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2022/01/07

Exposição camoniana nos Paços do Concelho de Lisboa, 1934

Exposição camoneana realizada de 9 a 12 de junho de 1934 nos Paços do Concelho de lisboa por ocasião das Grandes Festas da Cidade. – Catálogo. Lisboa: Serviços de Industriais da Câmara Municipal de Lisboa, 1934. – [74(1) p.].

Exposição camoneana de bibliografia e iconografia

Lisboa, Paços do Concelho, 9 a 12 de junho de 1934

com a colaboração de Afonso Dornelas e José Maria Rodrigues



“Homenagens a Camões integradas nas Festas da Cidade

por Irisalva Moita*


“Quando em 1934 a Câmara Municipal de Lisboa instituiu as Festas da Cidade que, nesse ano e no seguinte de 1935, tiveram brilho desusado, a Comissão então nomeada para as programar e organizar, presidida por Luís Pastor de Macedo, querendo nelas introduzir manifestações de caráter científico e cultural, de forma que estas não só divertissem como também educassem o «bom povo de Lisboa», aproveitando o facto de estas decorrerem no mês de Junho, resolvem introduzir no respetivo programa homenagens a prestar a Luís de Camões.

A inauguração oficial dos festejos de 1934 abriu, no dia 9 de Junho, com uma Exposição camoniana de bibliografia e iconografia, organizada nos Paços do Concelho, com a colaboração de Afonso Dornelas e José Maria Rodrigues, constituindo o seu catálogo um dos mais interessantes e completos repositórios de documentação camoniana entre nós. Seguiu-se, no mesmo dia, uma conferência sobre a vida e obra de Luís de Camões pelo ilustre camonianista Prof. Hernâni Cidade. Entre as cerimónias programadas para as festas de 1935 figurou, no dia 10, a cerimónia do descerramento duma lápide camoniana colocada no Convento de Santana, sobre o local onde se pensa esteve o túmulo de Camões. Por outro lado, a Feira do Livro, atendendo a uma sugestão da Câmara, dedica esse dia aos Poetas Portugueses em homenagem ao maior de entre eles.

Os programas das festas de 1934 e 1935, ilustrados, respetivamente, por Almada Negreiros e Stuart Carvalhais, incluem algumas vinhetas camonianas de grande interesse, cujos originais estão na posse dos Museus Municipais.

Programa das Festas da Cidade de 1934 

— página com ilustração de Almada Negreiros alusiva a Camões.


As Festas da Cidade com a intenção prescrita por aquela Comissão não têm prosseguido, pelo menos com regularidade, mas delas ficou a tradição de a Câmara prestar, no dia 10 de Junho, homenagem ao Príncipe dos Poetas Portugueses, através dessa simples mas tocante cerimónia da colocação, pelo seu presidente em representação da Cidade, dum ramo de flores no monumento do imortal autor de Os Lusíadas.

À devoção de Lisboa pelo culto de Camões, sempre viva e pronta a manifestar-se, foi ao ponto de levar uma Vereação (a presidida por Braamcamp Freire) a propor o dia 1o de Junho para dia da Cidade."

Programa das Festas da Cidade de 1935 

— página com ilustrações de Stuart Carvalhais alusivas a Camões. 






*Fonte:
MOITA, Irisalva – Lisboa e o seu município nas comemorações camonianas, in Revista municipal. Publicação cultural da Câmara Municipal de Lisboa. Ano XXXIII, n.ºs 134-135 (trimestres de 1972), p. 26-27. – [Artigo total, p. 15-30].









2017/07/13

LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA, poema-homenagem de José de Almada Negreiros

Retrato de Camões desenho a pena e mancha a tinta da china, 1934
por Almada Negreiros


LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA



Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
Há de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d’estalar.
Mais do que a vida
há de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
Há de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
— Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há de ficar.
Estas palavras
hão de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar:
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão de gravar.
O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

José de Almada Negreiros  (1893-1970)
















In: Obra completa / Almada Negreiros; org. Alexei Bueno; introd. José-Augusto França. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, pp. 191-193.



Camões salva "os Lusíadas" a nado - imagem por Filipa Canhestro.
imagem (pormenor) que ilustra o poema de Almada, 

In: Poetas de hoje e de ontem, 2007; 6.ª ed., 2014.

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