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2026/03/01

Camões nas entranhas dos penedos de Patane

A José Estorninho



  "Busto de Luís de Camões - Gruta de Camões em Macau!", 2014  
Macau. - Série de imagens, com a mesma fotografia recolorida
em tons diversos (montagem de imagens da nossa responsabilidade).
por José L. R. Estorninho
In José Luís Estorninho no Facebook, 8 jun. 2014




Onde acharei lugar tão apartado
e tão isento em tudo da ventura,
que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
ou selva solitária, triste e escura,
sem fonte clara ou plácida verdura,
enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
em vida morto, sepultado em vida,
me queixe copiosa e livremente;

que pois a minha pena é sem medida,
ali triste serei em dias ledos
e dias tristes me farão contente.

Luís de Camões
In: Soneto 81, do tomo II de Rimas várias de Luís de Camões,
ed. de Faria e Sousa, 1685.







Redação: 28.02.2026

2024/12/06

O soneto improvável de Camões ou a recriação de Alberto Pimenta

 

Camões, Pimenta and the Improbable Sonnet

por Carlota Simões

talk at the conference 
"Gathering for Gardner" G4G, Celebration of Mind
Atlanta, 2014.



Vídeo, 7:47
in academia.edu











Redação: 6.12.2024

2024/01/21

Aquela triste e leda madrugada,




Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de üa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que, de uns e de outros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões


Fonte:

Lírica completa - II : Sonetos, org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 172.


A lua nova / The New Moon, 1840, por William Turner
Londres, Tate Gallery.


2023/02/13

Camões revisitado por Herberto Helder





Psique reanimada pelo beijo de Eros, 1793

Por António Canova (1757 -1822)

Museu do Louvre, Paris



O MOTE – o soneto de Camões


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh’ alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples, busca a forma.






LUÍS DE CAMÕES
(1524-1580)

In: Camões, SonetosIntrod., fixação do texto, comentário e notas de Maria de Lourdes e José Hermano Saraiva. Mem Martins, Col. Biblioteca Universitária, 37, Europa América, 1985, p. 102.





AS VOLTAS – o poema "Tríptico" (parte I) de Herberto Helder


"Transforma-se o amador na coisa amada", com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.





(1930-2015)
  • O amor em visita. - "plaquette" de 14 p. - Lisboa: Contraponto, 1958.
  • A colher na boca. Lisboa. Edições Ática, 1961.
  • Ou o poema contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
  • [Texto transcrito da Web, confrontando várias fontes]




LEITURAS


O amor revisitado

“Mas importa não esquecer que, tal como os surrealistas incorporam, transformando-a, a tradição petrarquista, Herberto Helder o mesmo fez pela via camoniana, como mostra um poema anteposto a O Amor em Visita, no livro A Colher na Boca, de 1961, em que o republicou. O soneto intertextual e paratextualmente reescrito – o célebre "Transforma-se o amador na cousa amada ... " - insere-se na verdade numa temática petrarquizante, que já tinha tido entre nós uma afloração, antes de Camões, no Cancioneiro Geral. As transformações a partir dele operadas por Herberto Helder são significativas do seu trabalho poiético de mutação das formas: 

"Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro. 
E a coisa amada é uma baía estanque. 
É o espaço de um castiçal, 
a coluna vertebral e o espírito 
das mulheres sentadas."

Como Camões, Herberto Helder poderia escrever: 

"E o vivo e puro amor de que sou feito, 
Como a matéria simples busca a forma." 

É uma forma poética nova que a matéria do amor e do erotismo, de desejo em desejo, sempre busca, numa língua outra, que de metamorfose em metamorfose o poeta reinventa.”

José Augusto Seabra
O amor revisitado num poema de Herberto Helder
Máthesis 6, 1997, Viseu, p. 190.



Camões transformado

“Acresce que o tipo de leitura que Herberto Helder faz de Camões se situa no âmbito de uma transgressão, pois o código do amor idealizado que normalmente se lê no soneto de Camões é aí erotizado, tornando-se subversiva. Por isso, ao desmistificar deste modo o cânone literário, Herberto Helder confronta ainda o leitor com a passividade associada à tradição, e, ativando-a, contribui para a sua transformação.

[...]

... não se trataria apenas de uma leitura desmistificante do amor platónico, mas também uma leitura do próprio processo de busca que o poeta realiza na escrita. E isso faz-se através da posse do texto, esse espaço «baía» onde o amador-poeta se renova e se transforma, com ele, transformando o mundo.”

Rui Torres
Revista Callema, n.º 1 (Outono-Inverno), 2006, 58-64.




Para saber +



    2022/07/28

    De manuscritos antigos, de textos inéditos e, principalmente, do estimar os poemas de Camões


    Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem, 1498-99

    Francesco Francia

    Bologna, Pinacoteca Nazionale.



    2022 é um Ano Camões, pois celebram-se os 450 anos da publicação de Os Lusíadas. A efeméride tem suscitado congressos, colóquios, dossiês temáticos em periódicos, exposições, concertos, maratonas de leitura da epopeia... – vejam-se as Efemérides neste blogue.

    Entre esses eventos, ocorreu a 3 de julho a terceira Conversa dos Capuchos, no âmbito do Festival de Música dos Capuchos. A sessão intitulada O impulso épico de Camões e moderada por Carlos Vaz Marques contou com a presença do poeta e professor universitário Nuno Júdice, autor da coletânea de ensaios Camões: por cantos nunca dantes navegados (Sibila, 2019), e a escritora Isabel Rio Novo, futura autora de uma biografia do Poeta. A atriz Lia Gama deu voz ao poema "Camões dirige-se aos seus contemporâneos" da autoria de Jorge de Sena e a passagens de Os Lusíadas.

    No decorrer da conversa no Convento dos Capuchos, Nuno Júdice leu o soneto “De Luis de Camões, a Christo atado a coluna”, sobre o qual não teria dúvidas da autoria camoniana, mas que teria reservas quanto ao seu ineditismo, carecendo da confirmação de especialistas. Inquirido sobre a possibilidade de publicá-lo algures, anuiu que talvez um dia viesse a fazê-lo.

    Durante a leitura do poema, o professor e investigador Felipe de Saavedra, da Rede Camões na Ásia (RCnA), sentado a meu lado, partilhou a sua surpresa sobre o soneto ser apresentado como inédito, pois reconheceu-o imediatamente. O caso digno de memória teria ficado por aí, não fora o moderador da conversa, Carlos Marques, ter publicado no dia 13 do mesmo mês e na sua página do Facebook o post UM POEMA PERDIDO DE CAMÕES com a revelação de ter sido descoberto “nada mais, nada menos do que um poema inédito de Camões.”

    A leitura desse post de Carlos Vaz Marques a meio do dia, e depois das notícias online disseminadas a partir da agência LUSA (v. lista de principais títulos aqui), motivou-me a reagir com o breve post UM INÉDITO TRIPLAMENTE PUBLICADO no blogue Luís de Camões. Desse modo, após uma conversa informal com o Professor Felipe de Saavedra, confirmei que o soneto de Camões anunciado nesse dia por vários órgãos de imprensa portugueses como "inédito" e recém-descoberto, fora já publicado em pelo menos três instâncias.

    Quanto ao principal desta história e ao mais que se lhe seguiu, o Professor Nuno Júdice tudo evoca no seu artigo agora publicado no Jornal de LetrasUm inédito de Camões: com alecrim de entrada e manjerona à sobremesa (JL 1352, pp. 6-7), e em vez de um texto do genial Poeta, temos já dois, um soneto e um vilancete.


    O balanço é francamente positivo: divulgaram-se os textos, mal conhecido o primeiro, inédito o segundo; elaboraram-se comentários sobre Camões religioso, faceta menos conhecida e esperada; pesquisam-se obras pictóricas e de natureza religiosa relacionadas com os temas presentes, ou inspiradores da conceção da obra camoniana.




    Divulgamos aqui o texto do vilancete publicado no referido artigo do JL, complementado com uma das mais antigas pinturas que encontrámos, até agora, da autoria do artista bolonhês Francesco Francia – "A adoração da Criança” e/ou “Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem”, executada cerca de 1498-99.

    Embora esta obra seja mais conhecida pelo primeiro nome, apresenta também uma segunda cena, a da direita do painel, que expressa a hesitação do Santo em devotar-se a Maria (o leite da Virgem) ou ao filho de Deus (o sangue de Cristo), dualidade que configura o maravilhamento do poema de Camões. Um quadro duplo, duas figuras máximas do Cristianismo, que nos revelam Camões como “Poeta da Fé” (título do estudo e antologia de Mendes dos Remédios. – Coimbra, 1924), seja de uma religiosidade menos ortodoxa ou mais ortodoxa, consoante as interpretações.

    Bom Ano Camões!
    Com revelações, com publicações, com leituras.



    O VILANCETE:


    MOTE

    Duas grandes maravilhas
    de que se espantam os Céus:
    parir Virgem e nascer Deus.


    VOLTAS

    Vede se viu criatura
    tal caso, ou se aconteceu:
    Deus, de que tudo nasceu,
    nascer duma Virgem pura.

    Pois, Virgem, paristes vós
    tanto bem, dai do peito
    leite a quem
    co seu nos dá sangue a nós.

    Ambos ordenais a luz
    que a todo o mundo aproveite:
    Vós só no colo co leite,
    Ele co'o sangue na Cruz.

    Pois, Virgem, nasce de vós
    tanto bem, dai do peito
    leite a quem
    co sangue nos salva a nós.

    LUÍS DE CAMÕES


    Fonte: Biblioteca da Ajuda, Lisboa. – Cota 52-II-42.
    Reproduzido em: JÚDICE, Nuno – Um inédito de Camões: com alecrim de entrada e manjerona à sobremesa, in JL – Jornal de Letras, Ano XLII, n.º 1352, de 27.07 a 9.08.2022, Portugal, pp. 6-7.




    A adoração da Criança
    Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem
    1498-99

    – Tempera em painel, 52 x 169 cm, Bologna: Pinacoteca Nazionale.

    Obra de 

    Francesco Francia, 1450-1517



    2016/11/14

    Se as penas com que Amor tão mal me trata, soneto de Luís de Camões

    Primavera, por Émile-René Ménard (1861–1930)

    Se as penas com que Amor tão mal me trata
    quiser que tanto tempo viva delas
    que veja escuro o lume das estrelas,
    em cuja vista o meu se acende e mata;

    e se o tempo, que tudo desbarata,
    secar as frescas rosas sem colhê-las,
    mostrando a linda cor das tranças belas
    mudada de ouro fino em fina prata;

    vereis, Senhora, então também mudado
    o pensamento e a aspereza vossa,
    quando não sirva já sua mudança.

    Suspirareis então pelo passado,
    em tempo quando executar-se possa
    em vosso arrepender minha vingança.

    Luís de Camões

    Fonte:
    Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de  Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 149.

    2016/06/11

    Transforma-se o amador na cousa amada, - soneto de Camões


    "Mulher Nua numa cadeira de braços vermelha" (pormenor)
    por Pablo Picasso (in www.tate.org.uk)


    Transforma-se o amador na cousa amada,
    por virtude do muito imaginar;

    não tenho, logo, mais que desejar,

    pois em mim tenho a parte desejada.

    Se nela está minh’ alma transformada,
    que mais deseja o corpo de alcançar?
    Em si somente pode descansar,

    pois consigo tal alma está liada.

    Mas esta linda e pura semideia
    que, como um acidente em seu sujeito,
    assim co a alma minha se conforma,

    está no pensamento como ideia:
    o vivo e puro amor de que sou feito,
    como a matéria simples, busca a forma.

    Luís de Camões

    Fonte:
    Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de  Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 297.

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