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2026/09/01

A construção da imagem de Camões como herói da pátria, por António Martins Gomes

 





"A construção da imagem de Camões como herói da pátria"


de António Martins Gomes

in Revista Minerva Universitária [online], ago. 2025




Camões, o exemplo supremo de patriotismo 

No seu ensaio, António Martins Gomes analisa a mitificação de Luís de Camões como símbolo da identidade nacional portuguesa, percorrendo um período de 200 anos: desde a publicação do poema Camões de Almeida Garrett em 1825 (do qual decorreu o bicentenário em 2025), atravessando a I República, passando pela apropriação nacionalista do Estado Novo no 10 de Junho e a ressignificação democrática pós-25 de Abril em prol das comunidades portuguesas, até ao século XXI, em que se comemora o quinto centenário do nascimento do poeta (1525-2925). Esta efeméride coincidiu com os 50 anos da Revolução dos Cravos, o que a terá, em parte, obscurecido. Projetando o futuro, o autor defende que o desafio reside em desconstruir os mitos nacionalistas sem romper com a genialidade estética da obra, assegurando que o símbolo permaneça vivo e renovado.

"O génio de Camões perdurará ao longo dos tempos"

"Ao longo dos dois últimos séculos, Camões tem sido, portanto, o autor mais usado pelas diversas forças políticas, tanto em regime monárquico como republicano, e o seu exemplo supremo de patriotismo levou diversos autores e artistas a representar alguns episódios da sua vida sob as mais variadas formas de arte, como é o caso da literatura, da pintura, da música ou da escultura. Em pleno século XXI, com a obra deste poeta da diáspora lusa e da miscigenação entre os povos do mundo traduzida nas mais diversas línguas, estudada em várias universidades internacionais, algumas das quais criaram cátedras com o seu nome, e referência incontornável na literatura universal, vários eventos têm celebrado os 500 anos do seu nascimento. Para além de alguns problemas ocorridos com o Comissariado-Geral para as comemorações camonianas em 2024, deu-se também a contrariedade de esta efeméride ter coincidido justamente com os 50 anos da Revolução dos Cravos e da implementação da democracia em Portugal, um evento que ofuscou as comemorações camonianas e lhes retirou algum destaque.

Independentemente de todos os contratempos e constrangimentos, de uma coisa podemos estar certos: continuarão a ser debatidas questões do cânone e do corpus da lírica camoniana, que, segundo Aguiar e Silva, contêm o mais complexo problema textológico de toda a literatura portuguesa; para além disso, continuaremos a abordar, na sua obra, temas como o renascimento, o petrarquismo, o amor, a saudade, a natureza, o destino, a mitologia, a mudança e o desconcerto do mundo; e surgirão novas traduções da obra camoniana para diferentes línguas, bem como múltiplos estudos, ensaios ou biografias.

E a nível didáctico, qual é o lugar destinado a Camões e qual a representatividade da sua obra nos programas e metas curriculares de Português para o ensino secundário? Como estudar este poeta e o que estudar na sua obra? Ensinar Camões a jovens de 14 e 15 anos é, neste século marcado pela globalização, um desafio duplamente complexo: por um lado, a crescente e generalizada desmotivação para a leitura; por outro lado, uma maior heterogeneidade nas salas de aula, com cada vez mais alunos oriundos de vários continentes e nacionalidades, que possuem competências linguísticas, crenças religiosas e contextos culturais muito diversos.

Apesar dos novos desafios que se verificam nas salas de aula ao nível dos perfis assimétricos das novas gerações de alunos, Camões tem resistido às revisões de programas e metas curriculares, e mantém-se inabalável no cânone literário escolar, cujos textos, reconhecidos como modelo edificativo de escrita, contribuem bastante para a educação literária e para um melhor desempenho da escrita e da oralidade. A lírica e a épica camonianas continuarão a ser dadas a conhecer aos alunos do 9º e 10º anos de escolaridade, servindo os propósitos do ensino de literatura, história, retórica, estilística e sintaxe, e os programas escolares continuarão a incluir o texto camoniano, por ser uma grande fonte de estudo gramatical: como classificar e dividir as orações, identificar as figuras de estilo, ou, na métrica, saber distinguir a medida velha do verso decassilábico.

Todos os regimes políticos são efémeros, mas o génio de Camões perdurará ao longo dos tempos. Independentemente das políticas culturais e pedagógicas, o seu filão inextinguível continuará a oferecer novos mares por desbravar na literatura e na arte, e o seu nome estará sempre associado à diáspora dos portugueses e da sua língua. Perante a qualidade insofismável da obra camoniana, continuaremos a espalhar por toda a parte o engenho e arte deste poeta, e a ouvir o português a ser comummente designado como “a língua de Camões”. Enfim, o nosso poeta-soldado, que pela sua obra valorosa da lei da morte se libertou, continuará a ser uma sinédoque de Portugal e uma marca incontornável da cultura portuguesa."

António Martins Gomes



para saber +


Camonista - António Martins Gomes
in e-CAM





Redação: 31.08.2026

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