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2026/06/22

Livro comemorativo da fundação da cadeira de Estudos Camonianos



  Livro comemorativo da fundação da  
   Cadeira de Estudos Camonianos   

Edição da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Coimbra : Imprensa da Universidade, 1927.

145, [2] p. (29cm) - Edição comum:
"Desta edição fez-se uma tiragem especial de 20 exemplares
que não entraram no mercado"

145, [2] p. (32,5cm) - Edição especial:
"Desta edição fez-se uma tiragem especial de 20 exemplares."

Um desses 20 exemplares pertenceu ao escritor Alberto Mário de Sousa Costa
que colaborou na obra com o texto "A cadeira de estudos camonianos".


Os discursos proferidos na inauguração da Cadeira de Estudos Camonianos


Em 1924 celebrou-se o IV Centenário do Nascimento do poeta Luís de Camões. Ao longo do ano, a efeméride é assinalada com várias iniciativas e eventos: no Rio Janeiro, é fundada a Sociedade de Estudos Camonianos; em Macau, o poeta Camilo Pessanha publica o seu artigo "Macau e a gruta de Camões" no semanário A Pátria (7 jun. 1924); em Lisboa, inaugura-se em junho a Exposição Camoniana da Imprensa Nacional e, na Faculdade de Letras da Universidade de Lsiboa, é finalmente inaugurada a Cadeira de Estudos Camonianos.

Por vontade lusobrasileira ocorreu a inauguração da Cadeira de Estudos Camonianos, em 4 de novembro de 1924, na Faculdade de Letras de Lisboa. Inicialmente regida por José Maria Rodrigues, será depois lecionada pelo professor Hernâni  Cidade, entre outros que se lhe seguem.

Na data da inauguração da cadeira camoniana foram proferidas várias conferências, que se encontram reunidos no volume Livro comemorativo da fundação da cadeira de Estudos Camonianos, editado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e impresso na Imprensa da Universidade de Coimbra, em 1927.











O Dr. Afrânio Peixoto 
proferiu o discurso 

"A camonologia ou os estudos camonianos"

(p. 1-64).

O Dr. José Maria Rodrigues apresentou a "Lição inaugural da cadeira de Estudos Camonianos: Importância e dificuldade destes estudos" (p. 65-93), publicada um ano depois pela Imprensa da Universidade de Coimbra antes de ser reunida no referido volume comemorativo.


Manuel de Sousa Pinto, professor da cadeira de Estudos Brasileiros, fez o "Elogio do dr. Afrânio Peixoto" (p. 95- 106) na cerimónia do seu doutoramento "honoris causa" durante a inauguração da Cadeira.










Acerca de "A cadeira de estudos camonianos", falaram [Alberto Mário de] 
Sousa Costa (p. 107-126), Pedro José da Cunha, reitor da Universidade de Lisboa - "A inauguração da cadeira de estudos camonianos" (p. 127-132) e J. M. de Queiroz [Veloso],  diretor da Faculdade de Letras de Lisboa - "A fundação da cadeira de estudos camonianos" (Texto escrito em "10 de Junho de 1924", p. 133-141).







O Livro comemorativo apresenta ainda no final a 
"Cópia da escritura de doação" (p. 143-145).


A Faculdade de letras aceitava a doação do benfeitor Zeferino de Oliveira
com a responsabilidade de criar a cadeira de Estudos Camonianos:

"Só quem não teve o prazer de assistir a esta cerimónia, tão modesta e ao mesmo tempo de tão alta e nobre significação, é que se não sentiu enternecido até às lágrimas, ao ver a simplicidade com que o opulento industrial entregava tão importante soma para que o culto camoniano tenha sempre, em Portugal, uma capela votiva, uma cadeira pública, onde se possa ensinar às gerações futuras o que é e o que representa Camões, o cantor da civilização ocidental, como lhe chamou Cervantes. E essa modéstia foi até o ponto de ocultar a hora do seu embarque, dois dias depois, para o Brasil."
J. M. de Queiroz Veloso
diretor da Faculdade de Letras de Lisboa 
10 de junho de 1924
(Texto reprod. em Letras 1927, p. 137)


para saber +


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Redação: 22.06.2026

2025/11/10

Macau e a gruta de Camões, por Camilo Pessanha

© Conteúdo integrante desta exposição.























Camilo Pessanha, 1867-1926

"Camilo de Almeida Pessanha, o mais singular e original poeta simbolista português, apenas viu publicado em vida o livro Clepsydra (1920), que reuniu o essencial da sua produção poética. 
Colaborador fugaz de vários jornais e revistas, viveu os últimos anos da sua vida afastado do convívio dos seus principais companheiros de letras, em Macau, repetindo os seus melhores versos "de memória", como gostava de sublinhar. 
Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro contaram-no entre os seus mestres, estabelecendo-se, através da sua obra, a ponte que em Portugal ligou simbolismo e modernismo."




O Jardim Luís de Camões em Macau, China.

Um vídeo - no Facebook -  que participou no concurso "Falar Macau, falar português",
organizado pelo IPOR - Instituto Português do Oriente em 2019. 


A Gruta de Camões no Jardim

Imagem atual, com o investigador Eduardo Ribeiro
Fonte: página do Autor no Facebook


Macau e a gruta de Camões

por Camilo Pessanha

Dos templos profanos portugueses dedicados ao culto da Pátria e ao culto do génio é sem dúvida um dos mais venerados o modesto jardim de Macau, chamado a Gruta de Camões. Nenhum português absolutamente, nenhum estrangeiro de mediana instrução vem a Macau, mesmo de passagem, cujo primeiro cuidado não seja o de irem em romagem a esse recinto sobre cujo solo é tradição que poisaram os pés do poeta máximo de Portugal – um dos máximos poetas de todo o mundo e de todos os tempos –[,] enquanto o seu génio elaborava algumas das estrofes de bronze dos Lusíadas. E a nenhuma deixa de invadir, apenas transposto o vulgaríssimo portal de quintalejo suburbano, que dá acesso ao local, um sentimento dominador de religiosidade, a todos impondo silêncio, como se do lado de dentro das duas insignificantes umbreiras de granito estivesse aquela tela que existiu à entrada da cartuxa do Bussaco, onde a pintura macerada de um frade fitava imperativa, com o seu olhar imóvel, os que se aproximavam, erguendo verticalmente diante da boca o indicador da mão direita.

Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica há de decerto renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa.

É a sorte de todas as tradições consagradas. A crítica histórica, a história-ciência, positiva e experimental, vem fazendo tábua rasa de quando é anedótico e pessoal, das atitudes esculturais, dos gestos dramáticos, das frases eloquentemente concisas, em que tradições, lentamente evoluídas, haviam definido, em termos quási sempre de inexcedível beleza, um carácter, um acontecimento ou uma época. Para só me referir à história literária, basta lembrar que, demonstradamente, Homero nunca existiu; e que, quanto a Shakespeare, se é, ao que suponho, incontestado ter havido no século XVI a XVII um actor inglês desse nome, não falta já quem lhe negue a autoria de todas e cada uma das tragédias que o mesmo nome imortalizaram e para apreciação de cujo valor não se encontra termo de comparação mesmo nas supremas criações do teatro grego clássico.

Mas discussões são essas de carácter puramente académico, só interessando à investigação erudita. Se as tradições estão bem arraigadas e vivas, não será a demonstração de sua inexatidão histórica que as poderá destruir. É que não foi nas dissertações dos sábios que elas germinaram e medraram, nem é delas, mas do sentimento popular, que tiram a seiva. A Ilíada e a Odisseia hão de chamar-se sempre os poemas homéricos; e quando os infatigáveis sapadores que são os historiadores modernos chegarem à conclusão documentada de que Shakespeare não existiu, ou de que não sabia escrever, nem por isso a série de assombrosas figuras animadas que, no Hamlet, no Macbeth, no Otelo, no Rei Lear, se estorcem nas grandes crises das suas paixões sobrehumanas, traduzindo, ampliadas até ao grandioso, todas as modalidades de afectividade, cessariam de constituir a galeria das personagens shakespearianas. 

Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efémeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heróica da Grécia.

A vitalidade das tradições lendárias, ou quási lendárias, depende essencialmente de dois requisitos. É necessário que o objecto a que se referem se imponha pela sua grandeza à admiração contemplativa de todos os tempos. É-o igualmente que a própria tradição, nos diversos factores que a constituem, seja adequada a esse objecto. As tradições pertencem ao folclore, há nelas, preponderante, um elemento estético; e toda a obra de arte precisa, antes de mais nada, de ser bem equilibrada.

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima que culminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portuguesa do Mar da China ligado ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou. 

Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda atividade portuguesa no Oriente, nesses tempos gloriosos. Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia. Há, com efeito, padrões mortos. São essas inscrições obliteradas em pedra, delidas pelas intempéries e de há muito esquecidas ou soterradas, que os arqueólogos vão pacientemente exumando e penivelmente decifrando, tão lamentavelmente melancólicas como as ressequidas múmias dos faraós.

A fatalidade do determinismo histórico fez que a colonização portuguesa quási exclusivamente se desenvolvesse a dentro dos trópicos, e, com exclusão de Macau, todas as colónias portuguesas, ou ex-portuguesas de clima relativamente temperado são situadas no hemisfério austral. Assim[,] é Macau a única terra do ultramar português em que as estações são as mesmas da Metrópole e sincrónicas com estas. 

É a única em que a Missa do Galo é celebrada em uma noite frígida de Inverno; em que a exultação da aleluia nas almas religiosas coincide com o alvoroço da Primavera – Páscoa florida com a alegria das aves novas ensaiando os seus primeiros voos; em que a comemoração dos mortos queridos tem lugar no Outono. Mais ainda: em Macau é fácil à imaginação exaltada pela nostalgia, em alguma nesga de pinhal, menos frequentada pela população chinesa, abstrair da visão dos prédios chineses, dos pagodes chineses, das sepulturas chinesas, das misteriosas inscrições chinesas, destacando a cada canto em retângulo[s] de papel vermelho, das águas amarelas do rio e da rada, onde deslizam as lentas embarcações chinesas de forma extravagante, com as suas velas de esteira fantasmáticas, e criar-se, em certas épocas do ano e a certas horas do dia, a ilusão de terra portuguesa. Quem estas linhas escreve teve, por várias vezes, (há quantos anos isso vai!), deambulando pelo passeio da Solidão, a ilusão, bem vivida apesar de pouco mais duradoira que um relâmpago, de caminhar ao longo de uma certa colina da Beira Alta, muito familiar à sua adolescência.

Ora a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes no húmus do solo natal. É por isso que os grandes poetas são em todos os países os supremos intérpretes do sentimento étnico. Toda a poesia é[,] em certo sentido, bucolismo; o bucolismo e regionalismo são tendências do espírito inseparáveis. Notáveis prosadores (basta lembrar, dentre os contemporâneos, Lafcádio Hearn, Wenceslau de Moraes e Pierre Loti) têm celebrado condignamente os encantos dos países exóticos. Poeta, nenhum. Os poucos que vagueiam e se definham por longínquas regiões, se acaso escrevem em verso, é sempre para cantar a pátria ausente, para se enternecerem (os portugueses) ante as ruínas da antiga grandeza da pátria e, sobretudo para dar desafogo à irremediável tristeza que os punge. E se na reduzida obra poética colonial desses escritores – Tomás Ribeiro, Alberto Osório de Castro, Fernando Leal (este último nascido na Índia, mas nem por isso menos exilado ali, português como era pelo sangue e pela educação) – se encontram dispersos alguns traços fulgurantes de exotismo, é só para tornar mais pungente pela evocação do meio hostil de inadequado pela sua estranheza à perfeita floração das almas – a impressão geral da tristeza – da irremissível tristeza de todos os exílios. 

Veio toda esta divagação a propósito de dizer que ainda é Macau a única terra de todo o ultramar português, em que se pode ter, até certo ponto, a ilusão de se estar em Portugal, essencial ao exercício por portugueses da sua especial atividade imaginativa... Para concluir contra toda a tradição e contra toda a evidência histórica, que tenha sido escrita ou concebida em Macau uma parte considerável da vastíssima obra poética de Camões? Seria verdadeira loucura.

O génio de Camões alimentado embora exclusivamente da seiva que trouxera da Pátria – da imagem viva da sua paisagem, da lembrança minuciosa e fiel dos seus costumes, da sua história, das suas lendas, das suas crenças, da sua cultura científica e literária – tem pujança bastante para triunfar dos meios mais adversos, para resistir aos mais implacáveis factores de perversão e de atrofia. As suas composições são datadas (indiretamente datadas) dos mais diversos pontos e dos mais inclementes climas – da África e da Ásia[,] por onde no século XVI se estendia o imenso império português e se despendia a exuberante energia da raça portuguesa. Muitas das obras primas do seu lirismo, das mais tipicamente nacionais pelo acentuado tom elegíaco de que estão impregnadas, brotaram na Índia do seu coração saudoso; e uma delas, das mais comoventes e das mais conhecidas, nasceu entre essa penedia sinistra da costa do Mar Vermelho; dessas nuas penedias incandescentes, que escaldam os pés a quem ali desembarca e parecem[,] vistas a certa distância, formadas de escumalha de ferro.

Mas a terrível acção depressiva do clima e do ambiente físico e social dos países tropicais, se não tiveram poder contra a assombrosa vitalidade criadora do poeta máximo, têm-no, todavia, não só para esterilizar em cada um de nós outros, os pigmeus que a quatro séculos de distância o contemplamos, o pouco de aptidão versificadora que algum tivesse, mas ainda para destruir, mesmo nos melhor[es] dotados, a comezinha parcela de imaginação de que é indispensável dispor quem intente evocar a estatura do gigante, o seu esbelto perfil e a sua figura augusta. E, pois que Macau, não só pelas suas condições climáticas mas também como mais remoto padrão da acção portuguesa na Ásia, é o palmo de terra mais próprio para essa evocação se fazer, natural é que, à semelhança do que sucedia com os mais célebres santuários pagãos, situado cada um deles em terra ilustrada por algum episódio da vida da]divindade a que era dedicado, seja em Macau o santuário nacional – pan-lusitano – consagrado ao génio do poeta, e que a Macau a biografia deste particularmente se refira.

É a Gruta de Camões, com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correcção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguirem, há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal, e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então erma, sobre o porto interior, junto das penhas com aparência de dólmen em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze.

Macau, junho de 1924
CAMILO PESSANHA

In: "Macau e a gruta de Camões", in A Pátria [semanário], Macau, 7.07.1924.

Reprodução em:
  • Contemporânea, 5.ª série, nº3 (jul-out. 1926), 116-118.
  • Camões nas Paragens Orientais: textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. -  opúsculo. - Ed. Petrus, 1927.
  • Camões nas paragens orientais. - Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. S.l.: s.n., 1951.
  • Macau e a gruta de Camões. - [Camilo Pessanha]. Macau: Imp. Nacional, 1972.
  • Camões nas Paragens Orientais: textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. - Reedição anastática do opúsculo editado por Petrus em 1927. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau, 1999.

Para saber +

  • RIBEIRO; Eduardo (2020) Camões em Macau: uma verdade historiográficaPref. João Paulo Oliveira e Costa. 2.ª ed., “revista e atualizada”. Lisboa: Mythus de Er. - [1.ª ed., Lisboa: Labirinto de Letras, 2012].
  • RIBEIRO; Eduardo (2018) Camões no Oriente e outros textos. 2.ª ed., Lisboa: e.a.. - [1.ª ed., Lisboa: Labirinto de Letras, fev. 2012].
  • RIBEIRO; Eduardo (2016) Camões in Asia (1553-1570). Lisboa: CCCM.
  • FRANCHETTI, Pauylo - Pessanha e a gruta de Camões. - Texto lido no colóquio “Camilo Pessanha: orientalisme, exil et esthétiques fin-de-siècle”, Universidade Paris Oeste/Nanterre, nov. 2008. - São Paulo: USP.
  • BOTAS, João - [...], in Macau Antigo: a blog about Old Macau.






Redação: 17.02.2023, atualizado em 10.11.2025

2025/04/10

Teófilo Braga explicou em que dia nasceu Camões


Lei que decretou feriado nacional o dia 5 de fevereiro de 1924,
publicada no Diário do Governo, 2.02.1924. | [PDF]


EM QUE DIA NASCEU CAMÕES?

O Dr. Teófilo Braga diz ao "Século" a data do nascimento do grande épico e o significado social da comemoração que por iniciativa do município se vai realizar.



"A comemoração do quarto centenário do nascimento de Camões que o Século foi o primeiro a alvitrar e que se vai realizar por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, é acontecimento de assinalada importância, um acontecimento de tão excecional grandeza, que nem só deve interessar à cidade de Lisboa, que foi berço do imortal épico, mas ao país inteiro, sendo para desejar que esse movimento nacional ao redor de tão glorioso facto correspondesse, internamente ao levantamento dos espíritos, à reação indispensável contra vilíssimos derrotismos e fosse ao mesmo tempo, para todo o mundo culto, como que o afirmativo brado da nossa vitalidade eterna, clarão onde se retemperassem glórias que podem quedar-se adormecidas mas que são imorredouras.

Falar de Camões em qualquer país civilizado é a mais bela forma de falar de Portugal - porque o imortal cantor dos "Lusíadas", pelo monumento literário que nos legou e pelo que este representa na causa da da civilização, é um dos mais seguros expoentes do espírito latino e o que mais alto ergue o nome português.

Como compreender, pois, a quase indiferença, o alheamento que ainda se nota distanciados apenas um mês do quarto centenário do nascimento de um tão belo espírito?!

Como interpretar o silêncio, especialmente daqueles  organismos de feição intelectual que deveriam ser a guarda avançada d'estes movimentos - jamais numa época em que o estrangeiro aproveita todos os pretextos para, à sombra das suas glórias pretéritas ou presentes, retemperar e reavivar o sentimento nacional?!

O apelo do "Século" a todos os portugueses

Todas estas razões de sobra nos pareceram para, do alto das colunas do Século, soltarmos o alerta aos governantes, às instituições científicas e literárias, à generosa mocidade das escolas, para todo o povo de uma maneira geral, porque a cruzada tendente a reacender o culto por Camões é das que devem calar profundamente em peitos portugueses quaisquer que sejam as suas crenças ou ideais.

E para isso o Século quiz ouvir a mais alta figura mental portuguesa, nome de reputação mundial e de uma, especialíssima autoridade em assuntos camonianos: o eminente professor Sr. Dr. Teófilo Braga.

Ninguém melhor do que o venerando cidadão, figura política e mental de primeiro plano, para nos dizer do significado social da festa do centenário - acrescendo às nossas razões mais esta: é que o sábio professor, graças às suas investigações, parece ter encontrado a data certa do nascimento de Luís de Camões, facto importante até aqui imerso em dúvidas e confusões.

A moradia modesta do Sr. Dr. Teófilo Braga, na travessa de Santa Gertrudes à Estrela, não se transpõe com facilidade, porque à velhice, d'uma espartana austeridade, que ali procurou guarida, não sobra tempo para entrevistas de fácil acesso e notoriedade vulgar e porque o sábio ilustre, cuja privilegiada lucidez resiste ao peso dos seus oitenta anos, aproveita, metodicamente, os últimos anos da sua vida para trabalhar ainda, fazendo livros, divulgando ideias com um pensamento moral e tal intransigência de princípios que é um exemplo comovente.

O Sr. Dr. Teófilo Braga vive só, sem família, sem criados; é ele quem, em pessoa, nos vem abrir a porta. E ao tocarmos as suas mãos trémulas, ao olharmos os seus cabelos brancos, ao fitarmos aqueles olhos de um azul desboto esvaído, onde já paira a melancólica sombra da cegueira, somos sacudidos por um frémito de comoção que se intensifica à medida que penetramos naquela casa fria, desconsolada, onde ele vive voluntariamente isolado da humanidade, dessa mesma humanidade a quem ele dedica os últimos momentos da sua vida.

Como Teófilo Braga chegou a uma conclusão

Enquanto o grande mestre completa o jantar que interrompera - uma refeição de criança, de uma exagerada frugalidade - ficamos alguns minutos, mergulhados em silêncio, olhando-o com assombro. Estão ali na nossa frente 65 anos de vida literária, vividos entre canceiras, entre trabalhos, sempre com uma austera intransigência de princípios democráticos que jamais abandonou, quer fosse servindo nos modestos postos de propagandista, vereador ou deputado, ou nos, mais altos cargos da cátedra ou da suprema magistratura da Nação, onde o levaram unicamente as suas virtudes cívicas, os privilégios da sua mentalidade.

Numa época de utilitarismos, faz bem olhar este homem tão diferente dos outros que por aí passeiam inchados de egoísmo e de vaidade... Ao falarmos-lhe de Camões e do fim da nossa visita, o rosto iluminou-se-lhe num sorriso de satisfação; sob o seu bigode branco irromperam, prontamente, palavras d'uma singela lucidez e duma tal clareza que dissipavam as trevas da cegueira, mais nos convencendo de que por detrás daqueles olhos cegos há um craneo prodigioso, onde um espírito eterno crepita como inextinguível vulcão.

— Acerca do nascimento de Camões, tome nota —  diz-nos —  que o grande épico nasceu nesta cidade de Lisboa entre os dias 4 e 5 de fevereiro de 1524, conclusão a que cheguei, correlacionando a data de prognósticos de astrólogos dessa época, com alusões feitas por Camões, na sua obra, a propósito do seu nascimento.

"Já sabíamos —  continua o ilustre professor — pelos assentos da Casa da Índia, feitos numa ocasião em que Luís de Camões esteve para embarcar, que nesta data, em 1550, ele tinha 25 anos, o que fazia supor que nascera em 1525; porém, como o ano eclesiástico começava em abril, havia que averiguar se Camões nasceu depois ou antes deste mês, para assim se determinar se nascera no ano civil de 1525 ou no de 1524.

"Ora numa das canções do autor dos "Lusíadas" encontramos o verso seguinte: "Quando vim da materna sepultura logo estrelas infelizes me falaram". Manifestamente se percebe neste verso — prossegue o Dr. Teófilo Braga — uma alusão que o poeta fazia ao facto de ter nascido sobre os signos de "Pisces" e "Aquarium", «estrelas infelizes», às quais ligava as contrariedades e desventuras que envolveram a sua atribulada vida.

"Esses signos, a que se referem o astrólogo de Carlos V, Crislobal d'Arcos, e o Dr. António de Beja, que por pedido da rainha D. Leonor viúva de D. João II, escreveu um opúsculo contra os juízos dos astrólogos que traziam a população assustada, prognosticando que da junção de «Pisces» e «Aquarium» resultariam um dilúvio e outros cataclismos - esses signos apareceram e fizeram a sua junção, embora sem os prognósticos se cumprirem, entre 4 e 5 do mês de fevereiro de 1524, conforme documentos respetivos. E deste modo, como é com estes signos que Camões declara ter coincidido o seu nascimento, temos a data identificada e podemos concluir que Luís de Camões nasceu em Lisboa entre 4 e 5 de fevereiro de 1524. Quanto à própria naturalidade de Lisboa, numa época em que não existiam registos batismais, pode tomar-se como atestado oficial o testemunho do padre Manuel Correia, pároco da Mouraria, comentador do Poema e íntimo de Camões, o qual afirmou ter sido Lisboa o berço natal desse que foi a maior glória da raça.

Camões e o sentimento nacional

Pedimos ao, Dr. Teófilo Braga algumas palavras sobre significado social do quarto centenário de Camões, prestes passar. Com a mesma lucidez, sem omissão de uma data ou pormenor, ele ditou:
— Assim como em 1880 0 3.º centenário da morte de Camões foi o grande acontecimento nacional que acordou a Nação do seu torpor, esclarecendo a vida e a obra do imortal épico e fazendo deste facto o fulcro radioso que iluminou a consciência nacional e preparou a queda da monarquia e o advento da democracia, assim o centenário que se aproxima pode ser o pretexto para que, numa manifestação enorme, abrasada de sentimento nacional, os homens se entendam, auscultando a vontade do país e aproveitando as virtudes do povo.

"Fez-se, em 1910 uma revolução — prossegue o ilustre professor — mas os seus autores ainda não tiveram uma completa compreensão do momento histórico e uma nítida — quanto possível — visão do nosso destino.

"à sombra de Camões pode e deve iniciar-se a grande obra de engrandecimento pátrio, sem que para a elevação desse pátrio sentimento seja preciso ignorar o evoluir das sociedades, ou desconhecer todas as aspirações justas e realizações de ordem social.

"Camões é um símbolo, e a sua epopeia coloca-nos, universalmente, dentro da moderna civilização, trazendo para Portugal a glória, jamais igualada, de terem sido os portugueses os que primeiro realizaram o reconhecimento dos mundos desconhecidos, através dos mares. Tal é o significado social perante o mundo culto, tal o pensamento que em todos os portugueses deve prevalecer a propósito do quarto centenário do nascimento do homem que é e será, universal e eternamente, o maior título de orgulho e glória para Portugal.

Sobre a maneira de comemorar tal centenário, o Dr. Teófilo Braga entende que à Câmara Municipal de Lisboa cumpre dar-lhe a maior solenidade, pondo em evidência o seu aspeto moral. Pela sua parte, o ilustre professor tem à disposição do Município um trabalho, que está acabando de compor, intitulado: Camões, expressão da Raça e Nacionalidade, especialmente para ser distribuído gratuitamente pelas escolas, por instituições e indivíduos pobres, que o não puderem comprar.

Antes de encerrar, a entrevista que concedeu ao Século, o Dr. Teófilo Braga ditou-nos palavras de fé, de austera intransigência de princípios e de amor ao trabalho —  daquela fé que as suas queixas dos homens não conseguem torvar, daquele trabalho que ele praticamente exemplifica,  mostrando-nos, como ainda está a trabalhar na monografia sobre Camões nos capítulos sobre Romantismo da sua História da Literatura Portuguesa e na composição do romance Uriel da Costa, acerca de um judeu e livre pensador do século XVII  — e tudo isto, indo a caminho dos 90 anos!

Este homem extraordinário, cujos olhos, antes da cegueira, viram florir e tombar essa ala de namorados das Letras Portuguesas, que teve vultos como Herculano, Antero, Camilo, Oliveira Martins, Ramalho, Eça e Fialho, aguarda serenamente a morte, que o encontrará no alto da cumeada que ele ergueu com as suas mãos de obreiro mental, austero sempre, com fé sempre, trabalhando sempre, fazendo desta formosa trilogia a suprema exemplificação de como deve ser engrandecida e servida a linda terra que foi berço de Camões."

Jornal "O Século", 6.01.1924

Transcrição do documento original que integra o acervo 
da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
A imagem digital consta no Arquivo dos Presidentes do MPR,
disponível online em:





Redação: 09.04.2025.

2014/06/10

EFEMÉRIDES CAMONIANAS

Datas celebrativas de Camões

ou importantes para os Estudos Camonianos


Os Anos de Camões correspondem essencialmente a duas datas da sua vida: o nascimento em 1924 e a morte em 1980, e a duas datas da sua obra: Os Lusíadas (1572) e as Rimas (1595). Mas outras mais se poderão destacar, como poderá descobrir infra.

Os Anos Camões foram comemorados ao longo dos tempos, de século em século - os "centenários de". Nos séculos XIX e XX assumiram a natureza de verdadeiras festas nacionais e determinam o aparecimento de uma abundante literatura camoniana. Destacamos o tricentenário da morte, em 1880, e o IV centenário  publicação de Os Lusíadas, em 1972.

O ambiente de interesse e investigação suscitado pelas celebrações, fundamentou a criação do Círculo Camoniano no Porto, aquando do tricentenário da morte do Poeta (1880)  e  motivou a fundação da Sociedade de Estudos Camonianos, no Rio Janeiro, por ocasião do IV centenário do seu nascimento, em 1924.


Séc. XXI

2030 - 450 anos do falecimento de Luís de Camões.

2024 - 460 anos da estadia do Poeta em Macau.

  • Congressos, números especiais de revistas, exposições, etc.

2021 - Criação da RCnA - Rede Camões na Ásia.

2013 - 450 anos do primeiro poema impresso, uma "Ode ao Conde de Redondo".

Séc. XX

1998 EXPO'98 / Exposição Internacional de Lisboa de 1998, cujo tema foi "Os oceanos: um património para o futuro" e que visava comemorar os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, 22 maio a 30 set. 1998.
  • Oceanos [revista], n.º 23 – Agora, peregrino vago e errante, Lisboa (jul.-ago 1995).

1995 - IV centenário da publicação de Rimas.
           Românica: revista de literatura, n.º 4 – O lirismo camoniano [...], Lisboa (1995).
           

1992 - Realização do I Forum Camoniano em Constância, de 7 a 16 de outubropelo CIEC - Centro Internacional de Estudos Camonianos da Associação Casa-Memória de Camões.

1982 - A 24 de novembro, acontece a primeira reunião da Secção Luís de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa.

1980 - IV centenário da morte do Poeta.

1977 - Associação da Casa-Memória de Camões em Constância.

  • Documentação oficial; Edições, Traduções, Estudos; Encontros académicos; Cinema, vídeos; Exposições; Teatro.

  • Exposição histórica itinerante / Arquivo Histórico Ultramarino. - Moçambique.

1963 - Criada a "Revista Camoniana", São Paulo.

1961 - Criada a disciplina de Camonologia nos cursos de Letras
 da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Univ. de São Paulo.

1934-35 – Homenagens a Camões integradas nas Festas da Cidade de Lisboa.

1924 - IV centenário do nascimento do Poeta.
1923
  • Tem início a romagem cívica e cultural anual à Gruta de Camões, no 10 de junho, instituída pelo governador Rodrigo José Rodrigues (1879-1963), mobilizando as escolas e os representantes das comunidades portuguesa e chinesa.
  • De 1923 a 1936, o Professor Edgar Prestage (1869-1951) rege a cadeira intitulada de Camões, especialmente dedicada aos estudos portugueses, no  King’s College, Universidade de Londres. Correspondente de D. Manuel II, foi um precioso apoio na constituição da sua biblioteca de "livros antigos portugueses".

1880 - Tricentenário da morte de Camões.
  • Festas do Centenário de Camões.
  • Bibliographia Camoniana: servindo de catálogo official da Exposição Camoniana do Centenário coordenada pela Commissão Litteraria das Festas. Porto: Palácio de Cristal, 1880.
1872 III centenário da publicação de "Os Lusíadas".
  • Bastante celebrado no Brasil, v. discurso de Napumoceno.

1824/25 - Tricentenário do nascimento de Camões

1772 II centenário da publicação de "Os Lusíadas".
  • Obras de Luiz de Camoens, Principe dos Poetas Portuguezes. Novamente reimpressas, e dedicadas ao [...] Marquez de Pombal [...] por Miguel Rodrigues. Lisboa: na Officina de Miguel Rodrigues, 1772. – 3 tomos; ilustrados.
1752 - Diogo Barbosa Machado publica o abrangente verbete “Luiz de Camoens” em  Bibliotheca Lusitana, vol. III, p. 70-76.

1685-88/9 - Rimas várias…, comentadas por Manuel de Faria e Sousa.

1645 - Editio princeps de El Rei Seleuco (publ. em Rimas, Lisboa 1645).

1639 - Cinquentenário da morte de Camões [até ao séc. XIX pensava-se que a data da morte do Poeta era 1579].
  • Lusíadas…,  comentados por Manuel Faria e Sousa.
1595 - Editio princeps de Rhythmas.

1587 - Impressos pela 1.ª vez dois autos de Camões: “Amphitrioes” e “Filodemo”.

1580 - (10 jun.) Morte de Luis de Camoes.

1572 - Editio princeps de Os Lvsíadas.

1570 - O primeiro retrato de Camões é pintado por Fernão Gomes.

1563 - A ode “Ao Conde do Redondo, viso Rey da Índia”, o primeiro poema lírico de Camões publicado em vida do poeta, em Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da India, de Garcia de Orta.

1524 - (25 fev.) Nascimento de Luis Vaz de Camoens.



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