Relicário Perpétuo
ÓPERA
Com libreto de Luísa Costa Gomes
Duração Aprox. 60' | Class. Etária: M/12
AGENDA
Sessões em setembro:
No Teatro Nacional de S. João, no Porto
13 JUN. 2026
No Cineteatro de Loulé
A récita de dia 13 de junho, no Cineteatro Louletano,
é em versão de concerto.
11 JUN. 2026, às 18h30
No Teatro Camões, em Lisboa
10 JUN. 2026, às 16h30 | Estreia
No Teatro Camões, em Lisboa
As récitas de 10 e 11 de junho são precedidas por
uma conversa com Luís Tinoco, Luísa Costa Gomes e Nuno Carinhas,
moderada por Pedro Amaral, Diretor Artístico do TNS.
Créditos:
solistas:
João Delgado Lourenço (Faquir)
Mariana Fabião (Bárbara, a escrava; Cortesã)
Rodrigo Carreto (Gerardo, príncipe de sangue da Índia)
André Henriques (Hipócrita, o Vizir)
André Baleiro (Camões, príncipe dos poetas de Portugal, Salomão, o Rei)
Andrea Conangla (Joana, a Boba; Cortesã)
Camila Mandillo (Catarina, a Santa de Roca; Cortesã)
Produção:
Teatro Nacional de São Carlos
Com o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações
do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões.
Revisitar Camões numa ópera
"A ópera Relicário Perpétuo insere-se no programa oficial das comemorações do V Centenário do nascimento de Camões, e reúne um naipe extraordinário de artistas.
A composição musical é de Luís Tinoco, o libreto, de Luísa Costa Gomes, Nuno Carinhas encena e a maestrina Joana Carneiro dirige a Orquestra Sinfónica Portuguesa.
[...] Relicário Perpétuo assume-se como uma tragicomédia, com um libreto onde cabem e se jogam textos em várias línguas: o papiamentu e o negrillo, línguas inventadas a partir do provençal e do catalão, sendo o português literário seiscentista apenas mais uma língua estrangeira. Nesta ópera, Camões e o relicário das línguas solicitam revisitação perpétua."
Agenda de set. 2026
A tragicomédia humana
"O que guardar, o que deitar fora, o que tem valor - que autoridade poderá ditá-lo? E Camões, qual deles guardar e celebrar? O dos sonetos petrarquistas, o das odes horacianas, o da epopeia virgiliana agora em revisão? O Camões do teatro mal- amado? O das cartas semi-vis? O das sátiras ainda por estudar? Em Relicário Perpétuo estão todos os Camões, o mais que eles podem.
No libreto, o Poeta convoca uma geografia fantasiosa de corte oriental, onde um desamparado príncipe coleciona indiscriminadamente tudo o que lhe vem à mão, numa acumulação insana, incapaz de decidir sobre o seu valor.
Espera o regresso de Salomão, seu pai, sua bússola moral e estética. Naufragado e oprimido nessa ilha encantada que o adora, a corte de Gerardo é a arena onde Camões irá combater pelo seu lugar no cânone, influenciado pelo Vizir que lhe faz ver as vantagens da epopeia.
Trata-se, então, de uma tragicomédia, mais humorística nas cenas de carácter crítico-museológico, mais trágica no tom impaciente de Camões encarcerado nas nossas leituras redutoras.
O libreto tem seis cantores e um faquir mudo. São três vozes masculinas e três femininas, representando algumas delas várias partes. Para além de Camões, príncipe dos poetas de Portugal, temos Gerardo, príncipe de sangue da Índia; Hipócrita, o vizir do Rei Salomão, e o próprio Salomão, que regressa em pessoa para de novo partir no seu projeto de envelhecimento ativo.
As vozes femininas são a da Escrava, uma espécie de factótum de todos, de serviço ao Relicário e não só, A Santa de Roca, uma senhora que tem ouvido absoluto, ouvindo até os sons vindos do futuro; e a Boba Joana, tecendo comentários que vão do popular ao filosófico. A Santa de Roca será também uma cantora e uma Cortesã, Dona Isabel. [...]"
Página oficial do evento
ARGUMENTO
in: Programa de sala, p. 47-53.
PRÓLOGO
"Um Faquir concentra-se para a sua proeza. Corta ritualmente uma madeixa de cabelo. Entra com dificuldade numa pequena caixa, parte a parte, quase todo: a mão não cabe. O Faquir corta a sua mão direita.
Leve, eleva-se. A Escrava, com a sua vara telescópica, vem recolher a madeixa e a mão para o Relicário."
CENA I
ESCRAVA, GERARDO, VIZIR
"Gerardo, Príncipe da Índia, toma um duche purificador antes da sua proeza: vai cortar a orelha mágica do Minotauro, o que lhe permitirá ouvir o som puro. O som puro é absoluto, traz o seu próprio valor, imediatamente reconhecível, é uma orelha transparente que não interfere no que se ouve.
O Vizir entra com notícias do rei Salomão, pai de Gerardo, ausente da corte há vinte anos, de férias num cruzeiro especial ao Brasil. Manda postais ilustrados. Gerardo mostra desagrado pelo desinteresse do monarca na governação. Contava com a sabedoria paterna na discriminação do que é e não é digno de figurar no Relicário.
O Vizir faz o seu trabalho de cortesão, lisonjeando um príncipe sem qualidades. Mas o verdadeiro interesse do Vizir é outro: traz para apreciação uma obra-prima, inacabada, Os Lusíadas, de um tal Luís de Camões, Príncipe dos Poetas, que aportou à ilha e ali se encontra desafortunado.
Gerardo ouve o princípio da epopeia, parece-lhe a Eneida, não vê grande vantagem em ter itens repetidos no Relicário…
Mas, ao Minotauro! Gerardo veste o gibão amarelo, empunha a espada e lá vai ele mutilar o muito sedado bicho."
CENA II
ESCRAVA, CAMÕES, SANTA DE ROCA, BOBA
"A Escrava refresca um Camões assaz entediado. Ele escreve da ilha paradisíaca uma carta de queixas e reclamações contra o destino e o exílio. Embora muito bem tratado por todos, tem saudades da Pátria que o maltratou. A Escrava pede-lhe com modos meigos que escreva antes endechas e vai lembrando as que o poeta escreveu para ela.
Entram a Boba Joana e a Santa de Roca, que vêm «papear», conversar, comentar o projeto do Relicário infinito de Gerardo. Essa Pátria Ingrata de Camões poderá também fazer parte do Museu, como os óculos de Fernando Pessoa? É o presente que fabrica o passado?
As prendas do presente ao futuro, quem as quererá? Mas a Santa de Roca, com seus dotes de Cassandra, ouve vozes… Quem vem lá?"
CENA III
ESCRAVA, CAMÕES, BOBA, SANTA DE ROCA, VIZIR
"O Vizir entra para dizer a Camões que há interesse real na epopeia. Gerardo já está informado do projeto. O Vizir procura convencer o Poeta a escrever, se não os doze cantos da Eneida, pelo menos dez.
Camões continua magoado com a Pátria Ingrata, mas o Vizir acena-lhe com o verdadeiro valor, a verdadeira instituição, o Cânone, muito mais que um Relicário vazio. Uma epopeia é meio caminho andado para a consagração. O Vizir chega a ordenar hierarquicamente os géneros literários: a epopeia, naturalmente, em primeiro lugar; depois, as canções em medida nova; a seguir, a medida velha, a redondilha; o teatro, despiciendo; no fundo da escala, as cartas; pior, só a sátira e a cortesania.
O Vizir manda sair as mulheres para ter com Camões uma charla a sós. Critica um episódio menos digno d´Os Lusíadas, o de Veloso, e a figura de Vasco da Gama, pouco grandiosa. Camões argumenta. Mas, sabendo do interesse do Príncipe, aceita. O Vizir convence-o, enfim, com o canto das sereias, o fatal engodo da Imortalidade."
CENA IV
ESCRAVA, BOBA, SANTA DE ROCA, VIZIR, CAMÕES, GERARDO
"A Escrava dedica-se à limpeza e arrumação possível do Relicário. A Boba procura «desconstruir». O Vizir declara o seu horror à mistura do baixo com o alto, do banal com o sublime. Define o Relicário como «entulho».
Entra Gerardo com a orelha do Minotauro. Lamenta-se da facilidade de mutilar um boi adormecido com valium. Quer logo experimentar o prodígio, manda entrar a Santa de Roca/Cantora e o Autor/Camões. Cantam um excerto da Canção IX, também poema de exílio.
Infelizmente, a orelha do Minotauro não é tão mágica como publicitado, interfere na receção o mugido do bicho sacrificado e Gerardo rejeita-a.
Está desconsolado. Despe o gibão amarelo. Não quer cor, está de luto pela ausência do Pai, deixando-o desamparado num mundo de valores incertos."
CENA V
GERARDO, BOBA, SANTA DE ROCA, ESCRAVA, VIZIR
"Gerardo sente-se, de repente, tomado de fúria passional. A Santa de Roca vem apregoando dúbios dotes proféticos, mas desta vez parece ter acertado: Guerra de Amor! Gerardo deseja-a e despreza-a.
Pede-lhe assistência para a constituição de um Relicário consistente e credível. O que terá valor no futuro? Ou guardamos apenas o que tem valor para nós no presente, deixando às gerações futuras o poder de o inumar?
A Santa de Roca arrisca adivinhar: a ode é eterna e a canção, diz ela. Seguro mesmo, só o vilancico catalão! Gerardo tem dificuldade em acreditar em tal disparate. Mas quem sabe?
Dividido entre o desejo e a desconfiança, Gerardo afasta-se. A Boba monologa sobre os mistérios do passado."
CENA VI
SANTA DE ROCA, BOBA, VIZIR, ESCRAVA, GERARDO
"A Santa de Roca, num acesso filosófico, comenta a natureza estranha do tempo-antes que se torna no tempo-agora. «As coisas», diz ela, citando talvez La Palisse, «antes de serem, não são / Estão depois, com toda a sua estância / Depois, quando são.» A Boba vai comentando, jocosa.
O Vizir aproveita para insistir no valor do que vale: «O bem que é raro é o bem que é bom.» Gerardo irrompe neste «apólogo dialogal». Vem apaixonado, dividido, desesperado. O amor é uma perdição, maldição a evitar, decididamente, experiência da ordem do naufrágio e da tormenta.
A Santa de Roca e a Boba percebem a ameaça viril nos protestos violentamente amorosos de Gerardo que, contraditório, pede à Santa de Roca que escolha ela o que guardar no Relicário. A Santa retrai-se.
Rejeitado, Gerardo volta-se contra o Relicário. Armado de um atiçador de lareira do tempo dos Visigodos, dispõe-se a destruir tudo. Nada tem valor. O Amor é veneno nas veias.
O Vizir grita que se trata da nossa memória coletiva! Da identidade de um povo! Gerardo ignora-o. E acabaria por destruir tudo, se…
Se o rei Salomão, seu pai, não entrasse, muito a propósito, nesse momento. Gerardo ajoelha, quer mimos e conselhos. Salomão não tem paciência, nem se pode demorar. Resolve, à Salomão, cortando cerce, o problema amoroso de Gerardo. Casa-se ele com a Santa de Roca que se vê, assim, arrebatada para uma vida de cruzeiros especiais."
CENA VII
GERARDO, ESCRAVA, VIZIR, CAMÕES
"Junto do Relicário meio destruído, a Escrava vai salvando o que pode. Gerardo está profundamente deprimido, com dúvidas sobre a sua responsabilidade e relação com o Relicário.
Mas há em Gerardo uma nova sensibilidade que a dor carrega, lembra-se da pulseira da mãe, relíquia que ele guarda com saudade… Comove-se à memória da mãe e, mais uma vez contraditório, amaldiçoa o dia em que nasceu, dia entre todos aziago!
A Escrava bem se compadece, mas o psicoterapeuta não tem mesmo vaga nesse dia. Gerardo não aceita, clama que está a sofrer!"
CENA VIII
GERARDO, ESCRAVA, CAMÕES, VIZIR, BOBA, DONA ISABEL
"O Vizir entra com Camões e uma tal Dona Isabel, que tem modos de mulher de vida fácil. Vêm animar Gerardo com um sarau de poesia a mote.
Gerardo amua, está malincónico. Dado o mote, Camões avança para o seu brilharete, Gerardo diz que tanto se lhe dá viver como morrer, o Vizir tenta puxar para baixo o «alto amor» cortês, afirmando que os seus «amores hão de ser pela ativa», e ela, a mulher, a paciente.
Camões lança-se num soneto maneirista sobre a relação paradoxal entre o «baixo» e o «alto» amor. Gerardo sente-se retratado e compreendido, Camões fez mais um amigo.
Música! A Boba quer beber e dançar, «todos amigos para a morte espantar»! Dona Isabel e a Escrava, agora mudada em Cortesã, cantam com a Boba um excerto maroto da Ilha dos Amores, à double entendre.
Gerardo continua ambivalente, mas acaba por ser persuadido a juntar-se à festa. Diz-lhe a Cortesã: «Guardai a boa lembrança!»"
EPÍLOGO
GERARDO, ESCRAVA, CAMÕES, VIZIR, BOBA, DONA ISABEL
"A Boba canta a sua lição de vida, que é a seguinte: é preciso ser matreiro! A morte é sádica e não pode ver ninguém contente por estar vivo! Quando ela se chegar a vós, de foice sinistra, ave de rapina da alegria alheia, vampírica, sorrateira, fazei como a Boba. É fingir que se está triste neste vale de lágrimas, que nunca se viu um dia de sol, nem se acredita que algum dia ele virá… E ela, a Morte, bem enganada, vereis como segue o seu caminho."
ÁLBUM
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| © Foto por Alexandrina Lourenço na sessão do Cineteatro de Loulé. |
 © Foto por Alexandrina Lourenço na sessão do Cineteatro de Loulé.© Foto por Alexandrina Lourenço na sessão do Cineteatro de Loulé. |
para saber +
LCG | Site oficial da escritora Luísa Costa Gomes
NOTÍCIAS
Teresa Carvalho
in SOL, 12.08.2026
Tatiana Bina
in Glosas [online], Notícias breves, 25.07.2025
Cláudio de Pena
in CESEM, Newsletter, março 2025
Carla Alves Ribeiro (texto da entrevista)
in Diário de Notícias [online], 21.01.2025
Redação: 12.01.2026, atualizado em 17.08.2026