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2026/09/01

Zé Povinho e Camões



     O Tricentenário [Zé Povinho e Os Lusíadas], 1880      
Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
In: "O Tricentenário", O António Maria
periódico ilustrado, Ano II, n.º 54, 10.06.1880, p. 189
Reprod. em Hemeroteca Digital
da Hemeroteca Municipal de Lisboa.


"Zé povinho chega quasi a convencer-se de que 
os Lusiadas deve ser uma coisa talvez um pouco superior
à carta constitucional"


A expressão "Zé Povinho e Camões" baseia-se no ensaio de João Medina de 1986, que explora a identidade portuguesa através de dois arquétipos opostos. 

Luís de Camões representa o polo erudito, épico e a grandeza heroica da nação, enquanto o Zé Povinho, criado por Rafael Bordalo Pinheiro em 1875, encarna o povo humilde, a resignação e a resistência satírica. 

A portugalidade é definida pela tensão entre estes dois extremos que contrastam o sublime e o quotidiano.


 "Zé Povinho e Camões: 
 dois pólos da prototipia nacional" 

"Era esse o sentido profundo do Camões do Tricentenário: propor aos Portugueses um espelho mítico onde os homens da pavorosa mediocridade de Oitocentos podiam ver, por entre os reflexos doirados do Quinhentismo defunto, o rosto transfigurado dum Messias por vir, o segundo advento de Camões-Redentor, Encoberto-Descoberto. Assim, pois, o mito setentista do 10 de Junho apontava para a Parusia iminente, o segundo nascimento do Poeta-Pátria, Camões eterno e revitalizado pela fé revigorada dos oitocen-tistas. Aos veios católico-milagreiro e judaico-sebástico juntava-se deste modo a sugestão positivista do culto dos Grandes Homens.

A seu lado, que significava o Zé Povinho, criado cinco anos antes?
Um mito no sentido transfigurador e palingenésico que acabámos de ver como presidindo aos rituais patriótico-republicanos da Missa nacional do Tricentenário? De modo nenhum. O mito criado pelo lápis de Bordalo Pinheiro pretende tão-só dar corpo, rosto, nome e vida, registo civil em suma, a um português "sociológico", real, o Português Tal Qual, o Português como ele na realidade é, no seu sofrido dia-a-dia, diante de todas as albardas e sobretudo da do Poder, o Português Sic, divisado no espelho da Caricatura, segundo a estética "cruel" da Arte Realista: o Português como na verdade é (ou como resultou dos erros que no passado se cometeram e no presente se mantêm como instituições, vícios, hábitos e rotinas, aleijões sociais e políticos, como mentalidade e sociologia), visto negativamente, sem mitificantes transfigurações. Eis Portugal ao espelho, parece dizer Rafael B. Pinheiro, eis como nós de facto somos, quem somos, o que somos.

[...]

Que relação estabelecer, pois, entre estas duas figuras emblemáticas mas, afinal, antitéticas, criadas pelo Setentismo, o Zé e o Camões-1880?

São duas figuras extremas e opostas da figuração do povo, da colectividade nacional, da Pátria, de Portugal: dum lado, a visão realista, caricatural do Português de todos os dias, do português tributado, sovado, burlado e (des)governado, o Zé Povinho; do outro, o Português ideal, produto da reinvenção do melhor que o Passado pátrio produziu, o épico da Glória perimida, assim concitado, como Orfeu, a resgatar a amada Eurídice-Portugal metida nos Infernos pelos maus políticos, o Camões-transcendental que representa, no espelho mitológico dos Valores nacionais, o Português Absoluto, inexistente mas vindouro, impossível mas necessário, o eterno Outro adiado mas sempre esperado, sepulto mas vivo, esquecido pelos Governos mas lembrado pelo Povo — o Messias cujo rosto humano atravessou o mundo sublunar entre 1524(?) e 1580(?), que morreu exemplarmente com a própria Pátria cantada nas suas estrofes imorredoiras, Herança-Profecia deixada aos portugueses vindouros, os que conheceram a dominação castelhana e os que, desde 1640 a 1880, porfiavam em aguardar a chegada do prometido Encoberto.

[...]

Em suma, o Zé Povinho é o Português defeituoso, real, visto pelo Setentismo na vertente realista (ou «negativista») da caricatura (a mesma que via os Acácios, Gouvarinhos, Luísas e primos Basílios nos romances de Eça de Queiroz): o português tal qual, frustrado, passivo, céptico quanto a milagres e redenções, dando o seu gesto brutal como resposta aos profetas e salvadores que lhe prometiam reformas e revoluções; o Camões-1880 é o Português mítico, mitificante, retomado do Romantismo (onde, com Garrett, Domingos Bomtempo e Sequeira, fora sinónimo de herói desterrado, vilipendiado, incompreendido, solitário) e romanticamente ideado como Santo duma nova religião, nacionalista, colonial, mas de barrete frígio, capaz de atrair à barca republicana os que persistiam em sonhar com novas Índias — e Encobertos."
João Medina


     A crónica do centenário, 1880      
Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
In: "O Tricentenário", O António Maria
periódico ilustrado, Ano II, n.º 55, 17.06.1880, p. 201.
Reprod. em Hemeroteca Digital
da Hemeroteca Municipal de Lisboa.

para saber +


João Medina
"Zé Povinho e Camões: dois pólos da prototipia nacional"
in: Revista Colóquio/LetrasEnsaio, n.º 92 (jul. 1986), 11-21.





Redação: 31.08.2026

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