Num projeto anterior, Zélia Reis Ferreira criou "um acervo de interesse histórico" da capital em parceiria com o Hotel InterContinental de Lisboa. O desafio foi executado em público, à vista dos hóspedes ou visitantes das instações hoteleiras, e culminou com uma coleção de cerca de 50 aguarelas. Os temas das obras abrangeram desde "Olissipo (Lisboa romana), passando por Al-Ushbuna (Lisboa árabe)", pelo "período de 1147, a conquista de Lisboa aos mouros", por 1755, data do "Terramoto de Lisboa, até aos dias de hoje".
Diz-nos a artista (na sua página do Facebook), que a iniciativa permitiu encher o "grande hotel de 5 estrelas de renome iternacional que é o InterContinental de Lisboa com um acervo em exposição criado no local e exclusivo desta grande capital e sua história."
... à vida e à obra do poeta Luís de Camões...
Atualmente, a artista plástica Zélia Reis Ferreira desenvolve um projeto visual contínuo dedicado a retratar momentos fundamentais da vida e da obra épica do poeta Luís de Camões, utilizando a aguarela como principal técnica de expressão.
O conjunto de obras centra-se em episódios biográficos, desde a juventude, o seu encarceramento na Cadeia do Tronco em Lisboa e, sobretudo, a sua trajetória como poeta-soldado por terras do Oriente, onde conhece a sua companheira Dinamene, compõe parte da sua epopeia nos penedos da colina de Patane, em Macau, e o seu conhecido naufrágio quando regressa a Goa, na Índia. Alguns episódios de Os Lusíadas, como o do Velho do Restelo, do GIgante Adamastor ou bélicos, também foram objeto do seu interesse artístico. A coleção pode ser apreciada como uma biografia ilustrada, que transforma em imagens os momentos mais marcantes da vida do Poeta, e como uma ilustração da obra magna do mesmo.
... em aguarelas.
A artista partilha publicamente o desenvolvimento e o processo de criação das suas aguarelas quer no lobby do InterContinental Lisbon quer nas redes sociais, contando com o apoio institucional e a divulgação de entidades como o Hotel InterContinental Lisbon.
Zélia Reis Ferreira sonha e as aguarelas camonianas nascem. De origem angolana e com raízes em Faro, a artista plástica, "uma vez mais" tenta "transcrever para aguarela com um 'olhar angolano' mais uma pequena e parte da História desta "grande nação" Portugal, com uma grande história", diz-nos nos textos que acompanham as suas partilhas artísticas no Facebook.
Tese de Licenciatura apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1926.
Descubra o Porto pelos passos de Luís de Camões
ROTEIRO CAMONIANO NO PORTO
"Este roteiro convida-o a percorrer locais onde a memória do maior poeta da língua portuguesa permanece viva, através de monumentos, ruas, edifícios históricos e espaços culturais que evocam a sua vida, a sua obra e a sua ligação à cidade."
Licenciou-se em Filologia Românica (do curso de Ciências Histórico-Geográficas),
com a tese Camões e o Platonismo, a 29 de janeiro de 1926,
na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Frequentou o curso da Escola Normal Superior de Lisboa,
após o qual seguiu a carreira de professor de liceu.
Foi diretor do Correio do Minho, de 1946 a 1949,
e colaborou noutros jornais: O Comércio do Porto,
Diário Ilustrado e Comércio do Minho.
Colaborou também em muitos revistas portuguesas:
Ocidente, Labor, Revista de História, Barcellos, Quatro Ventos.
E ainda no Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos
e no Boletim da Câmara Municipal do Porto.
É o autor, provavelmente, da primeira tese académica portuguesa
sobre a obra camoniana, com uma proposta inovadora:
Camões e o platonismo: um problema de crítica literária, 1926.
CAMONIANA
(1980) Notas camonianas, Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 24, 3-16. - Há em separata. Texto redigido no "Porto, março de 1980."
(1959) Ao ritmo da vida: estudos e crónicas [PDF]. Braga : [s.n.], 1959. - 159 p. - Ver os seguintes estudos: "Um busto de Camões em Paris", pp. 19-21; "Encontro com Afrânio Peixoto" [em dez. 1936. Texto redigido em "1947"], pp. 83-90.
(1951) A lição de Camões: estudo sobre o valor moral de «Os Lusíadas») [PDF]. Braga: Livraria Cruz. - 45 p.
Encontro com Afrânio Peixoto em Lamego, em dezembro de 1936
"[...] e recordo-me de que eu próprio, um tanto nervosamente, depois de citar Vieira e Aquilino, também exaltei o magnífico cultor da língua portuguesa, o estilista admirável, o mestre do camonismo contemporâneo, a quem pedi licença para oferecer um modesto e despretensioso trabalho meu sobre o lirismo filosófico de Camões."
"Quase como resposta, saía em 1926, dois anos após a publicação da conferência de [Mendes dos] Remédios, uma obra que viria a abrir aqueles caminhos: Camões e o platonismo de Miranda de Andrade, estudo que se conta entre os primeiros trabalhos sobre Camões apresentados a concurso para provas académicas em Portugal.
Sob a influência de Leonardo Coimbra e dos mestres da Faculdade de Letras do Porto, a quem o autor dedica esta tese de licenciatura, Andrade afirmava propor pela primeira vez nos estudos camonianos que o agostinismo fora uma das vias de acesso ao platonismo pelo poeta [pp. 66-77]. Salientando o pioneirismo desta indagação, “Não nos consta que alguém tivesse já abordado o assunto da hipótese que vamos expor” [p. 66], Andrade modalizava que “Não nos persuadimos, todavia, que fôsse a obra de Santo Agostinho a única fonte do platonismo do poeta” [p. 77], admitindo igualmente a via petrarquista: “Dessa forma, por mais duma vez os belos espíritos de Camões e de Petrarca se encontraram: – não só na imitação superior duma arte poética, mas também nas próprias fontes de pensamento e objecto de estudo” [p. 70]."
___ As óperas camonianas de Friedrich von Flotow ___
"Vimos como uma ópera-cómica em um ato [L’Esclave du Camoëns, 1843] se transformou numa ópera em três, e, finalmente, em quatro atos. Depois de um libreto concentrado que, no entanto, apontava para várias pistas, vimo-la transformada em grande espetáculo, em alemão, francês e, na sua versão de maior difusão, em tradução italiana.
Todos os textos enfermam da mesma abordagem superficial de Camões e da sua poesia, mas não deixa de ser curioso que a versão alemã de Putlitz [Indra, das Schlangenmädchen (A rapariga-serpente), 1852] é a que mais revela como o autor se informou da história de Camões, apesar dos seus defeitos como escrita dramática. Situa a ação em Sofala, aproximando-se assim da Ilha de Moçambique onde o poeta na realidade permaneceu, fala da sua vivência em Coimbra, outro dado verídico, a sua estadia em Goa, a morada em Macau que, diz, me ofereceu asilo amigável, para que eu pudesse cantar ali a glória da minha pátria, e é a única das três versões que refere expressamente Os Lusíadas.
Em contrapartida, Alma, l’Enchanteresse [1878], mostra ser uma ópera de grande espetáculo, e creio ter sido esse o objetivo de Henri de Saint-Georges, depois de ter escrito L’esclave du Camoëns, que não resultou no sucesso que esperaria."
"Table thématique de L'Esclave ou Camoëns, opéra comique en 1 acte, paroles de Mr. de St. Georges, musique par F. de Flotow", incluindo 14 fragmentos de pautas musicais anotadas pelo compositor, indicando o início da Abertura e as várias árias da obra (12 peças numeradas de 1 a 7 com números bis e ter)."
"Há apenas quatro personagens: Camões, D. Sebastião, José o estalajadeiro, e Griselda a escrava. Camões, cujos versos são cantados nas ruas de Lisboa, está homiziado na estalagem de José, morrendo de fome.
Griselda, sua escrava, afeiçoou-se a ele e canta à noite disfarçada de cigana sob o nome de Phœbéa, para recolher dinheiro e poder alimentar o infeliz poeta.
D. Sebastião, durante as suas saídas noturnas e boémias, apaixona-se pela cigana e segue-a até a estalagem. Aí encontra o poeta, e como o rei está vestido de oficial, disfarçando a sua condição, vê no seu interlocutor, que não reconhece, um seu par, pois este diz-lhe que também fora militar. A conversa entre os dois não é muito curial da parte de Camões, pois o poeta, também não reconhecendo o seu interlocutor, lança uma diatribe contra o rei, que apoda de desumano, divertindo-se enquanto o povo sofre. E remata com a frase que, modificado o sentido, fechará o círculo da ação dramatúrgica: Eis o reino de um neto de Carlos V! O rei retém-se, sem dar importância à ofensa, e fala-lhe na desconhecida por quem se apaixonou, a mesma que lhe aparece, entretanto, e que Camões apresenta como sendo a sua escrava, que trouxera da Índia, de Goa. O encontro é ensejo para um trio entre Griselda, que conta como se tornou escrava, D. Sebastião, que exalta a sua beleza, e o interesse que tem na tal desconhecida, não reconhecendo ainda que é a mesma pessoa que descobrira nas ruas, e Camões, que reafirma perentoriamente que ela é sua escrava, deixando entrever que está apaixonado sem nomear o objeto do seu amor, o que suscita a réplica de Griselda que, igualmente, fala dos seus sentimentos, sem os desvelar.
Segue-se uma ação quase simultânea: vêm prender Camões, proscrito, que se esconde ajudado por José; Griselda fica a sós com o rei, que se declara e que a intima a pedir a alforria ao amo, para a fazer grande dama de Portugal, pois é ele mesmo o rei. Griselda, aterrorizada, acede, mas pede que, em troca, ele retire a pena ao seu amo, que nomeia como sendo Camões, cantando uma ária onde retoma a história das desventuras do poeta.
O desenlace está próximo, Camões aparece, já preso, D. Sebastião apresenta-o aos presentes como um homem de génio, e para além da liberdade, oferece-lhe o melhor prémio que ele poderia obter, a mão de Griselda, sacrificando assim a sua paixão ao maior génio de Portugal. Camões exclama então: reconheço finalmente o neto de Carlos V."
Estreia no Teatro Imperial e Real da Corte, 18 dez. 1852.
Indra: romantische Oper in drei Aufzügen;
zum ersten Male aufgeführt in dem k. k. Hoftheater nächst dem Kärntnerthor
den 18. Dezember 1852
Text von Gustav Heinrich Gans zu Putlitz; Musik von Friedrich von Flotow.
1853
ARGUMENTO
"Agora é já uma ópera em três atos, a que foi dado o título de Indra em 1852 (publicada em 1853), rebatizada no ano seguinte com outro título mais sugestivo, Indra, das Schlangenmädchen (A rapariga-serpente), que segue nas grandes linhas o texto de Saint-Georges.
Para aumentar o libreto tornando-o mais espectacular, Putlitz acrescenta cinco personagens, desenvolve cenas já definidas no texto inicial, chama para primeiro plano a personagem do estalajadeiro José, a quem atribui uma esposa, Zigaretta, criando cenas pícaras entre ambos, que amenizam o conflito central, o mesmo da peça anterior, utiliza a figura de um oficial, Pedro, que entra também na disputa do amor de Indra, e cria uma personagem exótica, Kudru, uma mulher moura, líder de um grupo de artistas indianos.
Para emoldurar o ambiente exótico em que a peça se deve desenrolar, cria coros de nobres, de marinheiros e da trupe de saltimbancos que acompanham a escrava Indra e a sua dona, a atestar a proveniência indiana da protagonista, encantadora de serpentes, coros que, um pouco à maneira da tragédia grega, pontuam a ação e dialogam com as personagens, até mesmo para introduzir alguns dados ainda não especificados previamente.
Parece estar construída uma base espetacular que justifica o aparato cénico e que, de algum modo, premeia a composição musical de Flotow, talvez o impulsionador da nova criação."
Alma, l'enchanteresse: opéra en quatre actes / de M. de Saint-Georges,
adapté à la scène italienne par A.[Achille] de Lauzières-Thémines [1818-1894];
musique de F. de Flotow...
Alma, L’ Incantatrice: opera in quattro atti,
adattata alla scena italiana da A. de Lauzières.
Paris: Léon Escudier, Calman Lévy, 1878.
ARGUMENTO
Ato I - Em Goa
"Alma deixa de ser encantadora de serpentes e é apenas dançarina numa trupe de saltimbancos, numa cena inicial de grande espetáculo de canto e dança. A esta cena assistem alguns oficiais amigos de Camões, os mesmos que mais tarde se vão cotizar para pagar a viagem de volta do poeta à pátria saudosa.
Depois da ária, que Saint-Georges aproveitou em parte de Indra, dando, neste caso, talvez o único traço oriental da descrição da natureza de uma Goa totalmente imaginada, sabemos logo a relação não declarada entre a escrava Alma e Camões. Este vai comprá-la a Kubli com o ouro que os amigos lhe deram, para a livrar de ser vendida a outro, e os versos cantados pela rapariga vão entretecendo uma possível paixão, nunca explicitada, num diálogo longo que gera uma dramaturgia de tensão sentimental, cujo desfecho se vai dar apenas no final.
Alma é a mesma escrava que agora pertence a Kubli, o chefe da trupe. Há igualmente a cena pícara da discussão entre José e a mulher, agora nomeada Zingaretta. O primeiro ato acaba com a partida clandestina de Camões, que já não tem o dinheiro para a viagem, e de José e Alma que fazem questão de o acompanhar."
Ato II - Em Lisboa, no albergue de José
"No início do segundo ato encontramos, pela primeira vez nas diferentes versões da ópera, Camões definido cenicamente com os atributos requeridos da sua personagem: sentado a uma mesa, escreve. Alma ouve o resultado dos seus versos, que exaltam a pátria e Lisboa e que, evidentemente, não reproduzem nada da poética camoniana. E tal como nas outras versões, Alma faz o mesmo périplo noturno da cidade para angariar dinheiro para o amo.
O grande momento espetacular de conjunto, que em Indra era a saída da igreja, motivo para apresentação da personagem D. Sebastião, que aparecia como magnânimo, passa-se aqui em tempo de Carnaval e o rei, incógnito e grande folião, goza um dia de folia e de diversão: sejamos felizes e busquemos o prazer no amor, exortação que motiva um bolero, composição de Flotow que agradou sobremaneira aos críticos.
Um ritornelo acompanha a cena do Carnaval. D. Sebastião, já no albergue de José, bebe um vinho da Madeira exaltando a dança, a euforia, o amor. E é nesta cena que Zingaretta lhe apresenta o cigarro e o ensina a fumar.
Camões aparece vindo de dentro da estalagem, e dá-se o encontro entre o rei e ele, sem reconhecimento mútuo, repetindo-se a cena das versões anteriores, em que Camões condena as atitudes do monarca. Bebem ambos à pátria e ao rei, que fala da paixão secreta que nutre por uma desconhecida. O aparecimento de Alma desencadeia a querela já conhecida anteriormente na versão original de Saint-Georges, e a altercação leva a que D. Sebastião se fira no punhal que Camões empunha. Alma e Camões fogem, entram os oficiais do rei, que querem ir apanhar o causador da luta, mas D. Sebastião prefere continuar a festa, negligenciando a tristeza e louvando o prazer da noite."
Ato III - Nas ruas de Lisboa
"O terceiro ato abre com o grande espetáculo do Carnaval nas ruas de Lisboa, e não deixa de ser coincidência, mesmo remota, que sugira o desfile até à Orta Navia que Camões descreve na Carta VI (Camões 2022). D. Sebastião mistura-se na multidão. Em dado momento revela a sua identidade, e sugere que continuem todos a divertir-se, como ele que deixa aos ministros a tarefa do governo. Pega num bandolim e canta um bolero, em que mistura Inês e Carmen e amores cruzados, mistura aleatória de nomes que sugerem a Carmen de Prosper Mérimé (Mérimé 1846) e Inês de Castro que vai dançar ao Prado.
Quando volta ao albergue, José pede-lhe clemência para quem o agrediu. D. Sebastião concederia, mas isso compete ao primeiro-ministro, em mais um dado anacrónico. Alma pede a
Camões que fuja, pois o seu contendor era o rei e isso vai custar-lhe a vida. Camões canta uma ária cheia de amargura e quer entregar-se, mas ouve-se cantar na rua, é o povo que entoa os seus versos, o que lhe dá novo ânimo. Mas é tarde demais, os esbirros do rei vêm prendê-lo. Ainda há tempo para Camões e Alma cantarem um pequeno dueto em que finalmente declaram o seu amor."
Ato IV - No porto de Lisboa
"O quarto ato, curto, decorre no porto de Lisboa. Camões está preso. Alma canta uma ária, a historieta de dois homens que amam a mesma mulher, e ela deixa um para ir com o outro, prefigurando o desfecho da ópera que está para breve.
As portas do castelo onde está o seu amado poeta abrem-se quando chega o rei. Este pede a Alma que cante para ele. Ela responde-lhe que não pode estar alegre, quando aquele que ela ama geme no fundo de uma cela. Os prisioneiros saem em fila, algemados, o povo grita pela justiça dos céus, o rei responde que deve punir os criminosos.
Alma reconhece Camões entre os presos e pede clemência para aquele que ama: Ambos fi carão para a História. A sua glória tornar-vos-á imortal, diz ela. O rei, intrigado, pergunta quem é ele. Ao ouvir Alma pronunciar o nome de Camões, honra e glória de Portugal, D. Sebastião, glorifica-o e estende-lhe a mão, enquanto Camões abraça Alma."