,

pois para seus não nascemos;

se o seu nos dá incerto,

nada erra.

 

Quero-vos dar conta de um Soneto sem pernas, que se fez a um certo recontro que se teve com este destruidor de bons propósitos, e não se acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor é o seguinte:

 

Forçou-me Amor um dia que jogasse;

Deu as cartas, e [ás] de ouros levantou,

E sem respeitar mão, logo trunfou,

Cuidando que o metal que m’enganasse.

 

Dizendo, pois trunfou, que triunfasse

A uma cota de ouros que jogou;

Eu então por burlar quem me burlou,

Três paus joguei, e disse que ganhasse.

 

Príncipes de condição, ainda que o sejam de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza; fazem com sua fidalguia com que lhe cavemos fidalguias de seus avós: onde não há trigo tão joeirado, que não tenha alguma ervilhaca. Já sabeis que basta um frade ruim, para dar que falar a um convento. Três cousas não se sofrem sem discórdia: companhia, namorar, mandar vilão ruim sobre cousa de seu interesse. Não se pode ter paciência com quem quer que lhe façam o que não faz. Desaguardecimentos de boas obras, destroem a vontade para não fazê-las a amigo, que tem mais conta com o interesse, que com a amizade, rezai dele que é dos cá nomeados.

 

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto, quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta, que a lua recebe a claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá. Não tem que aguardecer quem no que recebe a não recebe: porque bem comprado vai, o que com ela se compra. Nada se dá de graça, o que se pede muito. Está certo que não tem uma vida, tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório, a que chamais honra, donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade, nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano, quem creu mais o que lhe dizem, que o que viu. Agora, ou se há de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo que le duele.

 

Hora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem assim achareis meio real de descanso nesta vida, ela nos trata somente como alheios de si, e com razão:

 

Pois somente nos é dada

para ganharmos nela,

o que sabemos:

se se gasta malgastada,

juntamente com perdê-la,

nos perdemos.

 

Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve é,

 

Ponderemos e vejamos,

que ganhamos em viver,

os que nascemos:

veremos que não ganhamos,

senão algum bem fazer,

se o fazemos.

 

E por que respeitando,

 

Que o por vir tal será,

entesouremos,

porque não sabemos,

quando a morte nos pedirá,

que lhe paguemos.

 

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta mil pensamentos vãos, que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas, para com estes que vivem a mor bonança como ela. Porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos à costa, e se vem à mão com as almas no inferno, que é bem ruim guasalhado.

 

E pois todos isto temos

Não nos engane a riqueza

Porque tanto esmorecemos

E trás que vamos,

Já que temos por certeza

Que quando mais a queremos,

A deixamos.

 

Gastamos em alcançá-la

A vida, e quando queremos

Usar dela,

Nos tira a morte lográ-la;

Assim que a Deus perdemos,

E a ela.

 

Porque já ouviríeis dizer ninho feito, pega morta. Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda a dura dele está em quanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque acabado de alcançar é passado, e maior saudade deixa, do que é o contentamento que deu. Esperai por me fazer m[ercê] q[ue] lhe quero dar umas palavrinhas de propósito.

 

Mundo, se te conhecemos

Porque tanto desejamos

Teus enganos?

E se assi te queremos,

Mui sem causa nos queixamos,

De teus danos.

 

Tu não enganas ninguém

Pois a quem te desejar,

Vemos que danas,

Se te querem qual te veem,

Se se querem enganar,

Ninguém enganas.

 

Vejam-se os bens que tiveram

Os que mais em alcançar-te

Se esmeraram;

Que uns vivendo, não viveram

E outros só com deixar-te,

Descansaram.

 

Se esta tão clara fé

Te aclara teus enganos,

Desengana,

Sobejamente mal vê

Quem com tantos desenganos

Se engana.

 

Mas como tu sempre mores

No engano em que andamos

E que vemos,

Não cremos o que tu podes,

Senão o que desejamos

E queremos.

 

Nada te pode estimar

Quem bem quiser conhecer-te,

E estimar-te,

Que em te perder ou ganhar,

O mais seguro ganhar-te

É perder-te.

 

E quem em ti determina

Descanso poder achar

Saiba que erra;

Que sendo a alma divina,

Não a pode descansar

Nada da terra.

 

Nascemos para morrer,

Morremos para ter vida

Em ti morrendo;

O mais certo é merecer

Nós a vida conhecida

Cá vivendo.

 

Enfim, mundo, és estalagem

Em que pousam nossas vidas

De corrida;

De ti levam de passajem

Ser bem, ou mal recebidas

Na outra vida.

 

Afuera, afuera, Rodrigo, que eu, se muito for por este caminho, darei em enfadonho. Ainda que me pareça já me não livrará privilégio de cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, sofrei-me com meus encargos. E porque não digais que sou herege de Amor, e que lhe não sei orações: vedes vai uma, “Di Juan de que murió Blas?” com um pé à Portuguesa e outro à Castelhana, e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer palmo desta matéria perco o norte. E os suplicantes dizem assim:

 

— Di, Juan, de que murió Blas,

Tan niño, y tan mal logrado?

— Gil, murió de desamado.

 

—  Dime, Juan, quien le engañó,

Que con amor se engañase

Pensando que el bien hallase,

Adonde el mal cierto halló?

Después que el engaño vio

Que hizo, desengañado?

Gil, morió de desamado.

 

Travou com ele pendença

Em ter razão confiado;

Mas amor, como é letrado,

Houve contra ele a sentença;

E com aquela diferença

Disse entre si o coitado:

— Gil, morreó de desamado.

 

Quem tem razão tão cerrada

Que não saiba, sendo rudo

E sem respeito,

Que, sem Deus, é tudo nada,

E nada, com ele, tudo

Sem defeito?

 

E sendo isto tão certo,

Como todos confessamos,

E sabemos,

Não demos pelo incerto

O em que tão certo estamos

Pois o vemos.

 

A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Faetão, porque del dicho al hecho, va gran trecho. E de saber as cousas, e passar por elas, há mais diferença que de consolar a ser consolado. Mas assim entrou o mundo, e assim há de sair; muitos a repreendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isso amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa, nosso Senhor, etc.

 

 

 

Fonte:

Rimas / Luís de Camões. Lisboa, 1598, 193-200.

Carta I, in Autos e cartas / Luís de Camões. – Vol. III das Obras Completas, com pref. e notas do Prof. Hernâni Cidade. 4.ª ed., Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1985. [1.ª ed., 1946], p. 225-242.





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