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2026/08/02

Ninfas, Nereidas, Sereias, Tritões e as Tágides




  AS NINFAS EM CAMÕES  




Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,
[...] Nunca a noite entretanto, nunca o dia,
Verão partir de mi vossa lembrança".
Luís de Camões, soneto

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
[...] Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
Luís de Camões
in Os Lusíadas, Canto I, est. 4-5

Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Luís de Camões
in Os Lusíadas, Canto V, est. 56





Ninfas, Nereidas, Sereias, Tritões  e as Tágides

Os termos pertencem à mitologia e ao folclore, sendo frequentemente confundidos por estarem ligados ao meio aquático e à fantasia. No entanto, a sua origem na mitologia grega clássica revela diferenças muito claras de hierarquia, anatomia e comportamento.

O significado de cada termo:

As Ninfas

São seres divinos secundários na mitologia grega que personificam as forças da natureza. Viviam na Natureza conforme era conhecida pelo Homem e não no Olimpo. São, pois, divindades associadas à terra e à água. Elas são sempre femininas, jovens e ligadas à fertilidade e à beleza. 

O termo "ninfa" é uma categoria ampla: 
  • as Hamadríades - ninfas incorporadas nos carvalhos, árvores que são dedicadas a Zeus;
  • as Dríades - ninfas cuja vida também estava ligada aos carvalhos;
  • as Oceânides - filhas de Tétis e de Oceano;
  • as Napeias - ninfas das florestas e dos vales;
  • as Nereides, filhas de Dóris e de Nereu e ninfas dos mares;
  • as Melíades - ninfas dos freixos;
  • as ninfas nascidas da união dos rios com outros elementos: as Náiades, ninfas dos riachos e dos ribeiros; as Potâmias, ninfas dos rios; as Pegeias e as Creneias, ninfas das nascentes e das fontes; as Limneidas, ninfas das lagoas e dos lagos.
  • as Oréades, as nifas das montanhas.

As Nereides ou Nereidas

São as 50 filhas do deus marinho Nereu, um velho pacato, justo, benévolo e sábio que representava a calma e serenidade do mar.
Este grupo específico de ninfas do mar habitava o palácio subaquático do pai e, gentis e generosas, as ninfas do mar estavam sempre prontar a ajudava os marinheiros a enfrentar tempestades e perigos domar. 

As Nereidas são representadas com longos cabelos, entrelaçados com pérolas; caminham sobre golfinhos ou cavalos-marinhos e trazem à mão ora um tridente, ora uma coroa, ora um galho de coral. Por vezes, apresentam-se com metade mulher - metade peixe.
A mais famosa é Anfitrite, a esposa de Poseidon.

As Nereidas, 1902 - por Gaston Bussière
© em Wikipédia.


As Sereias

Sereia (ou sirena ou sirene) é uma figura mitológica, presente em lendas que servem para personificar aspetos do mar ou os perigos que ele representa. Quase todos os povos que dependiam do mar para sobreviver, tinham alguma representação feminina que enfeitiça os homens até se afogarem.

Na mitologia grega original, eram monstros híbridos com corpo de pássaro e cabeça de mulher que atraíam os marinheiros para a morte nas rochas através do seu canto hipnótico. Apenas a partir da Idade Média o folclore europeu fundiu o seu mito com o de outras criaturas, transformando-as em mulheres com cauda de peixe.

     Sereia. - por José Faria (1940-)     
© Imagem em José Faria | Facebook, 28.09.2022


Uma das mais antigas referências à sereias surge através do deus Dagon ou Dagan, constituído por uma parte superior humana e uma parte inferior de peixe. Este deus remonta à antiga Mesopotâmia e terá trazido o conhecimento da agricultura aos habitantes de então.

O deus Dagan remonta à antiga Mesopotâmia

Os Tritões

Um tritão é a representação masculina de uma sereia. Originalmente, Tritão era um deus grego específico, um deus marinho — o filho de Poseidon e Anfitrite. Com o tempo, o termo passou a representar toda uma linhagem de criaturas masculinas metade homem e metade peixe que serviam como guardiões dos mares.

É um fiel servidor dos seus pais, atuando como seu mensageiro e serenando as águas do mar para que a carruagem de Poseidon deslize com segurança. Para tal ele usa búzios como trombetal, produzindo assim uma música apaziguadora das águas.

No Canto VI d'Os Lusíadas (est. 16-19), Camões descreve um Tritão.


     Tritão. - Litografia, por José Faria (1940-)     
© Imagem em José Faria | Facebook, 29.08.2024


As Tágides

São as ninfas do Tejo invocadas por Camões em substituição às musas clássicas do Pindo ou de Helicone (como Calíope), aportando um caráter nacional e pessoal à inspiração épica.

Na Invocação da sua epopeia (Canto I, est. 4), o poeta pede a estas ninfas inspiradoras um "som alto e sublimado" para cantar os feitos dos navegadores portugueses.


Resumo comparativo

CriaturaO que sãoAnatomia clássicaHabitat principal
NinfasDivindades menores da naturezaMulheres humanas belasFlorestas, rios, montanhas e mares
NereidasUm tipo específico de ninfa do marMulheres humanas (por vezes com corais)Mar Mediterrâneo / Profundezas
SereiasCriaturas mitológicas sedutorasMetade pássaro (Grécia) / metade peixe (Idade Média)Ilhas rochosas e oceanos
TritõesDeuses/criaturas marinhas masculinasTronco humano e cauda de peixeProfundezas do oceano
  Tágides  Deusas que são Musas        Mulheres humanas belas          Rio Tejo
                 inspiradoras           



  As ninfas na receção artística de Os Lusíadas 
ao longo dos tempos  


  "Ilha dos Amores", 2026 - Seda, pigmentos minerais on silk; 80 cm 
por Kit Man Leong


   "E vós,  Tagides minhas, [...], tendes em mim um tal engenho ardente..."   
Da série "Camões ". Porto, 2026 - Tinta da china sobre papel, 21 x 14 cm
por Amaro della Quercia 
© Imagem em: Ricardo Hogan Antiguidades | Facebook, 28.04.2026


 "Ó Ninfas, mais fermosas do oceano", 2024?. - òleo sobre tela, 120x150  
por Norberto Nunes
© Imagem em: Norberto Nunes | Facebook, 11 jun. 2024
 

  "Invocação das Tágides com braçadeiras e bóia", 2019. -  Acrílico sobre papel, 1,5x2,3m  
por Diogo Barros Pires  
© Imagem em: Diogo Barros Pires | Facebook, 28.06.2020
 

          "Tágides". - por Nadir Afonso          


     Ninfas. - por José Faria (1940-)     
© Imagem em José Faria | Facebook, 24.01.2024




          As Tágides de Camões, c. 1980. - Tela em acrílico, de Luís Noronha da Costa         
Espaço museológico da Casa-Memória de Camões em Constância.

Um espelho onírico indefinido

"A grande tela de Noronha da Costa [1942-2020] [...], reflecte um cânone muito pessoal, uma técnica e uma típica indefinição das imagens que tornaram o seu nome e obra tão valorizados pelos críticos de então (caso de José-Augusto França).
É originalíssimo, de facto, o modo de desmaterialização que sugere através das possibilidades luminosas do acrílico, explorando uma dimensão onírica a que eu chamaria neo-maneirista, em que se produz a dissolução do real.
Em oposição aos naturalismos definíveis, Noronha buscava sempre esse poderoso efeito de criador de 'imagens de imagens'. Assim percebeu a poesia de Camões, a partir desta espécie de eco sábio em que as formas das tágides e a atmosfera bucólica do Médio Tejo se cruzam como num jogo de espelhos."
Vitor Serrão


         "As Ninfas do Tejo ", c. 1970. - Desenho sobre cartão. Chamusca          
por António de Oliveira Bento

Uma visão poética do Médio Tejo

"Nesta pintura "As Ninfas do Tejo ", António de Oliveira Bento não se limitou a representar uma paisagem inspirada por um verso de Camões. Fez muito mais do que isso: deu forma a uma convicção profundamente sua, nascida da observação, da cultura que sempre procurou em vida e da sua íntima ligação à nossa terra ribatejana.
Entre os salgueiros inclinados sobre as águas serenas, que ele tão bem conhecia, na delicadeza das figuras femininas que emergem da natureza que pintou, e na luz dourada que envolve toda a sua composição, respira uma visão poética do Tejo, tão própria dele, que é simultaneamente artística e filosófica."
Joaquim José Duarte Garrido
no Facebook, 13.06.2026

O jogo amoroso imaginado por Camões

"É absolutamente desconhecido o desenho sobre cartão que o jornalista António de Oliveira Bento (1924-1982) realizou na Chamusca dos anos 70 do século passado e cujo conhecimento devo ao amigo Joaquim Garrido. O estudo mostra-nos, em interpretação livre, descomprometida e por certo ingénua, o jogo amoroso imaginado por Camões e que, visto como liberdade poética tolerável, passou nos crivos da censura inquisitorial.

O autor, que foi director do Jornal da Chamusca e figura destacada na sociedade local, foi também artista amador de certo mérito. António de Oliveira Bento não deixou de dar a esse momento emblemático do poema épico uma feição simbólica localizada: é o Médio Tejo que avulta como pulmão glorioso da saga de Camões, e a Ilha dos Amores situar-se-ia entre os mouchões da idílica paisagem tagana do Ribatejo!
O desenho pertence ao espólio deste jornalista e merece estudo e exposição regional."
Vitorr Serrão



 Momento do encontro entre caçador (marinheiro) e “presa” (ninfa) na Ilha Enamorada  
Painel de azulejos, no Hotel do Buçaco
© Imagem em Az - Rede de Investigação em Azulejo | Facebook, 10.02.2023


   Tágides, 1940 - Esculturas de Diogo de Macedo  
na Fonte Monumental, Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa
© Imagem em Tágides, na Wikipédia.


Vieira Portuense

José Malhoa


          "Camões e as Tágides", 1894 - Óleo sobre tela, 243 x 293 cm | N.º INV. 2463           
por Columbano Bordalo Pinheiro 
O artista inspirou-se na Invocação de Os Lusíadas (Canto I, est. 4),
parte incial onde o poeta pede inspiração às ninfas do Tejo.
Camões está sentado num rochedo da Praia do Restelo, com a Torre de Belém ao fundo.
O Poeta recebe o estímulo das Tágides ou ninfas do Tejo para narrar a epopeia lusitana.
© Imagem em: Museu Nacional de Grão Vasco | Facebook, 10 jun. 2024
 



[...]
As decorações do Salão Camoniano no Centro Real Português de Santos, 1909
a cargo dos pintores espanhóis António Fernandez e João Bernils, 
inspirados nas estampas de Desenne.


 "As Nereidas" | Revista "O Occidente", 15 de abril de 1880 
© Imagem em: Padrão dos Descobrimentos | Facebook, 23.09.2022
 ·



Gravura de Alexandre-Joseph Desenne 
para a ed. do Morgado de Mateus, 1817


"O autor que primeiro refere as Ninfas do Tejo foi, todavia, 
o humanista eborense André de Resende 
que, numa anotação ao seu poema 'Vicentius Levita e Martir' (1545), 
a propósito da morte de D. Beatriz de Saboia, 
já aí evoca e nomeia as tágides."
Vitor Serrão


ANTOLOGIA

As Ninfas do tejo

"As Ninfas do Tejo são um dos mais controversos temas da epopeia de Camões. No Canto IX de Os Lusíadas, a Ilha dos Amores desenha-se como espécie de prémio que Vénus oferece ao Gama e seus argonautas no termo da viagem iniciática, momento a que não faltará mesmo, em áspide derradeiro, a revelação da Máquina do Mundo.

O encontro com Tétis e as Nereidas, na sua carga de sedução e erotismo mais ou menos explícito, suscitou também o talento dos artistas: conhece-se a bela gravura de Alexandre-Joseph Desenne para a edição do Morgado de Mateus (1817) e, entre outras, as criações de pintores como Vieira Portuense, Columbano Bordalo Pinheiro e José Malhoa, sem esquecer as decorações do Salão Camoniano no Centro Real Português de Santos (1909), a cargo dos pintores espanhóis António Fernandez e João Bernils, inspirados nas estampas de Desenne.

É absolutamente desconhecido o desenho sobre cartão que o jornalista António de Oliveira Bento (1924-1982) realizou na Chamusca dos anos 70 do século passado e cujo conhecimento devo ao amigo Joaquim Garrido. O estudo mostra-nos, em interpretação livre, descomprometida e por certo ingénua, o jogo amoroso imaginado por Camões e que, visto como liberdade poética tolerável, passou nos crivos da censura inquisitorial.
O autor, que foi director do Jornal da Chamusca e figura destacada na sociedade local, foi também artista amador de certo mérito. António de Oliveira Bento não deixou de dar a esse momento emblemático do poema épico uma feição simbólica localizada: é o Médio Tejo que avulta como pulmão glorioso da saga de Camões, e a Ilha dos Amores situar-se-ia entre os mouchões da idílica paisagem tagana do Ribatejo !
O desenho pertence ao espólio deste jornalista e merece estudo e exposição regional."
Vitor Serrão



para saber +


Espaço em português dedicado a mitos, lendas, folclore...

Na Wikipédia:

Marcos Cardinalli
in Genrera [online], 23.02.2023

in e-CAM, 17.03.2025

in e-CAM, 17.01.2026

Poema satírico "Marcelo e as Tágides" de Natália Correia
A Mensagem [online], 28.11.2022.
Ler também: Rui Pedro Antunes
in Observador, 5.02.2019








Redação: 1-2.08.2026

A VIDA DE CAMÕES