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2026/08/24

Sonetos a Dinamene, de Guilherme de Almeida






Sonetos a Dinamene

de
Guilherme de Almeida 



Dir. António Ferro, Amílcar Dutra de Menezes
Lisboa: Secretariado da Propaganda Nacional; 
Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa e Propaganda, 1942.



  SONETOS A DINAMENE  


"Entendei que segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos"
Luís de Camões

I

Dama dos olhos verdes, quando outr'ora
A mi viestes esquiva e mui a mêdo,
Eu vos bem-disse, porque amor ignora
Que é grande mal o bem que se vai cedo.

Ora vos ides qual me viestes, e ora
Não mais qual era por aqui me quedo,
Eu na mor desventura e vós, Senhora,
De ledo coração e ânimo ledo.

Se a dor ao infeliz glórias empresta,
Se malfadado fui para o não serdes,
Bem haja a vossa insídia desonesta,

ó Senhora fatal dos olhos verdes!
E bem haja a saudade que me resta
Do muito que vos quis sem me quererdes!

II

Não sei se por virtude ou por fraqueza
Me fui de vós, Senhora, enamorando,
Que de amar só cuidava, mal cuidando
Ter Amor em ser fraco a fortaleza.

Mas tanto que de vós fui dócil prêsa,
Fêz-se-me a vida um mar já mau, já brando,
E igualmente que rindo, suspirando,
Com tanta fé segui quanta incerteza.

Entanto qual me viestes tal partistes.
Meus dias, pelo mal que me fizestes,
Mais fremosos se fazem de tão tristes.

Vós nada me deixais, pois dês que viestes
De mi tanto vos dei, que não pedistes,
Quanto vos eu pedi, que me não destes.

III

Alma que de meu corpo te apartaste,
Corpo que de minh'alma te partiste,
E que dest'arte em dois me repartiste
E n'uma só desdita a ambos juntaste.

Qual vida é igual à morte que inventaste?
Qual morte mais do que tal vida é triste?
Que humano ser tão desumano existe
Que haja sua igualdade em tal contraste?

Ante a razão por que a razão cativa
No próprio cativeiro acha confôrto,
E às vezes se abandona, outra se esquiva,

Chego a quedar-me ante mi mesmo absorto,
Alma sem corpo, que não sei se é viva,
Corpo sem alma, que não sei se é morto.


IV

Naquela soidão, naquela altura
Onde os olhos nos montes apascento,
E é o sonho, no seu doce alheamento,
Mais verde de esperança que a verdura;

Onde a vida adormece, e de mistura
Aos sentidos se afaz o entendimento,
Ali me vos figura o pensamento,
Branda de pensamento e de figura. 

E se vos vejo queda, ou se cuidosa,
Gentil agora, agora desdenhosa,
Fecho, por melhor ver o olhar tristonho,

Que é minha condição êste desejo,
Não de vos ver, mas de sonhar que vejo,
Não de sonhar, mas de vos ver em sonho.

V

Dura pena que dura sem medida
Por um crime d'amor breve e fortuito;
De flor ditosa desditoso fruito,
Este colhido, aquela fenecida;

Lágrima não chorada, que pendida
Ficou à espreita n'um olhar enxuito,
Vendo em tão pouco bem e mal tão muito
Tão curta vida e morte tão comprida!

Como mudar-me posso de lembrar-me,
Se com lembrar-me apenas de mudar-me
Nisso estou ocupando o pensamento t

Sofro mais do que sou do que hei sido,
Pois não é tanto mal o mal sofrido
Como é lembrar o mesmo sofrimento.

VI

Quando na estimação dos meus errores
Ponho o meu aplicado pensamento,
E nisso em que busquei contentamento
Contento-me em buscar os desfavores;

Quando vendo-me estou dos seus rigores
Vencido, e inda feliz do vencimento,
Tenho pena do seu merecimento,
Se é que de pena são merecedores. 

Por o que toca ao sonho, e não à vida
(Que aquele era presente, esta esquecida),
Cuido que adormeci de olhar aberto,

Pois tanto era o que olhava, mas não via!
Tão perto o que era longe parecia!
Tão longe parecia o que era perto!









Guilherme de Almeida






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Redação: 24.08.2026














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