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2026/02/01

"Um vilancete recém-divulgado de Luís de Camões", investigação de Felipe de Saavedra


Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem, 1498-99
(pormenor) por Francesco Francia. -Bologna, Pinacoteca Nazionale.

"Um vilancete recém-divulgado 
de Luís de Camões"

ENSAIO

da autoria do professor e investigador Felipe de Saavedra
UCTM - Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.

In: Boletim de Estudos Clássicos, 70 (2025), Coimbra, 141-178.



Um poema devocional de Camões

"Foi revelada ao público recentemente uma composição ao divino creditada a Camões, o vilancete “Duas grandes marauilhas / Vede se Vio Creatura”. 

Neste pequeno poema devocional confluem três temas mariânicos, populares nas letras e nas artes da época: o da Virgem lactante com o Menino, o do símile entre o leite e o sangue, e o da lactação dos santos, que foram transmitidos nos hinários e na liturgia, bem como nas hagiografias e nas iconografias bernardiana e agostiniana. 

Os três motivos forneceram a matéria poética com que foi elaborada esta síntese, que dialoga de perto com outro poema de Camões, a “Elegia à Paixam de Christo N. Senhor”, permitindo ampliar o perfil do poeta como compositor de hinos sacros.

Palavras-chave:  Camões,  fluidos  corporais,  poesia  devocional,  diálogo interartes."

Resumo


para saber +







Redação: 22.01.2026

2022/07/28

De manuscritos antigos, de textos inéditos e, principalmente, do estimar os poemas de Camões


Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem, 1498-99

Francesco Francia

Bologna, Pinacoteca Nazionale.



2022 é um Ano Camões, pois celebram-se os 450 anos da publicação de Os Lusíadas. A efeméride tem suscitado congressos, colóquios, dossiês temáticos em periódicos, exposições, concertos, maratonas de leitura da epopeia... – vejam-se as Efemérides neste blogue.

Entre esses eventos, ocorreu a 3 de julho a terceira Conversa dos Capuchos, no âmbito do Festival de Música dos Capuchos. A sessão intitulada O impulso épico de Camões e moderada por Carlos Vaz Marques contou com a presença do poeta e professor universitário Nuno Júdice, autor da coletânea de ensaios Camões: por cantos nunca dantes navegados (Sibila, 2019), e a escritora Isabel Rio Novo, futura autora de uma biografia do Poeta. A atriz Lia Gama deu voz ao poema "Camões dirige-se aos seus contemporâneos" da autoria de Jorge de Sena e a passagens de Os Lusíadas.

No decorrer da conversa no Convento dos Capuchos, Nuno Júdice leu o soneto “De Luis de Camões, a Christo atado a coluna”, sobre o qual não teria dúvidas da autoria camoniana, mas que teria reservas quanto ao seu ineditismo, carecendo da confirmação de especialistas. Inquirido sobre a possibilidade de publicá-lo algures, anuiu que talvez um dia viesse a fazê-lo.

Durante a leitura do poema, o professor e investigador Felipe de Saavedra, da Rede Camões na Ásia (RCnA), sentado a meu lado, partilhou a sua surpresa sobre o soneto ser apresentado como inédito, pois reconheceu-o imediatamente. O caso digno de memória teria ficado por aí, não fora o moderador da conversa, Carlos Marques, ter publicado no dia 13 do mesmo mês e na sua página do Facebook o post UM POEMA PERDIDO DE CAMÕES com a revelação de ter sido descoberto “nada mais, nada menos do que um poema inédito de Camões.”

A leitura desse post de Carlos Vaz Marques a meio do dia, e depois das notícias online disseminadas a partir da agência LUSA (v. lista de principais títulos aqui), motivou-me a reagir com o breve post UM INÉDITO TRIPLAMENTE PUBLICADO no blogue Luís de Camões. Desse modo, após uma conversa informal com o Professor Felipe de Saavedra, confirmei que o soneto de Camões anunciado nesse dia por vários órgãos de imprensa portugueses como "inédito" e recém-descoberto, fora já publicado em pelo menos três instâncias.

Quanto ao principal desta história e ao mais que se lhe seguiu, o Professor Nuno Júdice tudo evoca no seu artigo agora publicado no Jornal de LetrasUm inédito de Camões: com alecrim de entrada e manjerona à sobremesa (JL 1352, pp. 6-7), e em vez de um texto do genial Poeta, temos já dois, um soneto e um vilancete.


O balanço é francamente positivo: divulgaram-se os textos, mal conhecido o primeiro, inédito o segundo; elaboraram-se comentários sobre Camões religioso, faceta menos conhecida e esperada; pesquisam-se obras pictóricas e de natureza religiosa relacionadas com os temas presentes, ou inspiradores da conceção da obra camoniana.




Divulgamos aqui o texto do vilancete publicado no referido artigo do JL, complementado com uma das mais antigas pinturas que encontrámos, até agora, da autoria do artista bolonhês Francesco Francia – "A adoração da Criança” e/ou “Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem”, executada cerca de 1498-99.

Embora esta obra seja mais conhecida pelo primeiro nome, apresenta também uma segunda cena, a da direita do painel, que expressa a hesitação do Santo em devotar-se a Maria (o leite da Virgem) ou ao filho de Deus (o sangue de Cristo), dualidade que configura o maravilhamento do poema de Camões. Um quadro duplo, duas figuras máximas do Cristianismo, que nos revelam Camões como “Poeta da Fé” (título do estudo e antologia de Mendes dos Remédios. – Coimbra, 1924), seja de uma religiosidade menos ortodoxa ou mais ortodoxa, consoante as interpretações.

Bom Ano Camões!
Com revelações, com publicações, com leituras.



O VILANCETE:


MOTE

Duas grandes maravilhas
de que se espantam os Céus:
parir Virgem e nascer Deus.


VOLTAS

Vede se viu criatura
tal caso, ou se aconteceu:
Deus, de que tudo nasceu,
nascer duma Virgem pura.

Pois, Virgem, paristes vós
tanto bem, dai do peito
leite a quem
co seu nos dá sangue a nós.

Ambos ordenais a luz
que a todo o mundo aproveite:
Vós só no colo co leite,
Ele co'o sangue na Cruz.

Pois, Virgem, nasce de vós
tanto bem, dai do peito
leite a quem
co sangue nos salva a nós.

LUÍS DE CAMÕES


Fonte: Biblioteca da Ajuda, Lisboa. – Cota 52-II-42.
Reproduzido em: JÚDICE, Nuno – Um inédito de Camões: com alecrim de entrada e manjerona à sobremesa, in JL – Jornal de Letras, Ano XLII, n.º 1352, de 27.07 a 9.08.2022, Portugal, pp. 6-7.




A adoração da Criança
Santo Agostinho hesitando entre o sangue de Cristo e o leite da virgem
1498-99

– Tempera em painel, 52 x 169 cm, Bologna: Pinacoteca Nazionale.

Obra de 

Francesco Francia, 1450-1517



2022/07/14

UM INÉDITO TRIPLAMENTE PUBLICADO




Um *inédito* triplamente publicado

Em conversa informal com o Professor Felipe de Saavedra, da Rede Camões na Ásia (RCnA) - http://www.asia.pt ficámos a saber que o soneto de Camões anunciado hoje por vários órgãos de imprensa portugueses como "inédito" e recém-descoberto, foi já publicado em pelo menos três instâncias:

Edição princeps:

- em 1968, por Edward Glaser na ed. crítica do Cancioneiro de Manuel de Faria, p. 218.

A partir daí entrou nas edições que se seguiram dos sonetos de Camões:

- por C. Berardinelli na ed. dos Sonetos de 1980, p. 457 e 663.
- por M. L. Saraiva na ed. da Lírica Completa II de 1994, p. 485.

Também se encontra mencionado por Leodegário de Azevedo F. na Lírica de Camões, vol. 1, p. 241.

Vamos pois proceder aqui e agora à quarta edição deste belo soneto:


De Luis de Camões, a Christo atado a colunna


Se misericordia e amor não vos atara,
A corda per sy só se desfizera;
E, se isto deste modo acontecera,
Quem da prizão eterna me livrara?

Se amor, com vos prender, não me soltara,
Em cárcere infernal sempre estivera;
E, se do Ceo esse amor vos não decera,
Quem do inferno ao ceo me levantara?

Por demais forão gemidos nem oferta,
Se amor vos não tivera tão atado.
E cuidão cegos que a corda vos aperta!

E vos de amor estais tam apertado
Que so elle se acende e se desperta
Mais que algos contra vos, por meu pecado.

LUÍS DE CAMÕES

Fonte:
Cancionero recopilado por Manuel de Faria. – Dedicado ao Conde de Haro em 1666, ms., f. 36.
Pontuação modernizada.













Cristo atado à coluna, 1565

Óleo sobre madeira de castanho.
Atribuído a António Leitão.
Museu de Lamego








2022/06/11

CELESTINA EM LISBOA – UMA CARTA DE CAMÕES OCULTA POR 471 ANOS


Epistolário Magno de Luís de Camões vol. 1 – Celestina em Lisboa

por Felipe de Saavedra

Amadora: Canto Redondo, julho 2022.





"Vem aí o primeiro volume do Epistolário Magno de Luís de Camões!"


"Há várias décadas que os estudos camonianos não progrediam no resgate de novos textos e documentos, o que é surpreendente tendo em conta a existência de muitas fontes manuscritas por identificar e publicar. Quando esta edição do «Epistolário Magno de Luís de Camões» por Felipe de Saavedra estiver completa, constituirá um marco inegável nesses estudos.

As catorze cartas contempladas no total dos cinco volumes previstos (doze principais e mais duas suplementares) são apresentadas em texto crítico e com extenso comentário histórico e biográfico.

Elas incluem, para além das cinco epístolas em prosa tradicionais (VII-X, XII), mais três que são estudadas como epístolas (II, III, XI) e outras três que são reatribuídas a Camões (I, IV e IVa). Para mais duas missivas é estabelecida a autoria camoniana pela primeira vez (Ia, V), enquanto uma última, há muito reconhecida como sendo de Camões, permanecia inédita em versão integral (VI), sendo esta a primeira a vir a público nesta série.

O acervo de informações que as cartas de Camões revelam inclui, por exemplo, a cidade onde ele nasceu; como era a vida militar da guarnição portuguesa de Ceuta onde ele serviu, e as queixas dos portugueses contra o capitão da praça; quem eram os seus companheiros de má vida na noite lisboeta, e por que razões foi preso em 1552; o impacto da pandemia da sífilis nas letras europeias e portuguesas; ou como se malcomportavam as diversas tribos urbanas que compunham a colónia portuguesa residente em Goa.

No comentário, o mais extenso até hoje elaborado para o epistolário camoniano, estudam-se aspectos que têm sido pouco contemplados, desde os biográficos – sejam os contornos da sua doença e as circunstâncias precisas da sua morte – aos mais teóricos: a afinidade entre a comédia, a sátira e a epístola pelo elemento dionisíaco que subjaz à sua filosofia de vida e visão do mundo.

O retrato ao vivo que resulta deste assinalável esforço interpretativo não é o de um «novo Camões», nem o de um Camões alternativo ao Camões brônzeo ou marmóreo, dito «oficial». Pelo contrário, quem reemerge destas páginas é o Camões «mais antigo», o original, ainda humano e talvez «demasiado humano», com quem os seus contemporâneos privaram quando ele se achava ainda isento do mito com que os pósteros o iriam depurar e desumanizar."

Fonte: Na página no Facebook da editora Canto Redondo.


VOL. 1 CELESTINA EM LISBOA – UMA CARTA DE CAMÕES OCULTA POR 471 ANOS



"A presente publicação do Epistolário Magno de Luís de Camões, em edição crítica, analítica e exegética, fundamenta-se na escrupulosa releitura das mais antigas fontes manuscritas e impressas, elevando o estudo da epistolografia clássica portuguesa a um novo patamar de exigência científica.

Esta obra em cinco volumes inicia-se com uma missiva inédita, votada ao ostracismo desde 1925. Adicionar quase mil e quinhentas palavras ao corpus camoniano é um feito a que desde há muito não se assistia. E não são meramente mais palavras, e sim uma colorida evocação de Celestina, a alcoviteira nascida da pena de Fernando de Rojas em 1499, que aqui revive na Madama del Puerto, a alcouceira que retorna a Lisboa após ter sido açoutada e banida da cidade.

Nesta extensa crónica das desvivências do submundo de Lisboa, iniciada pela proposição Por q̃ nẽ tudo seja falaruos de siso, Camões denuncia os engodos das toleradas para espoliaram do seu pré os jovens ceitis — mancebos conscritos para a praça militar de Ceuta — e também como as compradiças propagavam a pandemia de sífilis que assolava a Europa. O relato é rematado com a descrição de uma charanga carnavalesca que, às primeiras horas da madrugada, parte do porto de Lisboa rumo aos jardins de Horta Navia, em Alcântara, onde se celebrará um festival báquico.

Enquanto obra destinada tanto a uma audiência académica quanto a um público interessado, este estudo da carta Celestina em Lisboa concilia a erudição filológica, o rigor histórico e a mestria hermenêutica, com um tom ocasionalmente mais jocoso, entremetendo também algum latinzinho para aceder às propostas do próprio Camões."




EPISTOLÁRIO MAGNO DE LUÍS DE CAMÕES – 5 volumes


VOL. 1 CELESTINA EM LISBOA
  • CARTA VI — Por q̃ nẽ tudo seja falaruos de siso

VOL. 2 QUẼ TERA TÃ LIVRE O PENSAMENTO?
  • CARTA I — Huã de v m me deraõ tam guastada
  • CARTA II — Quem pode ser no mundo tã quieto
  • CARTA III — Aquella cuio peito em flama ardido
  • CARTA IV — Por usar costume antigo

VOL. 3 VISITAÇÃO AOS PAÇOS DE VÉNUS
  • CARTA V — Mandarame que lh’escreuesse
  • CARTA VII — Huã vossa me deraõ a qual pello descostume
  • CARTA VIII — Quanto mais tarde vos escreuo

VOL. 4 CÀ, & LÂ MÀS FADAS HA (LETRAS DA ÍNDIA)
  • CARTA IX — Deſejei tanto hũa voſſa
  • SÁTIRA I — Eſte mundo es el camino
  • SÁTIRA II — E hũ q̃ bebia exceßiuamente
  • CARTA X — Esta uai com a candeia na maõ
  • CARTA XI — Aquelle vnico exemplo

VOL. 5 HORA TEMPERAIME LA ESSA GUAITA
  • CARTA XII — Quem ouuiu dizer nunca
  • Cartas perdidas
  • Receção crítica



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