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2026/03/22

Os Lusíadas na China


  Os Lusíadas na China  
 tradução, disseminação e receção 

  ARTIGO EM REVISTA  

de [Sofia] Minfen ZHANG
U. Estudos Internacionais de Shanghai


"Desde que Os Lusíadas foram traduzidos na China, na década de 1980, têm despertado um crescente interesse tanto no meio académico chinês quanto entre o público em geral.

O presente texto tem por objetivo traçar a trajetória da tradução e publicação de Os Lusíadas na China, analisando a sua apresentação nas obras de referência à luz da história da literatura estrangeira na China, bem como os estudos realizados por académicos especializados e os comentários de leitores comuns, visando assim aprofundar a compreensão sobre a tradução, disseminação e receção de Os Lusíadas na China."
Minfen Zhang 
In: Orientes do Português, 7 (2025), 103-125. | [.pdf

O texto constituiu originalmente a comunicação
apresentada no dia 18 out. 2024 
na U. de Comunicação da China: Faculdade de Estudos Internacionais, Edifício 33
realizado em Pequim a 17 e 18 de outubro de 2024.


Episódio 8, sábado, 21 fev. 2026 | Áudio, 21:00
do programa semana "A língua de todos", dedicado à Língua portuguesa,
e produzido pelo CIBERDÚVIDAS.
Zhang Minfen, professora da U. de Estudos Internacionais de Shanghai, 
analisa a presença de Os Lusíadas na China, 
desde as primeiras traduções nos anos 1980 até às edições integrais.
***
Transmitido também na Antena 2:
Episódio 7, domingo, 22 fev. 2026, às 12h30 | Áudio, 30:05
no programa radiofónico Páginas de Português, da Antena 2
de José Manuel Matias
e realizado pela Universidade Autónoma de Lisboa.
***
Ambas as versões do programas estão reproduzidas na RTP Play
(RDP África e Antena 2).

para saber +


Luís de Camões
Poesia de Camões
Beijing: Academia das Ciências Sociais da China & FCG, 198.

Sofia Minfen Zhang
in: Jornal Tribuna de Macau [online], 17.05.2024

Yixing Xu & Jiafei Wang
O Grande Mestre da Épica Portuguesa: Camões.
Wuhan: Editora da Universidade de Ciência e Tecnologia Huazhong, 2021.

Ning Zhou
"As semelhanças e diferenças entre Os Lusíadas e as epopeias gregas", 
in Ensino de Literatura, (julho 2021), 28-29. 

Yunlong Zhou
"O olhar das Ninfas: sexo, império e imagens da Ásia em Os Lusíadas", 
 in Atas do Seminário Académico 
 "Construção de uma sociedade moderadamente próspera e construção da cultura estética",
2020, p. 94-102. 

Weiming Gu
 “Camões e Os Lusíadas” 
 in Jornal da Universidade Normal Huadong da China. Filosofia e Ciências Sociais, 
vol. 44, n.º 4 (2015), 121-130.

 YAO, Feng 
História do Intercâmbio Literário entre a China e o Ocidente: China-Portugal
Jinan: Editora de Educação de Shandong, 2014.

YAO, Feng
"O poeta Camões: realidade e lenda",
in: Comentários sobre a Literatura Estrangeira, n.º 4 (2012), 103-114.

Pizhi Wei
“Lendo Camões”
in Voz do Rio Amarelo, n.º 24 (2012),108-110

Yongyi  Cheng
A estratégia cultural de precedência do poder ocidental 
na literatura clássica hispânica e portuguesa", 
in: Revista da Universidade de Ningbo. Ciências Humanas, (julho 2011), 1-6. 

Xiangyu Li
"Camões e Os Lusíadas" 
 in https://www.cnki.net (rever!)

SUN, Cheng’ao, "Camões e Os Lusíadas" 
 in https://www.cnki.net (rever!)


Redação: 22.03.2026

2025/11/10

Futuros camonistas chineses

© Conteúdo integrante desta exposição.










Estudantes chineses da UCTM participam no I Congresso do Meio Milénio de Camões
organizado pela RCnA&A, na Fundação Rui Cunha, em Macau, no dia 24 fev. 2024

   Estudos Camonianos Atuais   

  TRABALHOS ACADÉMICOS POR ESTUDANTES CHINESES  

Entre 2019 e 2025, em universidades portuguesas - a Universidade do Minho e a Universidade do Porto, e numa universidade de Macau - a Universidade de Ciências e Tecnologia (UCTM), estudantes chineses do 3.º ciclo (curso de Mestrado) investigaram a poesia lírica de Camões e, no caso da dissertação da mestre Daniela, a receção literária da figura de Dinamene.

As monografias foram redigidas em língua portuguesa; duas tratam problemáticas da tradução  na passagem do texto original camoniano para chinês. Uma terceira tem igualmente como corpus textos da poesia lírica (30 poemas), a partir do qual se indaga acerca da ideia de Beleza articulada com a temática amorosa de acordo com os ideiais neoplatónicos. Quando noutro trabalho se disserta sobre Dinamene, a investigação baseia-se em romancistas portugueses contemporâneos: Mário Cláudio e Maria João Lopo de Carvalho.

E outros trilhos camonianos se espera que sejam percorridos nos anos vindouros.


Yang Dudanjue
 Dissertação de mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: 
Tradução, Formação e Comunicação Empresarial;
orient. Anabela Leal de Barros e Yao Jing-Ming. 
Braga: Univ. do Minho, 2019


Wang Ruoxin 
 Dissertação de mestrado em Estudos Literários, Culturais e interartes
orient. Luís Fernando de Sá Fardilha. 
Porto: FLUP, 2021.


Huang Jingxiao / 黃靖曉 (Daniela)
Dinamene no olhar dos autores portugueses contemporâneos
現代葡萄牙作家眼中的 Dinamene 蒂娜梅
Dissertação de mestrado. 
Orient. Filipe de Saavedra. 
Macau: Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau,
Faculdade de Estudos Internacionais, 2025. 
(Dissertação defendida em julho de 2025, ainda não disponível online).



Liao Jiyang / 廖紀陽 (Henrique)
Um estudo das escolhas lexicais e da transmissão de contexto 
na tradução chinesa por Zhang Weimin das “Odes” de Luís de Camões
 路易士· 德· 卡蒙斯頌歌中文譯本(張維 民版本)的用詞選擇和語境傳達研究
 Dissertação de mestrado. 
Orient. Filipe de Saavedra. 
Macau: Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau,
Faculdade de Estudos Internacionais, 2025. 
(Dissertação defendida em maio de 2025, ainda não disponível online).


para saber +

in Luís de Camões - Diretório de Camonística




Edição: 31.08.2025, atualizado em 6.11.2025.

2024/09/12

O 4.º centenário da morte de Luís de Camões comemorado na China

 

Toda a China: descobrir desvendar entender o mundo chinês / António Graça de Abreu
2 volumes, Lisboa: Guerra & Paz, 2013-2014

"4.º centenário de Luís de Camões comemorado na China

RELATO | do Diário

por António Graça de Abreu
12 SET. 1980


"Nos últimos dias de junho passado tive a honra de participar numa pequena reunião e convívio luso-chinês realizado na Faculdade de Línguas Estrangeiras de Pequim que teve como motivo da comemoração o 4º. Centenário da morte do maior poeta português, Luís de Camões (1524-1580).

Foi um encontro muito simples, mas cujo significado e importância merecem destaque no contexo das relações culturais entre Portugal e a China. Quatro alunos dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas da Faculdade de Línguas Estrangeiras de Pequim disseram um soneto e uma redondilha de Camões, "Alma minha gentil que te partiste" e "Descalça vai para a fonte", em português e numa bonita tradução para chinês.

Vieram a esta Faculdade, o embaixador de Portugal na China, Dr. António Ressano Garcia, o conselheiro da Embaixada, Dr. João de Deus Ramos, a profª. Conceição Afonso, eu próprio, o vice-director da Faculdade e decano dos cursos de Estudos Ibero-Americanos, prof. Liu Zhengquan e, fundamental, as quase quatro dezenas de chineses que na capital da China estudam a língua portuguesa. Sob a égide de Camões, as pessoas encontraram-se, conversaram, deram conteúdo a uma das mais bonitas palavras da língua chinesa, youyi 友 谊, que significa "amizade."

O Embaixador de Portugal na China referiu a satisfação que sentia, por, a propósito de Luís de Camões, se poder encontrar com tantos jovens chineses que estudam português e que no futuro desempenharão um papel importante nas relações não só entre Portugal e a China, mas entre a China e o vasto mundo da língua portuguesa.

Que interesse poderá ter hoje recordar, na República Popular da China, o grande poeta português quando este país se procura projetar no futuro através das "quatro modernizações"?

Os maiores poetas – na China um Qu Yuan, um Li Bai, um Du Fu, em Portugal um Camões ou um Fernando Pessoa – estes, os maiores poetas não morrem, são passado, presente e futuro e continuam, século após século, a ser a voz de todo um povo.

Entender Camões é, quatrocentos anos depois da sua morte, conhecermo-nos melhor, como cidadãos à deriva, ou de pés bem assentes na terra, no embate, no diluir pelo mundo. Vamos ver porquê.

Luís de Camões, fidalgo pobre, valdevinos, desregrado e brigão, apanhado pela engrenagem complexa da sociedade do seu tempo, participou ativamente, até à exaustão, na grande aventura dos Descobrimentos Portugueses. Antes de quaisquer outros povos, os homens do Douro e do Tejo chegariam por mar, às costas de África, América, Índia e também China.

Aqui em Pequim encontrei alguns amigos que eram de opinião que Camões teria sido um precursor do colonialismo português. É verdade que durante o longo governo dos reaccionários Salazar e Caetano, derrubado em 1974, o poeta foi transformado numa espécie de arauto do expansionismo português. De facto, em Os Lusíadas, o grande poema épico da nossa língua, Camões cantou "o ilustre peito lusitano"  e os que "entre gente remota edificaram / Novo Reino que tanto sublimaram." Mas Camões também reconhece, nas últimas estrofes dos mesmos Lusíadas, que o Portugal que cantava estava metido "no gosto da cobiça e da rudeza / duma austera, apagada e vil tristeza". Camões, profundamente humano, nunca rejeitou, antes assumiu plenamente, a contradição das palavras e da vida.

Camões é o português de corpo inteiro, aventureiro, apaixonado e triste, cavaleiro andante errando pelas mais estranhas paragens do mundo, contraditório, lapidarmente humano. É o poeta que traduz, em versos maravilha, o que de bom e de mau se conjugam no génio português. Homem do Renascimento, Camões buscou uma sociedade mais justa. Um campeão dos humildes, "um socialista antes do tempo", como lhe chamou, talvez com um certo exagero, o camonista brasileiro Afrânio Peixoto. Teve perfeito conhecimento dos males do mundo, porque os viveu, estudou e sofreu e diz:

Não me falta na vida honesto estudo
Com longa experiência misturado…

Como afirmou o prof. Rodrigues Lapa, "Camões inseriu corajosamente em Os Lusíadas alguns versos que nos asseguram uma posição político-social de cidadão vigilante:

Vejamos no canto VII de Os Lusíadas:


Também não cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei no ofício novo
A despir e roubar o próprio povo!
Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do rei, severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente.

Camões, um colonialista? Se participou na grande expansão portuguesa pelo mundo, que de resto abriu caminhos ao desenvolvimento da Humanidade, isso deveu-se à dinâmica do período histórico em que viveu. Se é verdade que os Portugueses oprimiram outros povos na sequência dos Descobrimentos, Camões assumiu uma atitude crítica e não foi um elemento passivo capaz de assistir, impávido e sereno, às muitas injustiças cometidas. Se tal não tivesse acontecido, o poeta não teria morrido pobre e miserável, vivendo praticamente de esmolas, de caridade, de amigos.

Como homem do Renascimento, Camões foi o poeta de um mundo novo e diferente, mais amplo, mais vasto, que então começava, se abria todos os homens.

Na sua obra lírica, foi também o grande poeta do Amor, e da negação do Amor. Ninguém como ele, na língua portuguesa, cantou o Amor, a complexidade de quem ama e é amado, as desilusões, o sofrimento, as "memórias da alegria", essa pura paixão tão portuguesa de amar e não amar.

O jovem Friedrich Engels, companheiro de Marx, numa carta escrita a 30 de Abril de 1839 ao seu amigo Wilhelm Graeber, diz que está a estudar a língua portuguesa que "é como ondas do mar sobre flores e prados" e depois confessa-lhe que gosta de "se sentar num jardim com o o sol batendo-lhe nas costas lendo os Lusíadas." O que levaria Engels a gostar de Camões e de Os Lusíadas?

Um grande historiador português deste século, Jaime Cortesão, dá uma das muitas respostas possíveis:

"O português de Camões foi moldadado pelas águas e pelos ventos, foi enriquecido pelas verdades de outras gentes e alumiado pelas estrelas de todos os céus. É o português-tritão que se misturou a todas as ondas e a amargo sargaço dos oceanos; é o português suave que se diria respirar como as velas, ao sopro perene dos alisados; é o português amoroso que lançou os fundamentos do Império no sangue de outras raças; é o português para quem o perigo é o sal da vida e todos s homens são camaradas; e a Pátria, na própria frase do poeta, é toda a Terra."

Em Pequim, Junho de 1980, quatrocentos anos depois da morte de Luís de Camões, portugueses e chineses recordaram o grande poeta que soube moldar o génio de todo um povo nessa língua que, como escreveu Engels, "é como as ondas do mar sobre flores e prados."



In Revista China em Construção, edição em português
Edições de Pequim, setembro de 1980.

Texto reproduzido em:
com o título de post:
"Guiné 61/74 - P19698: Os nossos seres, saberes e lazeres (317): Excertos do 
"meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu
- Parte II: 12 de setembro de 1980: o 4º centenário da morte de Luís de Camões".













Redação: 19.10.2024

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