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2025/01/13

A Arte em Santarém no tempo de Camões - uma vila-capital da cultura portuguesa, conferência por Vítor Serrão



A Arte em Santarém no tempo de Camões
uma vila-capital da cultura portuguesa

CONFERÊNCIA

pelo Professor Vítor Serrão

24 JAN. 2025 | às 18h30 | Teatro Taborda, Santarém





"A ARTE EM SANTARÉM NO TEMPO DE CAMÕES"

Se parece incontestável que Santarém é a Capital do Gótico nacional, tal como foi baptizada em 1924 pelo historiador de arte Vergílio Correia, não é menos verdade que a vila tagana viveu no século XVI uma das suas fases de maior brilho cultural e artístico. No recente livro 'Camões: Altos Cumes, Scabelicastro e Correlatos' (Edições Cosmos, 2024, em colaboração com Mário Rui Silvestre), considero mesmo 'a sempre enobrecida Scabelicastro' (como lhe chama Camões n'Os Lusíadas) uma das capitais desse ‘largo tempo do Renascimento’ em que os ventos humanísticos de Itália eram fonte de inspiração dos nossos literatos e artistas.

Apesar das perdas substanciais de património, tanto edificado como de equipamento decorativo, sem contar com os acervos documentais que não sobreviveram aos cataclismos da História, a Santarém do século XVI é um alfobre de valências significativas no campo cultural. Terra de Ana de Sá Macedo, a mãe de Camões (e também, com grande probabilidade, lugar de nascença do vate), a cidade de hoje estima-se por ainda ter um acervo relevante de edifícios marcados pela estética do classicismo italiano. É o caso da arquitectura da igreja da Misericórdia (de Miguel de Arruda) e da ermida da Senhora do Monte, da escultura do Santíssimo Milagre (pelo espanhol Diego de Çarça), das pinturas de Diogo de Contreiras e Ambrósio Dias (Almoster, Santa Clara, Santa Cruz da Ribeira, Romeira), da presença de ilustres mecenas imbuídos de cultura 'ao romano' como o escritor Francisco de Holanda (de passagem em 1549-1551 após regressar de Roma), os cronistas Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa) e Fernão Lopes de Castanheda, o poeta e antonianista D. Manuel de Portugal (que transformou a sua quinta de Vale Figueira num centro de ´literati´), os Coutinho de Vaqueiros (também amigos de Camões), os Costa, os Macedo, os Brito, os Menezes...

É preciso saber avaliar o património escalabitano de artes e letras quinhentistas sob uma forma unívoca, no seu conjunto, e não do modo desagregado com que tem sido visto. Dessa leitura global perpassa a ideia de uma vila onde se impunha tanto a importância estratégica, junto ao curso do maior rio português e não longe do Paço Real de Almeirim, como a presença de uma élite cultural «aggiornata'.

As investigações levadas a cabo, ao mesmo tempo que alargaram saberes sobre a figura de Camões, avançam com uma série de proposições sobre as vivências culturais de uma Santarém que, apesar dos ventos adversos, era um espaço estimulante de liberdade criadora.

Vitor Serrão
in Facebook, 12.01.2025

para saber +



Rua do Maestro Luís da Silveira, n.º 4
2000-117 Santarém | PORTUGAL

+351 243 321 150 | circuloscalabitano@gmail.com 







Redação: 12.01.2025

2024/11/14

Camões e D. Gonçalo Coutinho


Um poema de D. Gonçalo Coutinho, Senhor de Vaqueiros e mecenas da memória de Camões

Uma cripto-história de Santarém

pelo historiador Vítor Serrão




"Desde sempre a figura de D. Gonçalo Coutinho (1564-1642), poeta, homem de letras e senhor de Vaqueiros, foi referência presente, com maior ou menor visibilidade, nos estudos camonianos. Bastava para isso o facto, amplamente reconhecido, de que foi ele o primeiro mecenas de Luís Vaz de Camões a preservar a sua memória. De facto, não só fez publicar em 1595 (e de novo em 1598) o manuscrito das Rimas, que o vate lhe deixou entre as suas últimas vontades, como mandou pintar o retrato póstumo do poeta e, ainda, mandou colocar uma lápide-memória junto à sepultura de Camões à entrada da igreja de Sant'Ana em Lisboa.

Tudo isso é, em linhas gerais, matéria divulgada pelos estudiosos que se ocuparam de Camões. Já menos conhecido é o papel que assume na saga camoniana a figura de seu pai D. Gastão Coutinho (falecido em 1579, que jaz na capela-mor da igreja de Vaqueiros sob campa brasonada). Ele, sim, foi um dos primeiros protectores do vate, ainda D. Gonçalo era criança. Durante o célebre (mas ainda misterioso) «desterro no Ribatejo» em 1547 e 1548 (meses que Luís de Camões passou de castigo por causa de amores contrariados, possivelmente com D. Catarina de Ataíde, aia da Rainha), o poeta esteve em Santarém, Pernes, Vale de Figueira e Punhete (Constância).

Certo e atestado é que Camões voltou de novo à aldeia do Alviela, ao regressar da Índia, durante os anos de 1570-1580, quando o comendador de Vaqueiros e Casével o recebe no seu solar sito na aldeia junto ao rio Alviela. É significativo que o jovem D. Gonçalo (cujo nascimento se pode agora estabelecer com certeza em 1564) conhecesse o seu admirado Camões por via paterna e assim tivesse tomado posse, não só do manuscrito original de Os Lusíadas, mas também do manuscrito das Rimas, que o idoso vate lhe dedicou e cuja publicação ele se encarregou de fazer cumprir em Lisboa, em 1595, com impressão de Manuel de Lira…

Nova documentação revelada no recente livro Camões: Altos Cumes, Scabelicastro e Correlatos’(Edições Cosmos), da autoria de Mário Rui Silvestre e do autor desta crónica, permite definir melhor esse quadro em que o poeta (cujas raízes santarenas passaram, entretanto, a ser melhor conhecidas) se deixou enamorar pelas lindas paisagens do Alviela e dos campos de vistas desafogadas que conduzem a Vale Figueira, ao Pombalinho e à foz do Zêzere em Punhete. Nesses anos que antecederam a partida para a Índia, em 1553, Camões conviveu com D. Gastão, pois o «desterro em Santarém» não se limitou a Constância. Muita da poesia bucólica do vate, incluindo aquela que destaca a beleza das Tágides, se situa neste cenário ribatejano. Algumas das cartas de D. Gonçalo Coutinho, ainda inéditas, vêm agora esclarecer-nos melhor sobre tais relações fraternas e envolvências literárias.

Só com quinze ou dezasseis anos, portanto, o jovem D. Gonçalo conheceu o vate, fosse na casa dos Coutinho em Lisboa, fosse em Vaqueiros, e de tal modo se afeiçoou ao seu carisma de poeta, que o próprio Camões, precocemente velho e já muito doente, lhe dedicou o manuscrito das Rimas, confiando que o jovem Gonçalo Coutinho o viesse a publicar, como fez, quinze anos após a sua morte.

Resta estudar, pois, a esquecida figura de D. Gastão, e apreciar melhor o espírito camoniano que ainda subsiste nesta esquecida aldeia santarena situada na margem esquerda do Alviela e onde ainda se encontram vestígios do velho solar dos Coutinho (com a lápide brasonada, datada de 1619, que Mário Rui Silvestre aí descobriu há cerca de trinta anos) com envolvências das memórias literárias de uma esquecida 'corte na aldeia' onde não só Camões, mas também os poetas D. Manuel de Portugal, Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz, seus amigos e admiradores, passaram estâncias. O recente livro, acima citado, levanta pontas deste véu - mas muito existe ainda por descobrir na saga do "glorioso desventurado" Luís Vaz de Camões, o Poeta de Portugal…

A obra sobrevivente de Gonçalo Coutinho (elogiada por Luís Franco Correia, Faria e Sousa, D. Francisco Manuel de Melo e outros autores coevos) resume-se à 3ª parte da Crónica de Dom Duardos, romance picaresco bem estudado pela Doutora Nanci Romero (Universidade de São Paulo), a uma elogiosa biografia de Francisco de Sá de Miranda, e ao livro de memórias políticas Discurso da Jornada de Dom Gonçalo Coutinho à villa de Mazagam e seu governo nella (editado em Lisboa, 1629). Já o livro de poemas que no início do século XVII estava a compor na quietude da sua casa de Vaqueiros, e se chamava Lagrimas do Alviela, se perdeu. Teófilo Braga, em 1874, alude a uma cópia desse manuscrito, pertencente à biblioteca do Duque de Lafões, mas já então inlocalizável. Numa carta de Vaqueiros datada de 15 de setembro de 1606 (citada no recente livro sobre Camões que escrevi com Mário Rui Silvestre), Gonçalo Coutinho dirige-se ao grande historiador e cronista castelhano Dr. Luís Tribaldos de Toledo, bibliotecário do Conde-Duque de Olivares, cronista-mor de Índias e membro do Conselho de Estado de Filipe III, e diz-lhe, entre outras coisas, que andava a escrever um livro com esse título e que lhe ia enviar uma transcrição traduzida de parte dos poemas.

Perdido o manuscrito do livro, só algumas dessas poesias chegaram aos nossos dias, por fazerem parte de compilações e colectâneas poéticas. Uma dessas miscelâneas está na Biblioteca Nacional de Espanha (BNM, Mss 3992 e BNM, Mss. 4152) e inclui um poema dedicada à senhora de Santar D. Elvira Coutinho, identificado como de Gonçalo Coutinho. Todavia, pese a influência camoniana que revela, padece de um excessivo «gongorismo» que, tal como referiu Nanci Romero, não valoriza as rimas e empobrece as metáforas.

Já outro poema mais feliz, com dedicatória ‘en la muerte de una dama portuguesa en Santarén’, pode ser considerado um belíssimo soneto de amor do poeta de Vaqueiros. A sua qualidade, aliás, levou a que, por lapso, tenha andado mal atribuído ao próprio Luís de Gôngora (1561-1627), chegando mesmo a integrar as compilações póstumas das obras de Gôngora organizadas por D. António Chacón Ponce de León (1628), por Don Gonzalo de Hozes y Cordova (1632) e por Garcia de Salzedo (1644). A primeira compilação citada ficou manuscrita. Na de Hozes, o responsável regista as observações do Dr. Tribaldos de Toledo (amigo de Gôngora, e correspondente de Gonçalo Coutinho) o qual adverte para o facto de alguns dos manuscritos coligidos terem poesias que não eram de Gôngora! Na compilação de Garcia de Salzedo, este afirma que o soneto em causa (recebido do Dr. Siruela, cónego do Monte Santo em Granada) levantava dúvidas de autoria. Mas a verdade é que o soneto passou como sendo do próprio Gôngora, esquecendo-se o nome do poeta português… e o compilador ajudou ao engano, ao confessar que, por achar que a referência ao 'Albiela' era erro de copista, por ser um rio inexistente (!), a mudou na transcrição para 'rio Vizela'(no arcebispado de Braga), assim mais complicando as coisas…

Trata-se do soneto 'Aljófares risueños de Albïela', que tem passado como obra do grande Gôngora e é, afinal, do poeta de Vaqueiros! Um poema de amor belíssimo, que começa com a exaltação das pérolas ridentes do rio santareno… No livro Gongora: An Historical and Critical Essay on the Times of Philip III and IV of Spain, de Edward Churton (Londres, 1862), refere-se que o Dr. Tribaldos, ao aprovar em 1632 a publicação de que Hozos fora responsável, advertiu o editor que nos manuscritos coligidos por Hozes havia poesias que não eram de Gôngora. E mais diz Churton: «É claro que Tribaldos estava ciente de quão acriticamente Hozes havia executado sua tarefa e, tendo o manuscrito de Chacon sob os seus próprios cuidados, quis alertar o leitor a não tomar como certa toda a informação nele contida».

O soneto de D. Gonçalo Coutinho ‘Aljofares risueños de Visela’ reza assim:

‘En la muerte de una dama portuguesa en Santarén.

Aljófares risueños de Albïela:
al blanco alterno pie fue, vuestra risa,
en cuantos ya tejió coros Belisa,
undosa de cristal, dulce vihuela;

instrumento hoy de lágrimas, no os duela
su epiciclo, de donde nos avisa
que rayos ciñe, que zafiros pisa,
que, sin moverse, en plumas de oro vuela;

pastor os duela amante que, si triste
la perdió su deseo en vuestra arena,
su memoria en cualquier región la asiste,

lagrimoso informante de su pena
en las cortezas que el aliso viste,
en los suspiros cultos de su avena’.

Resta indagar quem seria a misteriosa dama de Santarém que inspirou o poeta de Vaqueiros nesta artística evocação fúnebre da sua memória, cheia de referências musicais.

O facto de este soneto do perdido livro Lágrimas do Alviela constar das primeiras compilações póstumas das obras de Gôngora leva a crer que o manuscrito de Gonçalo Coutinho estivesse em Espanha, tanto mais que o referido responsável da ed. de Madrid de 1644 fala de certos manuscritos que compulsou nas bibliotecas de Joseph Pellizer e de Luís Mendes de Haro para organizar a compendiação. E sabemos, de fonte segura, que o poeta camonista, que viveu estâncias várias em Madrid, mandou poemas do seu perdido livro ao Dr. Tribaldos de Toledo. Ou seja, pode ser que as misteriosas Lagrimas do Alviela ainda possam ser encontradas em algum fundo espanhol; acalentemos essa esperança !


Nota: agradeço ao amigo Doutor Jaelson Bitran Trindade (IPHAN, S. Paulo) por me pôr nesta pista e, também, a Mário Rui Silvestre, Hélio J. S. Alves, Francisco Bilou, Firmino Oliveira e António Carlos Cortez pelas discussões e achegas frutuosas a este propósito.


Vítor Serrão
in Correio do Ribatejo, 15.11.2024
Reproduzido em Vitor Serrão | Facebook, 14.11.2024





2024/10/25

Uma entrevista sobre o livro "Camões: altos cumes, Scabelicastro e correlatos"


Uma entrevista sobre o livro "Camões: altos cumes, Scabelicastro e correlatos"

ENTREVISTA



Na sequência da publicação do livro CAMÕES: altos cumes, scabelicastro e correlatos, o historiador de arte Vítor Serrão explora novas perspetivas sobre a vida de Luís de Camões, as suas ligações a Santarém e o contexto cultural da sua época. Em coautoria com Mário Rui Silvestre, o livro traz à luz novas descobertas documentais, um poema inédito de Camões e um conjunto de reflexões que desafiam as visões tradicionais sobre o poeta. Esta entrevista ao Correio do Ribatejo aborda as motivações para a elaboração da obra e o impacto que estas novas perspetivas podem ter no entendimento da vida e obra de Camões.

Filipe Mendes / Correio do Ribatejo (CR): O que motivou a elaboração deste livro e qual é o objectivo central da obra?

Vítor Serrão (VS): A ideia de elaborar este livro surgiu a partir de uma série de ousadas crónicas publicadas pelo Mário Rui Silvestre no Correio do Ribatejo, onde ele defende a tese de que Camões teria nascido em Santarém. Estas crónicas geraram muito interesse e foram o ponto de partida para a colaboração entre nós. Fui convidado por Joaquim Garrido (Edições Cosmos) a juntar-me ao projeto, trazendo a minha perspetiva sobre o ambiente artístico da época de Camões. A partir daí, o livro desenvolveu-se em três frentes principais.

O primeiro objectivo foi explorar a tese do nascimento de Luís Vaz de Camões em Santarém, que é defendida com base em novas evidências documentais e no contexto familiar e cultural da mãe do poeta, Ana de Sá e Macedo, que era de Santarém e oriunda de uma família com fortes ligações à então vila, e do pai clérigo, Simão Vaz de Camões. Embora não tenhamos provas definitivas, a probabilidade de que Camões aqui tenha nascido é muito significativa. O segundo objetivo foi analisar o ambiente artístico e literário da época, e como Camões estava inserido numa rede de artistas e poetas que o influenciaram. E, por fim, o terceiro objetivo foi reinterpretar a obra de Camões à luz do Maneirismo, tal como o fez Jorge de Sena, e Aguiar e Silva, afastando-se da visão tradicional que o associa e limita ao Renascimento tardio.

CR: Como foi o processo de investigação para este livro, especialmente no que toca às descobertas documentais?

VS: O processo de investigação foi, sem dúvida, um desafio. Grande parte da pesquisa envolveu o acesso a arquivos que permaneciam por explorar: o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora, e a Biblioteca Braamcamp Freire em Santarém, a Igreja do Milagre, o Arquivo Cadaval em Muge, o Arquivo Distrital de Santarém, o Palácio de Vila Viçosa, e muitos outros locais. Esses arquivos trouxeram à luz correspondência, contratos, referências e mais documentos inéditos, que nos permitiram reconstituir relações do tempo de Camões e novos dados sobre figuras importantes do seu tempo com quem se relacionou, como a família Coutinho, por exemplo.

Uma das grandes novidades do livro é o achado de um poema inédito de Camões. Este poema, de caráter picaresco, foi escrito num contexto de boémia, antes de 1553, a partida para a Índia, e revela o lado mais irreverente do poeta. Ao contrário do que se pensava, Camões não estava isolado; ele fazia parte de uma comunidade de literatos que partilhavam ideias e produziam textos em conjunto. Este poema jocoso, um mote com seis voltas, é um exemplo claro disso: foi escrito em colaboração com outros poetas da época, como Diogo Bernardes, Pero de Andrade Caminha e António Ferreira, mostrando o dinamismo literário e as relações literárias boémias que o vate se integrava.

CR: Como é que estas descobertas mudam a forma como vemos Camões hoje?

VS: Estes achados e indagações ajudam a desconstruir alguns dos mitos e lendas em torno de Camões. Tradicionalmente, o poeta tem sido visto como uma figura quase isolada, uma espécie de herói-símbolo solitário do império português. O que este livro revela é que Camões estava inserido numa rede de relações culturais e literárias muito mais amplas e que influenciaram profundamente o seu trabalho. Tem-se lido Camões como poeta isolado do contexto dos seus contemporâneos, como Jerónimo Corte-Real ou Diogo Bernardes, com quem afinal (aqui se mostra) teve mesmo relações. Além disso, o livro propõe uma nova leitura estética da sua obra, inserindo-o nos cânones do Maneirismo. Camões não foi apenas um poeta do fim do Renascimento; ele viveu numa época de grande instabilidade política e religiosa, marcada por guerras e conflitos, em Portugal e no Mundo. O Maneirismo, com a sua ênfase na ambiguidade e no desconforto, é a corrente estética que melhor se ajusta à sua obra.

Camões foi um homem profundamente crítico da sociedade do seu tempo. Ele questionou o mundo em que vivia, como se pode ver nas suas obras, tanto na épica como na lírica e também no teatro e nas cartas. A sua poesia expressa a dúvida, a angústia e o desconforto de viver numa época marcada pela crise que levou ao fim da dinastia de Avis-Beja e pela subsequente união com a Espanha dos Filipes, uma mudança que reflectiu a grande instabilidade vivida no seu tempo. A sua visão do império também não é triunfalista nem apologética, como muitos querem fazer crer. O poeta do Amor, que tem uma espécie de alter ego no seu Velho do Restelo, é um humanista que critica a corrupção, a violência e as injustiças que encontrou nas suas viagens, especialmente no Oriente.

CR: Em relação aos mitos sobre os amores de Camões, pode clarificar algumas das confusões que surgiram ao longo do tempo?

VS: Um dos mitos mais recorrentes, propagado por autores como Hermano Saraiva e Aquilino Ribeiro, é o de que Camões teria tido um envolvimento amoroso com Violante e Joana de Andrade, figuras da casa de Linhares. Outros mencionam, sem fundamento algum, a própria Infanta D. Maria. Na realidade, o amor conhecido de Camões foi por Dona Catarina de Ataíde, aia da corte, e essa relação contrariada, tão bem tratada na sua poesia, levou ao seu desterro para Punhete (atual Constância), e posteriormente para Ceuta. Este é um dado que o livro atesta com base em novos documentos. A relação de Camões com Catarina de Ataíde é muito mais sólida do ponto de vista documental do que as histórias associadas a outras figuras que alguns autores sugeriram erroneamente. Com o estudo de Mário Rui Silvestre, é possível esclarecer melhor a vida amorosa de Camões, mostrando a sua ligação afetiva mais profunda com Dona Catarina de Ataíde e as consequências dessa relação.

CR: O livro também aborda a ligação de Camões a Santarém. Como é que isso contribui para o património cultural da cidade?

VS: A ligação de Camões a Santarém e ao Tejo são aspetos fundamentais deste livro. Santarém, ao tempo a nobre Scabicastro, como o poeta a refere, foi um importante centro cultural durante o Renascimento e o Maneirismo, e a sua relação com Camões é agora reforçada por estas novas descobertas. O livro explora o ambiente em que o poeta viveu, destacando a influência de figuras como a família de Gastão e Gonçalo Coutinho, que apoiou Camões em várias fases da sua vida, e as suas relações provadas com Vaqueiros e outros lugares, caso do paço de Almeirim, de Pernes e Vale Figueira.

Acredito que este livro pode ajudar Santarém a reivindicar o seu lugar como um centro cultural relevante na história de Portugal. Há muitos elementos do património da cidade que ainda estão por valorizar. Santarém tem um legado arquitetónico e artístico de que se destaca geralmente o período do Gótico, mas o seu papel no Renascimento e no Maneirismo também é significativo e merece ser mais explorado. Este livro traz uma nova perspetiva sobre a importância da vila no contexto cultural e artístico do século XVI.

CR: O que falta fazer em termos de preservação do património de Santarém?

VS: Muito já foi feito, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Temos arquivos que ainda não foram devidamente investigados e muitos elementos do nosso património estão mal preservados. Acredito que a preservação do património deve ser uma prioridade, não só a nível nacional, mas também local. As autarquias têm um papel fundamental na valorização da nossa memória histórica e cultural. E esta valorização deve começar nas escolas, com programas educativos que promovam o conhecimento e o respeito pelos bens patrimoniais.

Há também a necessidade de uma maior comunicação entre os investigadores e o público. Muitas vezes, o trabalho dos académicos não chega às pessoas. É preciso criar canais de comunicação que tornem o conhecimento acessível, especialmente para as gerações mais jovens. Isso passa, por exemplo, pela melhoria das infra-estruturas turísticas e culturais, pela formação de guias e pela criação de roteiros culturais que integrem os monumentos e locais históricos de cidades como Santarém.

CR: Como espera que este livro seja recebido pela comunidade académica e pelo público em geral?

VS: Espero que o livro seja lido com uma visão crítica justa. É uma obra que nasce da colaboração improvável entre um escritor e um historiador de arte e se baseia numa base heurística, com profunda honestidade no tratamento das fontes e que traz novas perspetivas sobre a vida e obra de Camões. Acredito que pode inspirar novos estudos e incentivar uma releitura da obra camoniana, não só em Portugal, mas também a nível internacional. Camões é estudado em academias e universidades em todo o mundo, e penso que este livro oferece novas ferramentas para compreender melhor o seu legado.

Além disso, acredito que o livro pode ser um motivo de orgulho para Santarém e para a sua população. A ligação de Camões a esta cidade, onde sua mãe nasceu e ele de certeza teve parte da formação clássica, deve ser mais explorada e valorizada, e este livro é um passo nesse sentido. Esperamos que o público o leia, o critique e que, acima de tudo, o veja como um contributo útil para a compreensão do nosso passado cultural.

CR: Considera que este livro pode "agitar as águas" no estudo de Camões?

VS: Sem dúvida. O livro propõe novas leituras e desafia algumas das visões tradicionais sobre Luís Vaz de Camões. Acredito que vai gerar debate, especialmente entre os estudiosos que têm defendido uma visão mais convencional do poeta. Mas penso que isso é positivo. O estudo de Camões ainda tem muito a oferecer, e este livro é apenas o começo de uma nova fase na investigação sobre a sua vida e obra.

Entrevista a Vítor Serrão: A redescoberta de camões e a sua ligação a Santarém
por Filipe Mendes
in Correio do Ribatejo, 25.10.84, p. 10-11.












Redação: 24.10.2024

2024/09/30

Camões e Santarém

 


Crónicas de Mário Rui Silvestre, in "Correio do Ribatejo" (jan.-abr. 2024)

O POETA DE PORTUGAL NASCEU EM SANTARÉM? 


"Entre janeiro e abril deste ano [2024], em sucessivas crónicas intituladas "Camões - V Centenário: O Poeta de Portugal Nasceu em Santarém" e saídas no 'Correio do Ribatejo', o romancista e historiógrafo Dr. Mário Rui Silvestre desenvolveu a tese de que Luís de Camões (1517 ou 1524?-1579?) era natural de Santarém. 

É certo que o sabemos filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo, «dos Macedos de Santarém», a qual sobreviveu ao poeta, pobre e desvalida, em casa na Mouraria de Lisboa, e que alguns biógrafos (como Severim de Faria) lhe apontam esse berço (a par de Lisboa, Alenquer e Coimbra), mas sem prova concludente.

A pesquisa do autor assenta numa atenta leitura da obra poética, nas relações familiares e de amizade do vate, em provas arqueológicas (caso da pedra de armas por si achada em Vaqueiros), na relação com os nobres Coutinhos, no vínculo com Punhete (Constância) e com o poeta da 'Lusitânia Transformada', Fernão Álvares do Oriente, e - enfim - nuns perdidos 'Comentários (sobre Camões)' da autoria do padre Luís da Silva de Brito, que foi prior da igreja do Milagre em Santarém, homem que era adepto do Prior do Crato e que faleceu em 1630.

Neste cadinho plural de informações assenta uma análise inflamada, erudita, e com abundante recheio de informações cripto-históricas (que, aliás, não desmereciam de uma historiografia contra-factual...). 

Vistas no seu conjunto, as reflexões de Mário Rui Silvestre vêm aclarar a relação de Luís de Camões com a «corte de aldeia» de Vaqueiros (onde seu amigo D. Gastão Coutinho e seu filho D. Gonçalo Coutinho reuniam poetas e 'literati', caso de Diogo Bernardes), com os rios Alviela e Zêzere, com os Vimioso e, em especial, com o amigo poeta D. Manuel de Portugal, sedeado em Vale Figueira, e com os círculos culturais de Santarém, ao tempo um centro importante das artes e letras nas vésperas da tragédia de Alcácer Quibir e da sequente guerra civil gerada pela crise dinástica (a que o amargurado Camões ainda assistiu).

Que daqui se possa inferir com absoluta certeza que o nascimento do vate ocorreu em Santarém, faltará sempre a prova definitiva. Mas certo é que com as pesquisas realizadas, e sem prejuízo da argumentação (aqui e além algo forçada), os saberes sobre a inquieta vivência de Camões, poeta das liberdades, passam a ser melhor esclarecidos."

Vítor Serrão
 in Vítor Serrão | Facebook, 24.04.2024








Fotografia in "Mais Ribatejo"







para saber +



Mário Rui Silvestre

"Camões - V Centenário: O Poeta de Portugal Nasceu em Santarém"

Crónicas, in Correio do Ribatejo (jan.-abr. 2024).















Redação: 30.09.2024

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